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SE A INÊS SABE DISTO!

SE A INÊS SABE DISTO!

28 de Março, 2020

O confinamento faz as pessoas melhores?

Edmundo Gonçalves

(Foto: Yamil LAGE / AFP)

 

Há no momento em que escrevo isto, médicos e outros profissionais de saúde cubanos em 57 países all over the world, prestando ajuda no combate à primeira pandemia do século XXI declarada (a outra é a fome, mas dessa não convém falar), o Covid-19. O sentimento de dádiva internacionalista e de abnegação solidária, parece não ter para quem  vive há 60 anos sob um embargo desumano, qualquer importância em ser distribuído, sem olhar a quem precisa.

E destes 57 países, muitos deles estão sempre na linha da frente, quando toca a ratificar a opção estratégica dos enormes Estados Unidos da América em continuar o bloqueio. Um deles é precisamente a Itália, há outros mas o que me interessa agora é a Itália. Abandonada à sua sorte pela rica e próspera e amiga e comparte União Europeia, vê morrer os seus cidadãos como tordos, vê o seu sistema de saúde colapsar, vê o gajo das finanças holandês negar-lhe opção de ajuda e quem é que lhe aparece no aeroporto de Milano, Malpensa? Isso mesmo, uma enorme equipa de médicos, enfermeiros e auxiliares, mais de 50, oriundos daquela pequena ilha das Caraíbas que eles, sempre que o tio Sam lhes pede, ajudam a isolar mais um bocadinho. Não vem ao caso, mas foram juntar-se a uma equipa de médicos chineses, outros excomungados, que estavam já a trabalhar num hospital em Bérgamo.

Vem o título a propósito da pandemia e do confinamento a que cerca de dois mil milhões de pessoas em todo o planeta, se vêm forçados a cumprir. Nada será como antes (já não o era no quartel de Abrantes...), depois destes tempos. O isolamento, o confinamento às suas residências por tempo por enquanto previsível de dois meses, mas que se pode estender muito para lá disso, vai trazer às pessoas uma outra perspectiva de vida, um outro sentimento e sobretudo uma nova forma de olhar o Mundo. Se calhar vai fazer-lhes(nos) bem esta outra forma de estar em contacto com os outros, de apesar de não estarem isolados (há sempre a internet e a televisão), dependerem deles para as necessidades mais básicas. E quem tem possibilidade física e espaço, tratará de semear sutento para si e para os seus. É o que têm feito os cubanos. Onde apesar do bloqueio, ou por causa dele, não há analfabetismo, não há pobreza no sentido de miséria, há nove médicos por cada mil habitantes, mais de cem mil num total de mais de 376 mil profissionais de saúde.

Não tenho qualquer dúvida de que advirá desta pandemia uma sociedade diferente, se para melhor se para pior não sei, não sou vidente, mas se este confinamento, este embargo que um minúsculo vírus nos aplica, não nos tornar mais fortes, tomemos como exemplo o povo cubano, que com um gigante a impedir-lhe ter uma vida normal, fez da anormalidade o seu modo de vida e segue em frente, sem rancor, sem cobrar nada a quem o espezinha, ajudando quem lhe nega imaginem, coisas tão simples como medicamentos e pão.

Não há dúvida que sendo os cubanos tolerantes e simpáticos por natureza, falo por conhecimento de causa, o que os tornou mais fortes e unidos como povo, o que os levou a ultrapassar todas as adversidades, foi a arrogância de um gigante que mora ali mesmo ao lado e que lhes deu o tónico, a força para resistir e hoje poder dar sem cobrar, fazendo uso da palavra solidariedade como um símbolo de paz e tolerância.

Chama-se a isto uma chapada de luva branca, ainda que quem a dá não esteja sequer a pensar nisso.

Aproveitem este tempo em casa. E depois, tentem ser "cubanos".