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Se a inês sabe disto

A primeira edição do Rock in Rio, em 1985

 

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Já estamos há algum tempo a ser "bombardeados" com o anúncio de que a 18ª edição do Rock in Rio (8ª em Portugal) está quase a chegar a Lisboa. Faltam exactamente 86 dias para o Parque da Bela Vista voltar a abrir as portas para aquele que, por cá, é muito provavelmente o maior evento musical do ano. E parece que esta edição traz muitas e boas novidades. Se quiserem ficar a par de tudo, dêem uma espreitadela no site oficial do evento. 

Neste post falo-vos um pouco da história que fez nascer a primeira edição do Rock in Rio, em 1985, no Brasil, e partilho também curiosidades e fotos interessantes a respeito deste acontecimento. Vamos a isso...

Decorria o ano de 1985 quando Roberto Medina, um publicitário de sucesso no Brasil, decidiu que queria fazer um festival de música. O país estava ainda a "gatinhar" na democracia, após um longo e duro período de ditadura. Era por isso óbvio que os obstáculos iriam multiplicar-se. O país precisava de somar pontos como destino turístico, a credibilidade do entretenimento estava na mó de baixo e Roberto Medina entendeu que, para ser, teria de ser em grande! Era importante captar a atenção internacional ou nem valia a pena começar. Decidiu enfrentar!

O Governo e a prefeitura do Rio de Janeiro começaram por, a dada altura, bloquear as obras da Cidade do Rock (alegadamente com receio de que Roberto Medina quisesse enveredar pela política). A igreja manifestou-se também contra a iniciativa que, supostamente, iria promover maus comportamentos e um eventual abuso de sexo e drogas. Mas também houve quem desse a mão a este projecto. Roberto Marinho, o então homem forte da TV Globo e da Brahma, ofereceu-se para ser o primeiro patrocinador da iniciativa. Os Queen, imaginem, também colaboraram emprestando a estrutura de iluminação para todas as bandas, sem a qual a realização do evento não teria sido possível. 

No dia 11 de Janeiro de 1985, o Rock in Rio abriu as portas, pela primeira vez, com um cartaz de luxo onde constavam nomes como os AC/DC, Iron Maiden, Rod Stewart, Ozzy Osbourne, Queen, os brasileiros Rita Lee, Gilberto Gil, Paralamas do Sucesso, Rita Lee, Barão Vermelho, entre muitos outros. Foram 10 dias de festa, com a actuação de 28 bandas brasileiras e internacionais e cerca de 1.380.000 pessoas. O Brasil entrou assim para a história dos grandes eventos musicais. 

 

O cartaz em 1985

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  Roberto Medina acompanha as obras de construção da Cidade do Rock

 

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Roberto Medina com dois dos seus filhos, Rodolfo e Roberta Medina. Ela deu continuidade ao trabalho do pai  e é hoje vice-presidente do Rock in Rio.

 

 

 

 

2-Ney-Matogrosso.jpg  Ney Matogrosso

 

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  A chuva não foi grande aliada do evento

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85-00760-01.jpg  Um ardina a vender o jornal do Rock in Rio

 

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queen.jpg  Os Queen emprestaram a estrutura de iluminação para todas as bandas

 

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scorpions.jpg  Scorpions

 

scorpions autografam copacabana palace 18 de janei  Os Scorpions a autografar as t-shirts dos fãs no hotel Copacabana Palace, no Rio de Janeiro

 

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cid castro.png  Cid Castro, criador do logotipo do Rock in Rio

 

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rita lee.jpg   Rita Lee

 

Situações caricatas

Iron Maiden e o acidente em palco...

A banda actuou no dia de abertura do festival, a 11 de Janeiro de 1985, para mais de 100 mil pessoas. O palco estava decorado com deuses da mitologia egípcia e hieróglifos. O vocalista, Bruce Dickinson cantou uma boa parte do concerto com a cabeça ensanguentada porque, durante a interpretação da quarta música, "Revelations", ao passar uma guitarra para o road manager da banda, acertou sem querer no próprio rosto. Mas.. show must go on e Bruce continuou a actuação como se nada tivesse acontecido. 

