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Se a inês sabe disto

À boleia da casa rolante

O tempo que isto andou a ser preparado...

É hoje, é amanhã, agora não dá porque eu tenho isto, depois para mim não dá porque tenho aquilo... Não imaginam o que é conciliar a agenda de uma multidão de gente. Três pessoas!

Mas a coisa deu-se e numa sexta à tarde, depois do trabalho, lá pegámos na casa rolante que alminha caridosa e amiga nos fez o favor de emprestar (obrigado Paulinha e Diogo), dicas entendidas... Bom, deixemos pormenores embaraçantes para trás, que isto é o registo de coisas boas, dicas entendidas dizia eu (mais ou menos, pronto), lá saímos da Ericeira com rumo a norte, objectivo Picos da Europa. A vontade de sair era tanta que a primeira etapa foi um esticão enorme até à praia de... Areia Branca! Não comecem a rir, por favor, era já noite e tendo uma casa com rodas para descansar e dormir, não faz qualquer sentido circular de noite, de modo que com os olhos treinados para qualquer eventualidade, alguém viu uma churrasqueira e o primeiro jantar foi frango, comido a ouvir o mar e regado com um belo tinto. Não há registo fotográfico, porque como não se via o mar, não fazia muito sentido ter fotos sem imagens, não é? Isso é para artistas e nós é mais comer e buer .

Bom, mas se no primeiro dia quase nem aquecíamos o motor da fragoneta, no segundo fizémo-nos à estrada que nem doidos! Por aí acima até Vigo, que foi um tiro! Chegámos ao final do dia, que estava nublado e frio, ventoso junto ao mar como podem constatar pelas fotos, onde pensámos em pernoitar, mas o spot indicado na aplicação móvel não era do nosso agrado e no estacionamento em frente à praia, avisou-nos o senhor do talho do Dia onde fomos comprar jantarinho, que a polícia não deixava aparcar. Ora toca de olhar para o GPS e encontrar algum sítio nas Rías Baixas onde estívessemos à vontade e fosse agradável. Opinião daqui e dacoli (quem sofre mais é quem leva o bolo-rei na mão, que mais parece um catavento. Vai para ali, não, vai para acolá... vocês entendem-me, n'é?) lá chegamos a um local excelente onde estacionámos a voiture e a Isabel pôs o jantar a andar, um cordeiro estufado que ficou no fogão enquanto fomos mandar umas cañas abaixo. A comidinha estava no ponto quando chegámos, tinha começado a chover (a noite foi bastante chuvosa, ainda ali chegaram ares do Leslie). Estacionámos a dois metros da água, como podem ver pelas fotos, numa localidade de nome Moaña. Recomenda-se, como se recomenda toda a área das Rías Baixas, com as suas reentrâncias, as suas baías, os viveiros de mexilhão e de ostras às centenas em cada local. Quanto ao marisco, peço desculpa por não ser entusiasta, mas quem está habituado a coisa boa...

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Adiante. A noite como disse foi chuvosa, mas o dia amanheceu limpo e com temperatura amena, chegando o sol a aparecer radioso. Próxima etapa, Pontevedra, seguindo sempre pela costa, onde chegámos por volta da hora de almoço, pretexto para umas tapas e um Albariño e mais cañas e uma voltinha pela cidade, claro.

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- Então e agora vamos para onde?

- Olha vi aqui no folheto do turismo que há um festival de marisco em Ogrove.

- É pá, e onde é que é isso? (como se isso importasse alguma coisa, mas fica sempre bem perguntar...)

