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Se a inês sabe disto

O país da matança

Para quem ficou a pensar que ia ler alguma discorrência sobre a tradicional matança do porco, vai ter que esperar algum tempo que hoje vamos falar de outras mortes violentas.

Já aqui prestei homenagem a Marielle Franco, a vereadora do Rio de Janeiro executada há duas semanas.

Chega agora a vez de falar de Lula da Silva. Depois da tentativa de assassinato político, encenada em julgamentos fantoches alicerçados em provas sem qualquer fundamento (um apartamento que terá recebido que se provou não ter sido sequer sua propriedade), aconteceram já duas tentativas de assassinato à séria. A primeira, há uns dias, quando se verificou que um carro carregado de explosivos seguia o carro do ex-presidente e anunciado candidato à presidência do Brasil; A segunda, ontem, quando dois autocarros da comitiva de Lula foram baleados, no estado do Paraná. Felizmente não houve mortes a lamentar, mas os dois autocarros onde seguiam os jornalistas e convidados, foram atacados à bala. Lula saiu ileso, porque, talvez por precaução, seguia numa viatura ligeira, bem vigiada.

Depois do golpe de estado contra Dilma (Um parêntisis para afirmar que Dilma teve o mandato cassado apenas porque usou uma ferramenta corriqueira e legal por exemplo nos países da União Europeia, que foi a de alocar verbas do orçamento para rubricas para onde não estavam consideradas, sem desvios, sem roubos, sem nada na manga. Foi, a maioria considera-o, um golpe de estado), Ora depois deste golpe anti-democrático, perpretado por gente da direita mais reaccionária do Brasil, Temer incluído, essa direita revanchista, saudosista, com trejeitos ainda do tempo dos coronéis, que tinha sido remetida ao silêncio pelas políticas sociais de Lula, que tiraram mais de 80 milhões de brasileiros da pobreza absoluta conferindo-lhes direito a um salário, que criaram uma classe média com dinheiro e não apenas de estatuto, que colocaram o país, que até aí estava na bancarrota, no grupo dos dez mais ricos e poderosos do Mundo, essa direita fascista encontrou no processo de corrupção Lava Jato, forma de implicar Lula e por simpatia atacar o governo de Dilma. Sabemos o desfecho e como se chegou a ele. Com o que esta direita apoiada nos militares, que intervencionou o Rio de Janeiro com tropa de elite, reprimindo não os traficantes, mas o povo que clama por pão e justiça, não contava, é que mesmo desacreditado na "justiça", Lula é o candidato que segue isoladíssimo na frente nas sondagens para as presidenciais de Outubro próximo e tudo têm feito, com a conivência de juízes amigos, que tão céleres são a julgar os supostos crimes de Lula como são lentos a julgar os amigos, alguns acusados precisamente dos mesmos crimes, para impedir Lula de se apresentar a eleições.

O que esta direita podre que dominou o Brasil durante vinte anos (1964-1985) depois do golpe militar pretende, é o regresso ao passado. Convém ser rigoroso e não culpar apenas os militares pelo golpe de 1 de Abril de 1964; A mesma direita que hoje quer chegar ao poder a todo o custo, foi a que apoiou e nalguns casos liderou o golpe. Falamos dos grandes proprietários rurais, da burguesia industrial paulista,  grande parte da classe média urbana (que na época andava pelos 35% da população total do país) e o sector conservador e anti-comunista da igreja católica. E o Brasil viveu vinte anos que o fizeram regredir quase ao tempo da escravatura. Depois apareceu Tancredo Neves em '85 que abriu uma fresta e daí até às directas foi ainda um processo enorme de luta nas ruas, que culminou com a eleição de Lula, após três tentativas falhadas, devido ao sistema de cooptação (eleição indirecta).

Lula liderou o Brasil durante oito anos. De Janeiro de 2003 a Janeiro de 2011 e colocou os programas sociais no topo da agenda durante as duas campanhas e depois no palácio do Planalto. Desde o início, o seu principal objectivo era erradicar a fome. Criou o programa Fome Zero, que reúne uma série de programas com o objetivo de acabar com a fome no Brasil, incluindo a construção de cisternas na região do Sertão (onde chove quando o rei faz anos), além de ações para minimizar o flagelo da gravidez na adolescência, fortalecer a agricultura familiar, distribuir uma quantidade mínima de dinheiro para os pobres e muitas outras medidas.

O maior programa de assistência, no entanto, foi o Bolsa Família, que se baseou num programa Bolsa Escola, que estava condicionado à frequência escolar, introduzido pela primeira vez em Campinas. Aos poucos, outros municípios e estados adoptaram programas idênticos.  Henrique Cardoso federalizou o programa em 2001. Em 2003, Lula formou o Bolsa Família combinando o Bolsa Escola com subsídios adicionais para alimentos e gás de cozinha. Para avançar com o programa e para que lhe fosse reconhecida a verdadeira importância revolucionária que detinha, foi criado previamente um novo ministério, o Ministério do Desenvolvimento Social e Erradicação da Fome. 

O programa Bolsa Família foi elogiado internacionalmente. O Fome Zero iria ter um orçamento do governo e aceitar doações do sector privado e organizações internacionais. 

Juntamente com projetos como o Fome Zero e o Bolsa Família, outro incontornável e importante programa do governo Lula foi o Programa de Aceleração do Crescimento (PAC). O PAC tinha um orçamento total de cerca de  650 mil milhões de Reais (cerca de 156MM€ ao câmbio actual)) até 2010 e era o principal programa de investimentos do governo Lula. O objetivo era fortalecer a infra-estrutura do país e, consequentemente, estimular o setor privado e criar mais empregos. 

E é mais ou menos isto que incomoda os coronéis da actualidade. A perda de privilégios e a confrontação de gente mais letrada que deixou de ser miserável e defende os seus direitos sem medo e com a barriga cheia. Para quem não sabe, dá outro conforto e muito mais ânimo, lutar com a barriga aconchegada. Vergar um miserável é fácil.

José María Aznar, ex-primeiro ministro espanhol, insuspeito porque de um partido de direita, terá sido o primeiro a entender o que se passa hoje no Brasil, pelo menos publicamente. Foi o primeiro a avisar Lula de que o iriam tentar matar. Tinha razão!

 

Supremo do Brasil decide quinta-feira recurso de Lula para impedir a sua prisão