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Se a inês sabe disto

Uma derrota patriótica e de esquerda

Eu deveria ficar-me por aqui quando na noite eleitoral um jornalista perguntou a um dirigente do PCP a opinião "sobre esta derrota" e o cavalheiro respondeu de forma estapafúrdia "qual derrota?". Mas...

Como no entanto me preocupa a "saúde" da coligação e concomitantemente a do partido maior dos que a integram, lá vão algumas considerações sobre o que aconteceu e porque aconteceu e um contributozinho, ainda que daqui do meu canto insignificante, para tentar inverter este rosário que começou nas autárquicas pretéritas e que ameaça ter continuação para além destas europeias, nas legislativas do próximo Outono.

Apesar de ter de longe o candidato mais preparado para o exercício do cargo, aquele que melhor entende o papel que deve ter um deputado português num parlamento multinacional, João Ferreira, a mensagem não passou e a hecatombe atingiu um número superior a cento e oitenta e oito mil votos perdidos, quase 50% dos conquistados há cinco anos. Ter como explicação fácil a conjuntura da troika, será talvez uma má análise, ao atribuir-se a terceiros o necessário mérito que houve na conquista de um terceiro mandato. É avisado não esquecer que o BE, nas mesmas circunstâncias, apenas conseguiu um deputado e teve um resultado bastante mau, pelo menos para as suas expectativas.

"Ah, perdemos um deputado, mas numa conjuntura favorável ao PS". Não é desculpa, quando o PAN elege um deputado e o BE recupera o que havia perdido em 2014. Mais do que os votos da área da CDU, os votos destas forças andam na área do PS e ainda assim eles atingiram os seus objectivos.

Perder mais de 180 mil votos e atribuir este resultado à "estupidez" do povo que não entende a mensagem é tão estúpido como a própria justificação.

Outrossim culpar a comunicação social, que sabemos tem uma agenda, desde logo comandada pelos grandes grupos de média, mas que quer acima de tudo "vender" imagem, que é o que o seu público pede e para isso paga. Não faz qualquer sentido a grande discussão política nos OCS, se os destinatários dela se alheiam, se não querem saber dela para nada, se não consomem o produto que é o espectáculo da política. Não está o PCP para aí virado? Pois na minha opinião não estando, está a ir mal. Pergunte-se aos eleitores do PS e PSD e até CDS quais as políticas que preconizam para a Europa; Aposto dobrado contra singelo que, sem arriscar muito, mais de 90% não faz a mínima idéia! Ao contrário, os eleitores do PAN e do BE na inversa proporção não tenho dúvidas que sabem! Não são mais esclarecidos porque a mensagem passa mais nas televisões ou nos jornais, estes eleitores são mais esclarecidos porque apoiam partidos que vieram de encontro aos seus anseios, dificuldades e de certa forma resolvem os seus problemas, ou pelo menos têm a perspectiva de resolver.

Numa sociedade cada vez mais terciarizada, mediatizada, em que as pessoas foram afastadas da terra e empurradas para as cidades, fará hoje sentido falar-se, sistematicamente, nos "trabalhadores e o povo" se aquilo que identificava o partido era uma identidade de classe que cada vez está mais esbatida? Parece esquecer-se que os operários de hoje são os informáticos, os médicos e os enfermeiros recém-licenciados, aqueles que tendo formação universitária não têm colocação no mercado de emprego. Esse é hoje o "povo" onde não se consegue chegar, ou pelo menos se chega de forma deficiente. E o resultado depois espelha-se nas urnas. Repito, mais de 180 mil votos perdidos, quase 50%  da anterior eleição, é caso para preocupar e não para desdenhar. "Qual derrota?" disse o cavalheiro para quem o quis ouvir nas televisões, no domingo...

Parecendo-me evidente que a mensagem não passou, os resultados provam-no, torna-se para mim claro que o défice é também de mensageiro. E posto isto, sejamos claro e incisivos, que a situação não vai lá com paninhos quentes. Com todo o respeito que me merece Jerónimo de Sousa, é tempo de mudar de mensageiro. É tempo de colocar à frente do partido uma pessoa, homem ou mulher e há-os com esse perfil já nas fileiras, que transmita uma imagem de modernidade e a confiança necessária aos novos eleitores que atrás mencionei, para que confiem com o seu apoio e o seu voto, no PCP e na CDU. A "política patriotica e de esquerda", não pode ser o chavão usado sempre e a todo o passo. A vida, o país, as pessoas têm outros anseios, outras necessidades, coisas concretas que "uma política patriótica e de esquerda" coisa tão vaga para a maioria, não será o agregador que poderá aumentar o número de gente que siga o partido e as medidas que venha a preconizar seja para a Europa, seja para o país, seja para as autárquicas.