E lá fomos para Ogrove, para o festival do marisco. Pela costa, sempre pela costa que o sol estava lindo e o mar uma delícia para a vista. Foi tão fácil estacionar junto ao recinto que até dissemos que deviam estar à nossa espera. E estavam. Provavelmente para os ajudar a carregar o material. Eu já disse que o marisco espanhol, pronto, tem lá as suas particularidades que eu não gosto de ser maldizente, mas um gajo chegar a um festival do marisco e aquilo ter acabado de fechar portas, é um galo do camândrio! Olha, fomos às imperiais, para vingança! E como ali já tínhamos visto o que (não) tínhamos de ver, ala para Santiago! Chegámos também cedo, a aplicação tinha vários locais para estacionar a carripana, mas ou o cabrão do GPS estava doido, ou sei lá, mandáva-nos sempre para parques de estacionamento subterrâneos, o que calcularão não é o mais apropriado para uma viatura daquelas... Bom, voltas e voltas que nos deram um conhecimento de guia profissional depois, lá encontrámos um local muito bom, no campus universitário a cerca de 500 metros da catedral, sossegado, que se verificou ter apenas um inconveniente, durante a noite: Choveu e como estávamos sob as árvores, a água caía em pingas amodes assim como bolas de golfe e a noite foi um pouco agitada, mas sem problema de maior. Tínhamos a recordação, de uma visita anterior há mais de 25 anos, das tascas próximo da catedral e dos petiscos e foi para onde embicámos. Pronto, foi o único barrete, mas vivendo e aprendendo... Desde camarões ao alho vindos directamente do pacote dos congelados, a ameijoas com molho de guizado, imaginem como estava o polvo e o resto que já nem me lembro do que foi. Safaram-se as patatas, vá lá...

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Lembram-se que vos disse lá atrás que o nosso destino era os Picos da Europa, portanto havia que seguir, que o tempo não estica e a distância é muita, mas como na passeata nocturna por Santiago nos ofereceram um folheto sobre Finisterra, conforme o pensámos, melhor o fizémos e toca de fazer um "desviozinho" (andar a passo de caranguejo a bem dizer) ao ponto mais ocidental de Espanha, à Costa da Morte, ao Cabo Finisterra, onde viemos a saber (vivendo e aprendendo) termina qualquer peregrinação a Santiago, de modo que vinte e quatro horas por dia se vêem peregrinos a subir e descer a encosta até ao marco Zero de Santiago, a pé ou de transporte.

Pelo caminho, que se fazia hora disso, fizemos um almocinho a bordo, "dentro de água" em Muros, que, acho que já vos disse, sempre que possível a viagem foi feita pela costa. E junto à costa também, demos de caras com uma maravilha, um rio que desce em cascata até quase ao mar, donde dista nem 500 metros, em Ézaro, antes de uma povoação com um nome esquisito, CEE. Coisa estranha...

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Aí, na CEE, abastecemo-nos no supermercado e seguimos então para o Cabo Finisterra, já a noite se fazia anunciar. Apesar da curta distância, o dia foi-se rapidamente e chegámos lá acima, ao farol, já a noite tinha ganho a disputa, como podem verificar pelas fotos:

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Se por acaso fizerem uma viagem com um meio de transporte semelhante a este que nos deu boleia, saberão que há que encher o depósito de gasóleo, mas também o depósito da água e despejar o das águas sujas, bem como a cassette do wc. Para o gasóleo há as bombas de gasolina mas isso já devem saber, para as restantes tarefas há locais próprios que terão que procurar, mas há parques gratuitos que possuem estas facilidaddes e algumas bombas de gasolina também. Vem isto a propósito do estacionamento para pernoitar; É conveniente não descurar estes pormenores e a segurança. No Verão há sempre mais companhia, mas também há menos espaço livre para estacionar, logicamente. Nesta viagem e nestes locais junto ao mar, com muitos portos e marinas, foram estes os locais preferencialmente escolhidos e não nos demos mal. A partir daqui deixámos o mar (viríamos a encontrá-lo na paragem seguinte, na Corunha e depois de mais uma maratona, em Gijon), mas nunca tivémos dificuldade em estacionar em segurança.

