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Se a inês sabe disto

Um post mal cheiroso

Mário Lago*, advogado, poeta, radialista, compositor e actor brasileiro, co-protagonizou certa altura uma novela da Globo (O Casarão, 1976, das muitas onde pontificou) onde o seu personagem, Atílio Sousa, sofrendo de senilidade avançada, tinha a obsessão de transformar merda em ouro (não há outra forma de dizer isto). Passou em Portugal logo a seguir a Gabriela, a primeira a ser transmitida e teve um enorme impacto, talvez porque afrontava ainda que de forma velada, a ditadura militar, instalada então no poder em Brasília.

 

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Ora vem isto a propósito de um estudo, que vale o que vale mas é capaz de ter pernas para andar e virá reabilitar a péssima imagem que atinge o simpático gado vacum, que coitado, por mor do metano que deixa escapar para a atmosfera, está muito mal visto e assume muitas das culpas pelo aquecimento global.

E o que é que este estudo diz, perguntam vocências. Pois diz que é possível produzir papel a partir dos excrementos de vacas e elefantes e outra bicharada herbívora que come erva e palha às toneladas!

A coisa vai ser apresentada no 255.º Encontro Nacional e Exposição da Sociedade Americana de Química, a maior sociedade científica do mundo.

Convenhamos, se pensarmos um pouco (e chegar a conclusões brilhantes depois de outros lá chegarem é tão fácil), o que comem aqueles animais? Celulose! De que é feito o papel? Chegamos lá... Celulose!

A história conta-se rapidamente, embora me pareça que não tivesse sido com esta rapidez que os senhores Alexander Bismarck e Andreas Mauther (da Universidade de Viena, Austria), depois de andarem por Creta, Grécia, a olhar para os cus das cabras e o que defecavam, viram que ingeriam ervas secas (devem ser da cidade, para só em Creta terem reparado no que comem as cabras). “Percebi que o que saía no final era matéria da planta parcialmente digerida, pelo que devia haver celulose”(eu diria que são caganitas, mas pronto!) “Os animais comem biomassa de baixa qualidade contendo celulose, mastigam-na e expõem-na a enzimas e ácidos no seu estômago, e depois produzem estrume. Dependendo do animal, até 40% do estrume é celulose, que é então facilmente acessível”.

Depois de trabalhar com estrume de cabra, Bismarck e Andreas Mautner, ajudados por estudantes de pós-graduação (exploração da malta recém-licenciada, é o que é), fizeram experiências com estrume de cavalos, de vacas e até de elefantes. Imaginem o cheiro. E o mosquedo...

Agora pensem nos parques e reservas africanas, nos elefantes com aquelas trombas todas e as toneladas de folhas que ingerem, quantos best-sellers não poderão ser impressos, depois de aquela bosta toda ser transformada em papel, que é onde estes investigadores querem chegar. 

Imaginem também os milhões de cabeças de gado que pastam nas fazendas do Brasil ou as explorações pecuárias da América e da Europa.

 

Imagem relacionada

 

Se imaginam que isto não foi estudado a fundo e foi tratado como um assunto de caca, tirem daí a idéia. 

Bismarck e Mauther (bom, os estagiários é que meteram a mão na m...assa) trataram o estrume com uma solução de hidróxido de sódio (a vulgar soda cáustica), que remove parcialmente a lignina (macromolécula das plantas, que pode ainda ser usada como fertilizante ou até combustível) e outras impurezas, incluindo proteínas e células mortas.

Para remover completamente a lignina e fazer a polpa branca para o papel o material tem de ser branqueado com hipoclorito de sódio (um desinfetante, conhecido por água sanitária e que é também utilizado para limpeza de ossadas e ainda como auxiliar de decomposição de cadáveres) e praticamente não é necessária moagem para criar as nanofibras para o papel.

Este "processo" tira partido do trabalhinho que o animal faz para se alimentar, já que a enorme quantidade de energia necessária para moer o alimento e produzir a nanocelulose é feita no seu estômago, onde a matéria-prima é também atacada por várias enzimas, tornando o processo de produção muito mais barato com as mesmas ou melhores propriedades que a nanocelulose produzida a partir de madeira, com a vantagem de, para além da redução do consumo de energia, se utillizarem muito menos produtos químicos.

O produto derivado do estrume pode ter aplicações como o reforço para compósitos de polímeros ou filtros para águas residuais, ou para fazer papel para escrever.

Os investigadores procuram agora perceber se o processo pode ser ainda mais sustentável, produzindo-se primeiro biogás a partir do estrume e depois extraindo as fibras de celulose. Falta ainda alguém lembrar-se da forma de aproveitar o metano da digestão das vacas e a coisa fica quase perfeita.

Imaginem uma montanha de estrume, que hoje é um grave problema ambiental, "amanhã" ser uma fonte de energia renovável e posteriormente de matérias-primas de consumo diário.

Nada se perde, nada se cria, tudo se transforma.

Desta nem Atílio Sousa se lembraria.

 

Entretanto, fiquem com um dos temas de Casarão, para desanuviar...

 

 

 

 

*(N. R. Janeiro, 26 de novembro de 1911 — F. R. Janeiro, 30 de maio de 2002)