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Se a inês sabe disto

Jornalixo?

Operação Marquês: Exibição de interrogatórios é

 

Quem me conhece (e quem costuma ler o que por aqui escrevo já se deve ter apercebido) sabe que não nutro particular simpatia, nem pessoal nem política, por José Sócrates e pelos seus governos, portanto tudo o que será escrito a seguir deverá ser entendido como um exercício de cidadania e como marcação de uma posição que acho dever ser a correcta num Estado dito de Direito.

O Processo Marquês, em que estão implicados José Sócrates, Ricardo Salgado e outros, é agora público, o que quer dizer que qualquer bicho careta pode aceder às peças processuais. É assim a Lei e nada a opôr, e já que este é um processo que interessa a todos os portuguêses, será natural que a comunicação social o queira divulgar e será também natural que os portuguêses tenham interesse em saber dele e do que consta na realidade. Pode-se considerar até legítimo este desejo de conhecer o processo, uma vez que nele constam acusações que colocam em causa a confiança que é depositada nos políticos, que terão, deverão ter, um comportamento irrepreensível e dar o exemplo de cumprimento das regras da Democracia aos demais concidadãos.

 

Posto o intróito, a minha indignação terá que se sobrepôr ao meu lado voyeur (cusco em português corrente), quando assisto à emissão de uma estação de TV onde se assiste a um arremedo de jornalismo de investigação do mais rasca. É de louvar o jornalismo que procura a notícia, que busca a ilegalidade escondida, que denuncia prevaricações várias, enfim, que faz o que a justiça não pode ou não quer saber de conseguir obter, publicitar e condenar. Ora esta peça de jornalismo, de investigação tem zero! Ao que assistimos foi à divulgação de interrogatórios aos arguidos e a um julgamento mediático que não interessa à Democracia. A Justiça não pode ser feita na praça pública, as pessoas não podem ser julgadas pela opinião popular, apesar de cada um fazer o seu juízo de valor, o que será perfeitamente legítimo.

Não vale tudo. Os interesses económicos e a guerra de audiências não justificam tudo. O jornalista tem o dever deontológico de preservar o bom nome das pessoas que inclui nas suas peças.

Se me perguntarem se eu acho que aquela cambada é toda culpada, confesso que me restam poucas dúvidas, sendo a coisa mais para a direita ou mais para a esquerda, mas não é isso que está em causa, o que está em causa é que eu não sou juíz, não me compete a mim julgar os réus (se lá chegarem) e last but not the least, se os pudesse julgar teria que ter provas irrefutáveis da sua culpabilidade para os condenar, portanto também não compete a uma estação de televisão, sob a capa de "serviço público", fazer o julgamento em directo, ao vivo e a cores. O edifício judicial condena a publicitação de imagens e peças processuais e abriu um inquérito para determinar quem concedeu o acesso à estação de televisão. Todos, eu e quem lê isto, sabemos que é apenas mais um  inquérito, que é o que se faz em Portugal quando não se quer descobrir e divulgar nada e mandar os problemas para as calendas gregas, ou em linguagem futebolística, chutar para canto. 

 

Há no entanto algo que me vai intrigando cada vez mais, enquanto mais tempo se vai passando sobre a reportagem: A quem interessará a publicação destes interrogatórios? Eu vou começando a formar opinião e creio não andar muito longe da verdade. E os caros leitores, o que acham?

Justiça em alta?

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Confesso que sou muito céptico em relação a condenações de poderosos, em processos-crime ou outros, pelo histórico deplorável de décadas de favorecimento, encobrimento, impunidade e conivência mais ou menos encapotada de quem ajuíza (deveria ajuízar) para com quem deveria ser julgado com imparcialidade e no cumprimento das regras e Leis vigentes, que, coitadas, tanto foram atropeladas durante tanto tempo.

Pode parecer ilusão, pode-se pensar que será apenas para inglês ver, mas parece que o paradigma está a alterar-se. 

Neste momento, por razões diversas, um ex-primeiro ministro, o ex-maior banqueiro do país e dois juízes desembargadores, estão a ser investigados pela justiça, para além de outros poderosos.

Provavelmente nem o mais optimista dos leitores desta página, há meia dúzia de anos, se atreveria a pensar que isto pudesse vir a acontecer, quanto mais num tão curto espaço de tempo.

Por enquanto tudo está ainda no campo da investigação e qualquer destes investigados é, à luz da Lei, presumivelmente inocente; No entanto, como dirá o Povo, onde há fumo há fogo e permito-me deduzir que ao avançar para tão complicados quanto mediáticos processos, a investigação não se exporia ao ridículo de acusar gente tão poderosa, até porque lhe compete a ela, investigação, demonstrar a culpabilidade dos ora constituídos arguidos, como a Lei determina e eu acho que deve ser, sem que tivesse algo de muito sólido.

É comum dizer-se que existe uma justiça para os ricos e outra para os pobres. Sem dúvida e exemplos disso são mais que muitos, desde logo pelo acesso à própria justiça, que sendo caro, impede os que têm menos posses de a ela aceder, mas essa é outra face da justiça, importante, mas que nada tem a ver com este facto novo. Hoje a investigação, nomeadamente a Polícia Judiciária, instrui casos bastante bem fundamentados e deduzo que com basta prova, que se sustentarão solidamente em julgamento, presumo.

Os mais pessimistas poderão temer que tudo se fique por águas de bacalhau, mas mesmo que assim aconteça, que o Estado não consiga provar a acusação deduzida, foi ultrapassada uma barreira que parecia ser impossível de transpôr. Hoje os poderosos sabem que também lhes pode tocar a eles serem investigados, e condenados se forem culpados; Pode parecer qualquer coisa sem importância, mas a mim parece-me uma verdadeira revolução.

Patrícia Teixeira

Edmundo Gonçalves

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