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AC/DC

Quando aceitaram integrar o cartaz da primeira edição do Rock in Rio, os AC/DC fizeram uma "pequena" exigência. Ou traziam o tradicional sino que habitualmente acompanha a música Hells Bells ou nada feito. A organização aceitou e patrocinou o transporte do sino, através de um navio, para o Rio de Janeiro. No entanto, o palco não suportou o peso deste elemento decorativo (uma tonelada e meia), e o cenógrafo do festival acabou por fabricar uma réplica de gesso à pressa. Nesta actuação o famoso guitarrista da banda, Angus Young, fez um striptease no palco. Só porque sim...

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Ozzy Osbourne e a galinha 

Ozzy subiu no palco com uma camisa do Flamengo, ao som de I Don’t Know”. O contrato feito com o cantor para este evento tinha uma cláusula no mínimo hilariante. Depois de, durante um concerto em 1982, nos Estados Unidos, onde uma pessoa da plateia lhe atirou um morcego vivo para o palco e ele, ao achar que o animal era de plástico, arrancou-lhe a cabeça com uma dentada, a organização do Rock in Rio decidiu proibir o cantor de morder qualquer tipo de animal vivo durante sua actuação. Por causa deste incidente, um fã atirou uma galinha para o palco da Cidade do Rock. 

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Isto já não é de hoje!

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Sou fascinada pelo mundo da publicidade e, de vez em quando, lá vou eu à procura de anúncios antigos. Acho delicioso assistir à frontalidade e simplicidade com que as empresas tentavam vender os seus produtos. Uns mais arrojados que outros são, na sua maioria, um reflexo da história, cultura e evolução da sociedade. Hoje decidi recuperar um post antigo para revermos alumas pérolas da Publicidade de outros tempos.

Em resumo, saibam que em 1927, Manuel Maria da Hora fundou a primeira agência de publicidade portuguesa. Chamava-se Hora e estava sediada na Rua da Prata, em Lisboa. Começou por angariar clientes como a Nestlé, General Motors e a Gillete. Fernando Pessoa foi um dos colaboradores contratados para a criação de slogans. Um deles ficou para a História: "Primeiro estranha-se, depois entranha-se". Foi esta a frase criada pelo autor, em 1929, para uma campanha da Coca-Cola. O slogan acabou por ser proibido pelo regime, assim como a bebida, devido à má conotação da cocaína. Recuperei hoje alguns dos anúncios, na minha opinião mais bem-humorados, que marcaram o início do século XX em Portugal.

 

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O anúncio é de 1905 e assegurava que esta lixívia seria a "sorte grande das lavadeiras". O preço de cada embalagem era 140 reis o que, pelas minhas contas, representa cerca de 7 cêntimos na nossa moeda actual. Foi anunciada como o método para substituir a barrela (mistura de água e sabão usada para clarear a roupa) e a cora (processo de secagem da roupa que era estendida ainda com sabão, para evitar as manchas amarelas). 

 

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Esta imagem é de 1919, quando estreou a primeira versão cinematográfica do filme "A Rosa do Adro", uma adaptação do romance homónimo de Manuel Maria Rodrigues. A Invicta Film Lda era uma produtora de cinema portuguesa, sediada no Porto, que se destacou nos anos 20 tendo encerrado actividade em 1928 por falta de receita.  

 

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 A empresa Ach Brito ainda existe, está sediada no Porto, e a sua história na produção de sabonetes e artigos de perfumaria remonta a 1887. A Superba era uma pasta dentífrica e o anúncio é de 1930. O preço de cada embalagem era mais ou menos 4 cêntimos (valor em euros). Nada exorbitante se tivermos em conta que a embalagem era "gigante" e durava "quasi" meio ano. Simplesmente delicioso :)

 

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O anúncio dos calmantes Adalina, da Bayer, foi publicado em 1930, e é um dos meus favoritos. Bem que podiam recuperá-lo. Anda muito boa gente a precisar de ouvir esta recomendação :).

 

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"Admirável pela sua simplicidade bem patente nas gravuras que damos do motor. Dispensa chauffeurs mecanicos, todos os orgãos principaes do motor são de um acesso facílimo para regular e desmontar". Deduzo que "chauffer mecânico" seria o termo utilizado para designar um mecânico. 

 

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A Camisaria Moderna ainda existe e está, desde 1925, na Baixa de Lisboa. "Botões bem pregados", "camisas que não encolhem" e "colarinhos que não enrugam" eram os slogans nos quais a marca mais apostava para vender o seu produto. 