Eu desejo profundamente que este resultado não tivesse sido um rombo vital não só nas aspirações do partido, mas por arrasto numa solução de liderança (que também terá que ser revista na sua forma e conteúdo, i.e. o partido tem que deixar de ser "gerido" por, quase exclusivamente, funcionários políticos que dependem da organização para terem o seu emprego) que se estava, na minha perspectiva, a perfilar: João Ferreira, mas João Oliveira, como Miguel Tiago, como Rita Rato, como Bernardino Soares, com um trabalho notável como autarca em Loures, têm todas as condições para enfrentar este novo desafio que se coloca ao partido. Não apenas recuperar os 180 mil votos que voaram, mas a esses juntar outros tantos. Com novas propostas, atentos às várias realidades, respondendo preferencialmente por antecipação aos novos desafios e despindo a capa, digna é certo, dos defendores dos desgraçados e oprimidos, para também ser o representante, o porta-voz das novas tendências e anseios dos jovens que estão bem preparados para as escolhas, ao contrário do que se quer fazer passar.

Um líder que não tenha medo de propor novas abordagens à Lei eleitoral e dos partidos e que veja na comunicação social não um inimigo, mas um veículo de transmissão da sua mensagem. A tarefa será árdua e complicada? Sem dúvida! Mas neste assunto tão essencial para o futuro do partido e das pessoas e do país, será caso para, aí sim, ir lá ao fundo do baú e puxar dos galões da antiguidade e da luta política e da verticalidade e encontrar um caminho novo, que este que estamos a trilhar, lamento dizer, ou muda ou novos BE's e PAN's nos ultrapassarão a toda a velocidade.

Em resumo, as pessoas, onde eu também me incluo, estão fartas do discurso do desgraçadinho e se eu sou comunista não para ser miserável mas para ter acesso a uma vida digna e se possível desafogada, os outros não tendo qualquer ligação política, seguirão quem honestamente lhes proponha uma vida decente, sem dogmas, sem sofismas, deixando-os ser apenas pessoas, num clima de liberdade e de democracia.

Haverá coragem para isso?

Ninónim

 

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Começo por uma declaração, para que se entenda que sou um leigo no assunto de que vou falar a seguir: Tenho formação em silvicultura preventiva, em fogos controlados e contra-fogo e em técnicas de sapador florestal, que apliquei no terreno durante algum tempo enquanto coordenador de equipas de sapadores, mas nada disso me habilita a opinar de cátedra sobre fogos, florestais principalmente. Sei o que sei, que sei que é muito pouco...

Posta a declaração, vem este post a propósito das críticas quase unânimes que os universítários especialistas em fogos lançam quase sempre aos comandos no combate e rescaldo a grandes incêndios, em concreto os dos últimos dois anos.

É minha opinião que o conhecimento científico é uma ajuda de extrema importância para todos os aspectos da vida e será também para o combate aos incêndios florestais, não me restam dúvidas. Daí até choverem críticas ao trabalho dos comandos e dos operacionais, vai uma longa distância que me parece injusta.

Admito que na calma dos gabinetes, a posteriori, seja fácil chegar a conclusões que ponham em causa algumas decisões de quem esteve no terreno, mas já dizia um futebolista sui generis, que os prognósticos só seriam certeiros "no fim do jogo". Provavelmente aqueles decisores no terreno, depois de extintos os incêndios, eles próprios terão chegado à conclusão de que eventualmente a abordagem ao sinistro não teria sido a melhor, mas eram eles que lá estavam e perante as circunstâncias, foram eles que tiveram que tomar decisões, na hora. Na hora, não a meses de distância e com todos os dados em cima da mesa.

