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Se a inês sabe disto

Férias escolares

 

Regressava do almoço para o trabalho (em regra almoço em casa) e oiço a menina da rádio do carro dizer que, a propósito de nesta época os miúdos estarem em casa, de férias, é preciso muita imaginação para os entreter.

Confesso que me vieram à cabeça os meus tempos de criança e jovem e as férias, as da Páscoa e as outras e dei comigo a tentar lembrar-me se a minha mãe (que trabalhava em casa, era doméstica - que raio de adjectivo - e agora já está reformada e continua a trabalhar em casa) se ocupava muito a entreter-me e não tenho grande memória de que tal tivesse acontecido. Não que ela não pudesse, ou que não estivesse habilitada, ou mesmo que não quisesse. Eu é que não queria! Ora não querem lá ver, férias e eu a "aturar" a minha mãe. Era o aturavas! Férias era sinónimo de rua o dia inteiro, futebol até cair p'ró lado, jogos e apanhada e "chinchada" à fruta que ia havendo, consoante a época do ano.

Hoje a preocupação daquela radialista, jovem mãe, era como entreter o rebento nas férias, como há cinquenta anos o da minha e das outras mães era como fazer-nos almoçar e regressar a casa ao final do dia.

Consumidor compulsivo de ficção ciêntífica desde o início da adolescência, não me ouvirão nunca contrário à evolução tecnológica que permite que hoje os meus netos, ela com quatro e ele com dois anos, dominem um smartphone ou um tablet como eu nunca consegui driblar os meus adversários, no campo improvisado na estrada onde o trânsito escasso (havia apenas um automóvel na terra e as carroças moviam-se lentamente) permitia a realização de excitantes derbys de muda aos seis e acaba aos doze.

Não será culpa da evolução tecnológica o confinamento das crianças às suas casas. É certo que as redes sociais e os jogos conduzem a um certo isolamento, mas o que importa aqui saber é se os jogos, as consolas, o isolamento são a causa ou a consequência e a mim parece-me que são mais a consequência de muita coisa, a primeira das quais me parece ser a insegurança, mais real que imaginária, que os pais têm e que os leva a, para protecção dos filhos, não lhes permitirem usufruir da rua. A rua, a maior faculdade da vida, viu-se aos poucos despovoada dos risos, das gargalhadas, das travessuras dos seus mais genuínos ocupantes e foi morrendo lentamente, tendo sido aos poucos ocupada por gente com outros sentimentos e opções, que impede agora que os seus legítimos donos, as crianças, a ela voltem.

Não há hoje um pai que, conscientemente e não apenas nas grandes cidades deixe, de ânimo leve, que a sua cria vá à rua brincar só, ou com outras crianças. A desculpa dos pais é a de que "ele/a não larga a consola, que hei-de fazer?" mas lá no fundo fomentam a sua utilização, com o terror de os verem querer sair de casa para brincar com os amigos. Porque é hoje inseguro para as crianças brincar na rua. E a culpa não é do aumento do número de carros, porque o número de jardins e outros espaços de recreio aumentou exponencialmente, havendo hoje uma enorme oferta com imensa qualidade para que as crianças não fiquem fechadas em casa. Felizmente não chegámos ao extremo dos EUA, onde nem nas escolas as crianças e os jovens estão em segurança, mas a rua é hoje um lugar perigoso para as nossas crianças.

O que é certo é que os horizontes que a realidade virtual lhes proporciona, sendo importantes para a sua vida, não os vacina contra as bactérias e vírus com que a vida os armadilha. Esses apenas os apanham na rua e só os apanhando, contra eles criam os anti-corpos necessários para lhes resistirem e sobreviver. O conhecimento adquirido à volta da tecnologia pode ser importante e será certamente, numa sociedade cada vez mais competitiva, mas ter sujado as mãos na terra, ter escutado os pássaros cantar, eventualmente ter roubado algum ninho ou comido fruta alheia, ter rasgado as calças numa queda de bicicleta, ter rachado a cabeça fruto duma pancada duma pedra voadora numa luta de rua, pode não ensinar a liquidar milhares de "inimigos" numa qualquer aldeia imaginária (que será metaforicamente a selva da sua vida adulta), mas vacina contra imensos males de hoje, entre eles a falta de escrúpulos e de lealdade e onde tudo se compra e ajuda a conservar o velho hábito de fazer e conservar amigos. O melhor do mundo, logo a seguir às crianças.

 

Boas férias.

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