Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]

Se a inês sabe disto

Uma derrota patriótica e de esquerda

Eu deveria ficar-me por aqui quando na noite eleitoral um jornalista perguntou a um dirigente do PCP a opinião "sobre esta derrota" e o cavalheiro respondeu de forma estapafúrdia "qual derrota?". Mas...

Como no entanto me preocupa a "saúde" da coligação e concomitantemente a do partido maior dos que a integram, lá vão algumas considerações sobre o que aconteceu e porque aconteceu e um contributozinho, ainda que daqui do meu canto insignificante, para tentar inverter este rosário que começou nas autárquicas pretéritas e que ameaça ter continuação para além destas europeias, nas legislativas do próximo Outono.

Apesar de ter de longe o candidato mais preparado para o exercício do cargo, aquele que melhor entende o papel que deve ter um deputado português num parlamento multinacional, João Ferreira, a mensagem não passou e a hecatombe atingiu um número superior a cento e oitenta e oito mil votos perdidos, quase 50% dos conquistados há cinco anos. Ter como explicação fácil a conjuntura da troika, será talvez uma má análise, ao atribuir-se a terceiros o necessário mérito que houve na conquista de um terceiro mandato. É avisado não esquecer que o BE, nas mesmas circunstâncias, apenas conseguiu um deputado e teve um resultado bastante mau, pelo menos para as suas expectativas.

"Ah, perdemos um deputado, mas numa conjuntura favorável ao PS". Não é desculpa, quando o PAN elege um deputado e o BE recupera o que havia perdido em 2014. Mais do que os votos da área da CDU, os votos destas forças andam na área do PS e ainda assim eles atingiram os seus objectivos.

Perder mais de 180 mil votos e atribuir este resultado à "estupidez" do povo que não entende a mensagem é tão estúpido como a própria justificação.

Outrossim culpar a comunicação social, que sabemos tem uma agenda, desde logo comandada pelos grandes grupos de média, mas que quer acima de tudo "vender" imagem, que é o que o seu público pede e para isso paga. Não faz qualquer sentido a grande discussão política nos OCS, se os destinatários dela se alheiam, se não querem saber dela para nada, se não consomem o produto que é o espectáculo da política. Não está o PCP para aí virado? Pois na minha opinião não estando, está a ir mal. Pergunte-se aos eleitores do PS e PSD e até CDS quais as políticas que preconizam para a Europa; Aposto dobrado contra singelo que, sem arriscar muito, mais de 90% não faz a mínima idéia! Ao contrário, os eleitores do PAN e do BE na inversa proporção não tenho dúvidas que sabem! Não são mais esclarecidos porque a mensagem passa mais nas televisões ou nos jornais, estes eleitores são mais esclarecidos porque apoiam partidos que vieram de encontro aos seus anseios, dificuldades e de certa forma resolvem os seus problemas, ou pelo menos têm a perspectiva de resolver.

Numa sociedade cada vez mais terciarizada, mediatizada, em que as pessoas foram afastadas da terra e empurradas para as cidades, fará hoje sentido falar-se, sistematicamente, nos "trabalhadores e o povo" se aquilo que identificava o partido era uma identidade de classe que cada vez está mais esbatida? Parece esquecer-se que os operários de hoje são os informáticos, os médicos e os enfermeiros recém-licenciados, aqueles que tendo formação universitária não têm colocação no mercado de emprego. Esse é hoje o "povo" onde não se consegue chegar, ou pelo menos se chega de forma deficiente. E o resultado depois espelha-se nas urnas. Repito, mais de 180 mil votos perdidos, quase 50%  da anterior eleição, é caso para preocupar e não para desdenhar. "Qual derrota?" disse o cavalheiro para quem o quis ouvir nas televisões, no domingo...

Parecendo-me evidente que a mensagem não passou, os resultados provam-no, torna-se para mim claro que o défice é também de mensageiro. E posto isto, sejamos claro e incisivos, que a situação não vai lá com paninhos quentes. Com todo o respeito que me merece Jerónimo de Sousa, é tempo de mudar de mensageiro. É tempo de colocar à frente do partido uma pessoa, homem ou mulher e há-os com esse perfil já nas fileiras, que transmita uma imagem de modernidade e a confiança necessária aos novos eleitores que atrás mencionei, para que confiem com o seu apoio e o seu voto, no PCP e na CDU. A "política patriotica e de esquerda", não pode ser o chavão usado sempre e a todo o passo. A vida, o país, as pessoas têm outros anseios, outras necessidades, coisas concretas que "uma política patriótica e de esquerda" coisa tão vaga para a maioria, não será o agregador que poderá aumentar o número de gente que siga o partido e as medidas que venha a preconizar seja para a Europa, seja para o país, seja para as autárquicas.

Eu desejo profundamente que este resultado não tivesse sido um rombo vital não só nas aspirações do partido, mas por arrasto numa solução de liderança (que também terá que ser revista na sua forma e conteúdo, i.e. o partido tem que deixar de ser "gerido" por, quase exclusivamente, funcionários políticos que dependem da organização para terem o seu emprego) que se estava, na minha perspectiva, a perfilar: João Ferreira, mas João Oliveira, como Miguel Tiago, como Rita Rato, como Bernardino Soares, com um trabalho notável como autarca em Loures, têm todas as condições para enfrentar este novo desafio que se coloca ao partido. Não apenas recuperar os 180 mil votos que voaram, mas a esses juntar outros tantos. Com novas propostas, atentos às várias realidades, respondendo preferencialmente por antecipação aos novos desafios e despindo a capa, digna é certo, dos defendores dos desgraçados e oprimidos, para também ser o representante, o porta-voz das novas tendências e anseios dos jovens que estão bem preparados para as escolhas, ao contrário do que se quer fazer passar.

Um líder que não tenha medo de propor novas abordagens à Lei eleitoral e dos partidos e que veja na comunicação social não um inimigo, mas um veículo de transmissão da sua mensagem. A tarefa será árdua e complicada? Sem dúvida! Mas neste assunto tão essencial para o futuro do partido e das pessoas e do país, será caso para, aí sim, ir lá ao fundo do baú e puxar dos galões da antiguidade e da luta política e da verticalidade e encontrar um caminho novo, que este que estamos a trilhar, lamento dizer, ou muda ou novos BE's e PAN's nos ultrapassarão a toda a velocidade.

Em resumo, as pessoas, onde eu também me incluo, estão fartas do discurso do desgraçadinho e se eu sou comunista não para ser miserável mas para ter acesso a uma vida digna e se possível desafogada, os outros não tendo qualquer ligação política, seguirão quem honestamente lhes proponha uma vida decente, sem dogmas, sem sofismas, deixando-os ser apenas pessoas, num clima de liberdade e de democracia.

Haverá coragem para isso?

2 comentários

Comentar post