 

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Digamos que era uma cerveja democrática, que podia ser bebida por todos: "velhos, novos, ricos e pobres". Em 1890, todas as fábricas de cerveja do Porto foram integradas numa única empresa, a Companhia União Fabril Portuense, que se manteve em actividade até 1977, tendo constituído posteriormente a Unicer. 

 

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A Sociedade Corretora Limitada foi fundada em Ponta Delgada, nos Açores, no dia 22 de agosto de 1913, por Cristiano Frazão Pacheco. Ainda hoje a empresa mantém actividade. Inicialmente dedicava-se à exportação de ananás, mas após a Segunda Guerra Mundial  e a consequente dificuldade na exportação, o negócio voltou-se mais para as conservas. A conserveira exporta actualmente para vários países como Canadá, Estados Unidos e Itália. 

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 Limito-me a transcrever o slogan:"A experiência recomenda : Só são Fogareiros Vacuum aqueles que têm gravada a marca Vacuum". Posto isto, nada mais há a dizer :)

 

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 Aqui só tenho uma questão ...era normal os homens que usavam Gillette andarem inclinados? 

 

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 Destaque para o título :"Actualmente é mais fácil obter um busto perfeito, que é o orgulho de toda a mulher, do que pintar os lábios". Dizia o anúncio que os tratamentos Ideal-Buste eram "fruto dos trabalhos dos mais eminentes especialistas que devolveram a felicidade às mulheres de doze países de três continentes. Duvida? Não quer V. Exa gastar dinheiro sem estar segura dos resultados?". 

 

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 Sem palavras! :))

 

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A Savora ainda hoje é uma das marcas de mostarda mais vendidas e apreciadas. O slogan "Experimentai-a e adoptai-a" parece que funcionou!

 

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Este anúncio foi criado para promover o telefone automático. Demorava "vinte e quatro horas a instalar em casa de V.Exa". Bastava, para isso, "telefonar à Companhia ou mandar um postal. Um empregado procurar-vos-á para dar todas as explicações e fornecer os meios de V.Exa d'ali a poucas horas ter o telefone em casa. Nada a pagar antecipadamente". 

 

 

 

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Este protector solar dava pelo nome de Tha-Sol e era da marca Thaber. Destaque para o chapéu e para o fato-de-banho da senhora. Não me parece que estivessem originalmente na foto :). 

 

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 Mais uma campanha a prometer felicidade em troca de uma aposta na lotaria. 

 

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Uma campanha impensável nos dias de hoje...a associação de uma criança a uma bebida alcoólica. 

 

 

 

 

A Feira da Malveira noutros tempos

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Amanhã, como em todas as quintas-feiras, é dia de feira na Malveira. Noutros tempos anual, foi em finais do século XVIII que Dona Maria I autorizou que se realizasse a feira, a pedido da população, para prestar culto a Nossa Senhora dos Remédios. O gado era o principal chamariz e talvez por isso esta terra seja ainda hoje conhecida como a “Malveira dos Bois”. Mas em pouco tempo deixou de ser um evento que se realizava anualmente, mais precisamente em Março, para começar a acontecer todas as quintas-feiras. Os comerciantes de outras zonas do país começaram a abeirar-se desta zona de comércio que passou assim a comercializar todo o tipo de produtos como ferramentas, calçado, antiguidades, fruta, sementes e outros produtos alimentares.

Naquela zona as famosas casas de pasto de antigamente foram dando lugar a restaurantes, mas os sabores são os mesmos de uma região rica em gastronomia. Vale a pena visitar. Deixe-se levar por tempos antigos e imagine aldeões de barrete preto e mulheres de saias rodadas, saloias, genuínas como o pão regional que se vende em todo o lado ou o queijo fresco que tem um sabor ímpar. Prove a fruta, o vinho ou o tremoço e passe uma manhã de alcofa na mão com o prazer de chegar a casa e encher o frigorífico com produtos regionais. A Feira da Malveira é uma horta urbana com variados paladares campestres. Deixo-vos com algumas fotos antigas, retiradas da página do Facebook Feiras Tradicionais de Antigamente. 

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Santa Iria

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Texto de Edmundo Gonçalves

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A minha primeira memória da Feira de Santa Iria tem a ver com uma camioneta enorme, de madeira, que durou até eu me colocar em cima dela para tentar descer um carreiro íngreme que havia perto da casa da minha avó. Deveria ter aí uns quatro, cinco anos, antes de me mudar para a cidade, aos sete. A camioneta provavelmente não seria tão grande como eu a via, deveria ser proporcional ao meu tamanho, de modo que talvez não fosse tão grande assim.