Reafirmo, nada contra os catedráticos dos incêndios, o seu conhecimento é extremamente valioso para o combate mas principalmente para a prevenção de fogos, florestais para o caso e deve ser tido sempre em conta em quaisquer decisões sobre política nesta área, mas por favor, que não façam de quem anda no terreno, desde o motorista do auto-tanque ao comandante operacional, gente incompetente com uma mangueira na mão.

Se assim for, que lhes entreguem o comando, para provarem do fel que é andar pela serra a colocar em risco a vida em defesa do património e principalmente da vida dos outros. Provavelmente errarão tão ou mais do que aqueles que lá estiveram...

Cagar ou não cagar, eis a questão

Tive nos últimos dias dois encontros imediatos com a CP (Comboios de Portugal):

O primeiro, uma viagem de Lisboa, Oriente, a Loulé. A composição saiu com algum atraso, devido à espera de ligação com outra que vinha do norte, mas aparte esse pequeno contratempo, foi uma viagem excelente. A carruagem é cómoda, climatizada, com wifi, os bancos bastante confortáveis. Até o vagão restaurante, embora pouco espaçoso, é agradável. Nada agradáveis são os sanitários após alguns quilómetros percorridos, mas um gajo mija de pé (por isso aquilo fica tudo mijado, claro), já as mulheres têm alguma dificuldade em fazê-lo, por isso, coitadas, lá têm que andar de wc em wc até encontrar um em que os salpicos não abundem. Em resumo, apesar do cheiro, dizem-me, que eu não tenho olfacto, nota bastante positiva para a CP.

Já o segundo encontro foi hoje. Fui esperar os meus pais a Santa Apolónia, vindos de Tomar. Cheguei com alguma antecedência e uma enorme vontade de satisfazer duas necessidades prementes. Cabeça no ar procurando os dois bonequinhos característicos e lá estavam eles, do lado esquerdo da gare. Entrei num espaço de cafetaria, sala de espera e ao fundo os benditos lavabos. Aproximei-me com algum aperto, já à rasquinha mesmo e vi uma cancela, toda iluminada, com torniquete e tudo, mas a minha aflição já me tinha torrado o cérebro e a capacidade de raciocínio estava tão em baixo, que empurrei a cancela com alguma brusquidão e qual não foi o meu espanto quando percebi que aquele jogo de luzes era de apenas duas, verde e para mal dos meus pecados, vermelho que foi a que me impediu de entrar no local onde "todo o cobarde faz força", com a velocidade que a situação de emergência exigia.

Agora imaginem se eu não tivesse negado a moedinha ao gajo que me descobriu um lugar para estacionar ( sócio, não tenho moedas, pá - acho que o vi primeiro que ele, tal a pedra com que o gajo estava), se não tivesse 50 cêntimos para me abrir a passagem para o paraíso, o que sucederia...

Portanto, em resumo, dentro de um comboio Alfa Pendular, um gajo pode mijar a latrina à vontade, prejudicando os outros passageiros, mas na gare, enquanto espera pelo início da viagem, ou porque não suportou o pivete na casa de banho da carruagem e precisa de mijar ou cagar , paga 50 cêntimos e é se quer bufar.

Pois, eu estava tão à rasquinha que se desse uma bufa... Isso!

Aqui pra nós, louva-se a medida, espera-se que dentro de 150 anos, a este ritmo, o buraco nas contas da CP esteja tapado. Ou então esta é mesmo uma medida de merda que não lembra ao diabo e os senhores administradores da CP bem que podem limpar o cu a um caco naquela parte do dia em que ligam o intestino grosso ao cérebro.

Quando me dirigi, já com os meus pais, em direcção ao carro vejo o "arrumador carocho", que se me dirige e diz "mano, arranja-me uma moedinha?" "ó pá, tu vais gastar essa merda em droga, não tenho!" "não, mano é para ir ali à casa de banho". E eu sou lá gajo para impedir um agarrrado de cagar como um lorde?

Água fria que o sol aqueceu

 

Chegámos a Caneças em 1981.

As ruas do bairro eram ainda de terra e a água e a electricidade eram "da obra" e assim se mantiveram por algum tempo, não sei precisar.

