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Se a inês sabe disto

O transtorno de um vôo cancelado

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Num misto de falta de tempo com pouca vontade de recordar coisas tristes, estou há mais de um mês a adiar este post. Mas agora, com tantos vôos cancelados que fazem as honras de abertura dos telejornais (devido ao mau tempo), decidi partilhar convosco a minha recente experiência numa viagem-relâmpago que fiz à cidade de Hamburgo, na Alemanha.

Para começar viajei em trabalho, com um colega, e estaríamos pouco mais de 48 horas na cidade alemã. Foi o tempo que, em conjunto com a organização da viagem, nos pareceu suficiente para realizar o trabalho com competência. E assim foi. Numa manhã despachámos o que nos foi encomendado e festejámos o facto de sobrar-nos algumas horas para visitar a cidade. Aproveitámos ao máximo para percorrer a pé, em passo acelerado e sob 8 graus negativos, 10 kms que passaram à porta dos principais monumentos, aqueles que queríamos mesmo visitar. Destaque para a vista que nos encanta em todos os recantos daquela cidade. É uma espécie de Veneza dos tempos modernos. Mas este é um tema que ficará para outro post.

Vamos realmente ao que interessa. Fui em reportagem e, na mala, de regresso a Lisboa, teria de trazer um trabalho bem feito que seria, no meu caso, complementado com algumas entrevistas a realizar no minuto em que desembarcasse na capital portuguesa. No Jornalismo é quase sempre assim, tudo tem de estar pronto para ontem. Mas como estava previsto o meu vôo de regresso chegar a Lisboa perto das 08:00 da manhã, o tempo seria mais que suficiente para realizar as entrevistas que estavam em falta, ir para casa, encher-me de energia, colar-me ao computador e entregar o trabalho à hora marcada...às 20:00 desse mesmo dia. Acontece que para tudo ter corrido como estava previsto, era impreterível que eu saísse de Hamburgo no vôo cuja partida estava marcada para as 06:00. Perto da hora em que já devíamos estar no avião, sentados, a rezar para que a viagem corresse bem, estavamos ainda na sala de embarque com a informação de que o vôo estava atrasado e não havia previsão da hora de embarque. Ali ficámos, sem poder fazer nada, com o cansaço a dar sinal, mas na esperança de que o atraso não fosse grande o suficiente para prejudicar o nosso trabalho que, a não ser entregue a tempo, iria resultar no prejuízo de milhares de euros para os patrocinadores que pagaram para ver as suas marcas e entrevistas divulgadas na imprensa nacional e estrangeira no dia seguinte.

Três horas depois de um vazio desesperante por falta de informação a respeito do vôo, também por já termos esgotado todas as posições possíveis para conseguir descansar minimamente naquelas cadeiras pouco confortáveis das salas de embarque, a TAP começou a distribuir vouchers de refeição pelos passageiros. Péssimo sinal. Se nos estão a mandar ir dar uma volta pelo aeroporto e aproveitar para comer qualquer coisa, era pouco provável que saíssemos dali tão cedo. Estava na altura de informar quem me contratou em Portugal que havia a possibilidade do vôo nem sequer ser concretizado. Gerou-se uma onda de desespero, partilhada por mim, pelo colega que viajou comigo, pelos patrocinadores e por quem me contratou. Todos sabíamos que nada havia a fazer senão esperar. Mas em desespero, tudo o que era descabido nos passou pela cabeça. Ponderámos alugar um carro, um helicóptero, um jacto. Mas nada disso era prático nem viável. Enquanto isso, a companhia aérea informou finalmente de que o vôo tinha sido cancelado devido a uma avaria na turbina do avião. Mandaram-nos recolher as malas e dirigirmo-nos o mais rapidamente possível ao balcão do aeroporto que trata de apresentar soluções a todos os passageiros lesados com este cancelamento. Até aqui, e ignorando o meu estado emocional que estava em frangalhos e os nervos no limite, pareceu-nos que apesar de tudo a partir dali a situação iria fluir de forma mais fácil. Afinal, a competência que esperamos de uma companhia tão conceituada como a TAP dá-nos algum descanso e a certeza de que certamente nos encaminharão rápida e eficazmente para a melhor solução. Mas depressa descobrimos que embora as soluções apresentadas pela companhia tivessem fama de não serem mazinhas de todo, até que chegasse a nossa vez de sermos atendidos passaram mais três ou quatro horas. Aceito que para os funcionários seja complicado gerir este tipo de situação, afinal, são centenas de pessoas que no menor tempo possível eles têm de reencaminhar para os seus destinos, dê por onde der. Mas continuo a acreditar que nada se compara ao stress de quem fica em terra, com compromissos inadiáveis no destino, com reencontros familiares agendados há uma década que deixam de acontecer, com férias marcadas e sonhadas há tanto tempo que não foram concretizadas. Até uma história de amor à distância eu vi ficar por ali. Enquanto estive na fila de espera, ri, chorei, desesperei mas, acima de tudo, aprendi a grande lição de que por vezes, o rumo da vida e das coisas, não depende mesmo de nós. E quanto a isso nada há a fazer. Respirei fundo, e quando chegou a minha vez de ser atendida, simpaticamente ofereceram-me a hipótese de ficar mais uma noite em Hamburgo, com tudo pago pela companhia, e nesse caso embarcaria no primeiro vôo do dia seguinte para Lisboa. Ou então faria escala nesse mesmo dia em Zurique, na Suíça e da Suíça partiria finalmente para Lisboa, onde estava previsto aterrar perto das 21:00. Aceitei de imediato a segunda hipótese e lá fui eu dar uma volta até Zurique, onde aterrei sob uma grande tempestade de neve. Cheguei a Lisboa sã e salva e, perdoem-me a presunção, mas com muito profissionalismo e rapidez a teclar, consegui entregar o trabalho nesse mesmo dia. Não no tempo previsto mas a tempo de não dar prejuízo a ninguém. 

Quanto à TAP ( e até parece que vou receber uma indemnização pelo cancelamento do vôo), responsável pela minha maior crise de nervos, ansiedade e stress que vivi até hoje, só tenho a agradecer. Porque descobriram a avaria em terra, porque foram de uma simpatia extrema nas longas horas em que estivémos a aguardar por notícias do vôo, porque fizeram o melhor que podiam para reencaminhar cada um dos passageiros para o seu destino e porque, finalmente, verteram connosco uma lagriminha disfarçada perante alguns casos mais dramáticos. E perdoem-me a lamechice da coisa, mas quem me conhece sabe que sou assim...as emoções são aquilo que nos alimenta a vida. O resto é conversa!