Depois da mudança para a cidade e para a classe do professor Correia, a Feira era o acontecimento do ano, com a parafernália de divertimentos, das barracas de tiros, dos “robertos”, o teatro de marionetas, da barraca dos espelhos, do comércio de tudo e mais alguma coisa, com muita luz e com milhares de pessoas a visitá-la. O circo era o Mariano, onde ouvi e vi pela primeira vez Fernando Farinha que era uma vedeta da rádio, um fadista barreirense adoptado pelo bairro lisboeta da Bica e que mais tarde (o Mundo é um penico) vim a conhecer pessoalmente e a privar. Bom, os meus pais é que gostavam do fadista, eu ia ao Mariano mais por outras atracções. Sempre me fascinou ver os trapezistas, ainda hoje me fascina, voltas e mais voltas e piruetas e mortais;  Aos animais não achava muita piada, mas não perdia a visita às jaulas, com eles ali mesmo à mão, num misto de audácia e “cagufa”. E havia o Poço da Morte, com o Joselito na mota e o pai num carro, num rodopiar louco à volta das paredes, com o rosto tapado, sem mãos, de joelhos e o aplauso efusivo no final “Arrojo, Audácia, Sangue Frio, venha ao Poço da Morte”. Uns heróis! Vim também a encontra-los mais tarde, na Feira Popular de Lisboa, através de um amigo que lá tinha um negócio e que me apresentou ao Joselito. Acreditem que foi uma enorme emoção, não tanto pelo acto, mas pela recordação do fascínio de infância. Acreditem, o Mundo é mesmo um penico!

E os carros de choque, tudo a andar à roda da pista, uma Indianápolis de miniatura, com as faúlhas a saltar da rede electrificada. E o carroussel, “mais uma volta, mais uma viagem, no Maravilha”, aquela bicharada toda a andar à roda sem parar, subindo e descendo, num efeito oito, fazendo um barulho só superado pelo berreiro das cornetas que passavam a música da moda e a voz fanhosa do tipo da cabine de comando “vá lá menina, compre uma senha e leva duas”. Confesso que não vou à Feira há mais de vinte anos, por nenhuma razão que não seja a de não estar em Tomar, mas recordo um episódio engraçado passado com uma rapaziada do Colégio Nun’Álvares, que num dia de soltura  por uma desavença qualquer com o tipo do carroussel, provavelmente porque se estariam a portar “bem”, não os ter deixado dar mais uma voltinha, saltaram p’ra cima daquela coisa e vai de arrancar a bicharada toda e carregar com alguns cavalos, burros, girafas e sei lá mais o quê, para o colégio. Chegaram ao mesmo tempo que a polícia. Segundo um amigo participante na “festa” e que reencontrei mais tarde profissionalmente, o “velho”, como era carinhosamente tratado o proprietário do colégio, o Dr. Raul Lopes, com o seu ar calmo perguntou à trupe “afinal o que é que se passou, porque é que trazem os bichos para o colégio?” “Doutor, o gajo não nos quis deixar andar no carrossel e a gente passou-se”. “Muito bem, os cavalos não saem daqui!”

Salva a honra dos seus alunos e do colégio e evidenciada a sua autoridade, no dia seguinte todos os implicados, numa camioneta, foram entregar os animais sobreviventes ao carroussel. Alguns coxos, outros mancos, mas a bicheza continuou a andar à roda para uma “nova corrida, nova viagem”…

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Bairro das Flores - Memórias de Tomar

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 Texto de Edmundo Gonçalves

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Já aqui falei dele. Era formado pelos quarteirões que vão da Av.ª Cândido Madureira à Várzea Pequena, com a Praça da República pelo meio. Apropriadamente tinha esse nome, pelas flores que quase todas as casas ostentavam à porta e algumas em toda a frontaria. Hoje ainda algumas, poucas, mantêm esse passado vivo.

Curiosamente e havendo a grande Praça a meio, a divisória do “bairro” não era no sentido sul/norte, mas nascente poente, como se houvesse uma fronteira imaginária nas Rua Direita, a da Várzea Grande e a da Várzea Pequena.