Feito este "compasso de espera" (como se diz na gíria futebolística), siga a viagem. Depois de dormirmos no porto de Finisterra, ali mesmo à babuge do mar, saímos em direcção à Corunha, por AE (quase todos os que aqui vierem dar uma cuscada saberão, mas em 90% das AE não se paga portagem. Como cá, sim...), foi relativamente rápido, são cerca de 100km. Estacionámos num parque próprio, o único em que pagámos para estacionar, mas que ficava mesmo no centro e almoçámos umas "merdas". que estavam boas, por acaso! Como a Corunha pouco tem para ver e já por lá tínhamos andado, ganhámos coragem para nos pormos ao caminho até Gijon, que apesar de ser feito por AE, não deixam de ser quase 300 km. 400 e qualquer coisa km com o bolo rei nas mãos (desde Finisterra) não mata, mas desmoraliza um bocado, de modo que tivemos que afogar as mágoas numas garrafas de cidra e nuns bocadillos, enquanto dávamos uma volta nocturna pelo centro. A casa ficou numa ponta da cidade, junto à praia, bem acompanhada por mais uma dúzia de "comadres". Sítio muito bom, com um parque de merendas muito limpo que de Verão deve estar lotado, mas onde uns aceleras andaram até às tantas a fazer rallye...

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Pequeno almoço tomado, dia de rumar directamente aos Picos. De Gijon a Cangas de Onís, onde almoçámos (um entrecosto que fez a espanholada andar toda de nariz no ar) e depois uma saltada a Covadonga e subida aos lagos. Quero dizer-vos que a impressão que tinha dos Picos era de que eram grandes e imponentes, mas quando lá estivémos na outra viagem que referi lá atrás, fui de carro e a estrada já era estreita. Imaginem agora de autocaravana... Houve uma passageira que teve que mudar de lugar por causa das vertigens. É que aquilo é estreito, muito estreito, mas também é alto, muito alto, com ravinas que... uffffff. Chegámos até ao primeiro lago, a partir daí o guarda florestal aconselhou-nos a não arriscar, porque para além de estreito, provavelmente iríamos já apanhar a noite na descida e contrariadíssimos, principalmente a Mina que adorou ir no lugar do pendura na subida, descemos e novamente passando por Cangas, rumámos a Leon, atravessando os Picos a meio.

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Já se estava fazendo noite e era necessário encontrar lugar para parar a máquina e dormir. Paragem em Oseja de Sajambre para procurar poiso. Uma esplanada, já o dia se queria ir embora, consulta na aplicação por um sítio para parar. A pouco mais de 1 km, dizia, um local onde cabem 5 autocaravanas, sossegado. 'Bora lá, mas antes temos que lanchar, Que é que tem, ai não tenho nada, só bocadillos e tapas e tal. Olha, trás mazé um prato de presunto e queijo e cidra, que a gente trata disso! E assim foi, nem ar apanhou!pagos os 15 Euros pela pratada de jamon serrano e queso de oveja e dos botellas de cidra (de lá veio uma caixa de 12 que já foi toda), vamos lá encontrar o local. Nem dez minutos e lá estava ele. Não era bom, era espectacular!   Imaginem estas três alminhas, sózinhas, no meio de nenhures dentro de uma autocaravana, escuro como bréu, sem se ver um palmo em frente do nariz, a escutar o barulho de um riacho no fundo da ravina, o barulho da bicheza toda, grilos, mochos, ralos, sei lá, uma barulheira que se silenciou de repente e que só foi quebrada durante a noite com o uivo dos lobos. É de facto espectacular!

De manhã apareceram as cabras selvagens, a beber no riacho. Belo aperitivo para o pequeno almoço.