A ligação da rapaziada estendia-se mais no sentido sul/norte, abarcando toda a parte “de cima” ou toda a parte “de baixo” do “bairro”. E assim de repente vêm-me à memória o Paulo, o filho da Lena e um futebolista excelente (um Pedro Barbosa, em bom), o Quim do Vale, O Marito, grande Guarda-redes do União, prematuramente perdido para o futebol em consequência de um estúpido acidente de automóvel numa deslocação para assistir a uma final europeia em Lisboa e onde perdeu a vida outra jovem promessa do clube, Veríssimo; o Zé Manel, Pícaro de alcunha, irmão do Marito e ainda a Pícara, como calcularão irmã de ambos; o Tininho, também já falecido e um personagem, que fazia questão de nos acompanhar nas imperiais no Noite e Sol com iogurte, só porque sim. E o Zé Martins, filho de outra figura ímpar da cidade, o Manel Martins, um homem da cultura e do teatro e um apreciador de belos néctares, com quem privei nalguns locais e onde o lanche era pretexto para discussão sobre cultura e política. O Camilo e o Paulinho estufador, da minha rua ambos e ainda o Zé da farmácia e o Fernando Zé dos retratos, de quem já falei e que foi meu parceiro, os Pimentas da farmácia, um pouco mais velhos, mas o Tó alinhava sempre nos “copos”. Lá mais para a ponta, acho que na Gil de Avô, moravam os Vigário, cujo pai tinha a Casa (Adega?) dos Passarinhos e inventou aquela bebida extraordinária chamada “Mouchão”. Um deles, o mais novo, Belmiro, também jogador no União. E os mais velhos: O Zé Júlio da ourivesaria Puga, que hoje tem uma loja lá mais perto do cine-teatro; o “vizinho” Abel, marceneiro de eleição e uma pessoa extraordinária; a Casa das Ratas e o Sr. Matreno, o Cândido do restaurante que é hoje o Piri-Piri e que fundou a Pic-Nic; a latoaria junto ao cinema e que hoje é uma casa de jornais e revistas; o Bar Sem Nome, que era a porta de entrada no bairro, em frente ao hospital da Misericórdia e é hoje o restaurante O Infante; a oficina de motorizadas do Fernando Mendes, activo director do União de Tomar em várias ocasiões, situada no que foi talvez o primeiro hospital da cidade; a Nabantina, a colectividade maior do bairro, com uma escola e banda de música notáveis; o Migalhas e a sua loja de velharias e latoaria; o supermercado do Neto; a casa do Chico, que ainda está em pleno funcionamento; o Joaquim Ferreira, barbeiro e cabeleireiro que acumulava com a portaria do cine-teatro e foi o “responsável” pela minha doidice por cinema, porque me deixava entrar, já quando a sala estava na penumbra, para assistir a filmes vedados para a minha idade, mas que me rasgaram os olhos e a mente; a loja da Singer; a Papelaria Gouveia, que (acho que) resiste; a espingardaria em frente ao cine-teatro e que foi depois uma loja de perfumes e que hoje está emparedada e decrépita; a ourivesaria Puga, que ainda lá está, embora apenas num dos lados da rua; a Gráfica, uma livraria e papelaria extraordinária, que tinha aquele cheiro “a livros” maravilhoso; a loja de ferragens do António Domingos, que deu lugar a um pronto-a-vestir; a Sacor, que é hoje um snack-Bar; a Reinolar, que resiste aos hipers; a Loja dos Rapazes…

Vai longa a lista, mas estão referenciados um número ínfimo de pessoas que fizeram parte da minha infância e juventude e de estabelecimentos dos mais variados ramos que eram parte importante do tecido empresarial da cidade e que davam emprego a imensa gente. Aquilo a que outrora foi chamado de judiaria pela presença discreta, porém imponente da sinagoga, um monumento maior da cultura hebraica e que talvez tenha contribuído para a singularidade daquele perímetro, apesar da grandiosidade da igreja de S. João Baptista, que domina a Praça da República. 

Provavelmente quem nasceu ou viveu noutras partes da cidade dirá o mesmo que eu e terá a mesma memória da importância do seu local, mas permitam-me a imodéstia, até pela importância dada pela festa maior da cidade e do concelho, a Festa dos Tabuleiros, com a decoração das ruas (hoje estendida a outras partes da cidade e muito bem), deu a este auto-designado Bairro das Flores, um carisma muito próprio e um sentimento ímpar nos seus habitantes. E nós, os mais novos na altura, sentíamos aquilo com convicção. Eu diria, até, com devoção.