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Partida em direcção a Leon, ainda por estrada de Montanha até à barragem de Riaño, mais um local, já quase no sopé dos Picos, a visitar pela enorme lagoa artificial lá no alto. E pelo caminho,  num pueblo de que não me recordo o nome agora, demos de trombas com uma queijaria artesanal, onde enfeirámos uns belos queijos de ovelha e um requeijão que nos soube pela vida. A distância não é muita, mas atendendo ao tipo de estrada (30/40 km/h em pelo menos metade do percurso de 120km), chegámos a Leon já perto da hora de almoço. As senhoras foram às compras e o motorista foi dando andamento ao almoço, elas compraram umas coisas e almoçámos ali junto ao rio, mais uma vez próximo do centro, dez minutos a pé, num parque grátis apenas para autocaravanas. Visita rápida e já por volta das quatro da tarde pensámos em sair em direcção ao Gerês, à Portela do Homem. São cerca de 250 km, mais coisa, menos coisa, uma boa parte por AE, mas outra é por "caminhos de cabras" e essa parte foi feita já de noite bem cerrada. Bom, fez-se, com recurso ao GPS, mas a "miúda" às vezes é lenta e manda-nos sempre pelo caminho mais curto, que por vezes não é o adequado ao veículo... mas também, só agora me lembrei que não lhe dissemos que íamos de casa às costas! Realmente...

A gente já tinha passado, numa das vezes que saímos pelo Gerês, por umas termas de água quente, mas nunca parámos, o destino era sempre outro, mas a Isabel conhecia, já lá tinha ido em pequena, que o pai era do Gerês e ela tem lá família, gente boa por acaso, e então "embicámos" para o Gerês, mas com a intenção de ficarmos nos Baños. E consultada a aplicação, não falhou, lá estava a indicação de um local para parquear, que foi o que fizemos, já era bem tarde. Jantámos, já nem me lembro o quê e ainda por lá andava gente de roupão na rua a molhar o rabo na piscina de água quente, de acesso livre. Também há umas termas, com hotel e essas coisas das termas que todas elas têm, vocês imaginam...

 

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O dia amanheceu farrusco, mas depressa o sol apareceu com pujança e antes do pequeno-almoço já estava dentro de água. Pensava eu que era madrugador, mas já lá estavam uma meia dúzia de compatriotas, cujo tema de conversa era as adaptações que fizeram nas suas autocaravanas e o custo das mesmas e sem discriminação de género, eles e elas eram (pareceu-me a mim que do assunto nada sei) entendidíssimos na matéria. Mas também, um gajo está de molho em água entre os 80 e os 40 graus (á entrada e à saída), se não quer dar em doido, tem que falar de qualquer coisa.

Banho caprichado, e já depois duma telefonadela para o Gerês, lá fomos ter com os primos da Isabel, a Benvinda e o Abílio que nos receberam em sua casa (que tem uma vista para a serra que é de cortar o pio). Visitar o Gerês com guia é outro luxo e conhece-se recantos que o comum dos turistas nem imagina que existam. A visita terminou a apanhar castanhas, algumas maiores que bolas de golfe.

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Passámos a noite aí e logo pela manhã uma directa até Tomar, que era preciso trazer os pais para casa. E de repente já era Domingo e já tinham passado nove dias. 

Mil duzentos e oitenta quilómetros depois, estávamos na Ericeira de novo, sem qualquer problema ou avaria, depois de uma aventura para a qual gostaria de ter engenho para contar de melhor forma, mas parece-me que conseguiram ver aqui um bocadinho duma semana muito bem passada.

A quem estiver tentado, recomendo. Com este itinerário tão extenso em tão pouco tempo talvez não, mas uma coisa mais perto, um fim de semana prolongado, aconselho vivamente. É uma experiência diferente, mas interessante.

 

Nota final 1: Caso interesse, a aplicação que melhor nos serviu foi a park4night (play store da google), tem indicações precisas, localização georeferenciada e encaminhamento por gps.

Nota final 2: Mais uma vez os nossos agradecimentos à Paulinha e ao Diogo, por nos terem emprestado a máquina. A quem interessar, eles alugam. Se for caso disso, é só perguntarem aqui nos comentários e deixarem o mail, para contacto.

Nota final 3: Desculpem o arranjo das fotos, mas têm tamanhos e formas diferentes e a habilidade não é muita...