Em 1981 nós tínhamos 21 anos e o meu ordenado era todinho para a prestação do apartamento da Rua de Timor , Lote 8, 2.º Dt.º. Dezassete contos e duzentos, por um apartamento que custou dois mil e cem contos. É ridículo estarmos a falar destes valores (à volta de 85 Euros e dez mil e cem Euros) depois de termos vendido uma casa por um valor muito simpático, que nos custou a construir, quinze anos depois, em 1995, cerca de vinte mil contos (cem mil Euros). Para quem for mais novo, para perceber um pouco as coisas, a inflacção cavalgava a 30% ao ano. O meu ordenado de 17.200$00 em 1981, um belo ordenado diga-se, era em 1990 de cerca de 150.000$00, cento e cinquenta contos.

Adiante, que já estão situados.

1981 e ainda durante alguns anos, era o tempo de se telefonar para caneças e marcar o 980 e atender a "menina" e nós pedirmos "ligue-me à Teresa Paula, fáxavor" e a resposta ser "não vale a pena que ela não está em casa, ainda agora liguei para lá e não atendeu". Ou seja, a telefonista conhecia as pessoas e sabia os números (o nosso era o 9801696) de praticamente todos os assinantes.

Foi ali que nos dedicámos à vida em sociedade, à colectividade, na Junta de Freguesia, no Botafogo, nos Bombeiros, na Creche 25 de Abril, na Marcha de Caneças, pro bono, em prol da comunidade, foi ali que encontrámos gente de quem ficámos amigos, uns mais chegádos outos menos, como é natural. Não podemos deixar de referir a Teresa Paula, que nos cuidou dos filhos como se fossem dela. A Celeste, a irmã, A Crisanta e o Albano, um casal maravilha e muito sui géneris que se identificava em qualquer ajuntamento por um assobio; As manas Lélé e Nana e o Lóis e o Quim da Nana, porque havia o Quim da padeira, e o Virgílio ("nunca trabalhou só agora é que avariou") infelizmente falecido e o "eterno" tesoureiro do Botafogo (sério e de boas contas), O Figueiredo das bicicletas, sei lá, o Ti Mário, amigo do peito, o irmão Zé Vargas, o Carlos Costa e a Clara do Céu, o irmão Luís do Céu, ainda hoje um grande amigo. O António Maria Balcão, um homem do Alentejo com um coração do tamanho do Mundo, o Galvão e a sua calma, também um homem extraordinário, a Sara Sacavém. O Kekas e a Cila, amigos verdadeiros e o Domingos Tomé e a Maria Adélia, de quem sentimos uma anorme saudade, que foram um caso raro (e "são", apenas com o Domingos agora) de uma profunda amizade improvável. E os nossos vizinhos destes últimos 23 anos, uns mais que outros, gente boa e simpática, a Adélia e o Joaquim, o António e a esposa, o Ilídio que anda mais por Angola, mas sempre que regressa é um compincha de horas de conversa (ele fala...), o "brasuca" Tiago, um mago das electricidades nos automóveis e o Paulo e o Chico e a D.ª Antónia, o meu colega de emprego Luís, o Rui que me foi tratando dos carros ao longos dos anos, enfim, queria ser breve na despedida, mas vão ficar muitas pessoas a quem devemos alguma coisa, esquecidas neste postal.

Foram 38 anos de vida numa terra que nos deu dois filhos e já dois netos, plenas de actividade política e associativa, à qual demos o melhor de nós próprios, onde fizemos amizades profundas e, como não podia deixar de ser, talvez algumas inimizades, faz parte... Não deixa de ser chato quando as más-línguas vêm dos nossos e nisso fomos bem castigados, mas sempre mantivemos a mesma postura e a nossa forma de encarar as coisas, sem palas e com espírito crítico. Se pensaram que nos prejudicaram, descansem, só nos retiraram algum peso de cima.

Não saímos com mágoas, valorizamos antes as pessoas, as verdadeiras amizades que fizémos, os miúdos que "vimos" nascer e crescer e que se fizeram mulheres e homens, que isso é o que realmente conta.

Começamos agora uma nova etapa da nossa vida, numa nova terra, num sítio que adoramos, voltando ao início. Sem filhos, uma casa nova e novas perspectivas. Bom, com filhos adultos e com netos, que se hão-de pendurar na casa dos pais e dos avós, mas isso a gente até agradece.

Raios, que eu deveria escrever tanto, que tanto haveria para escrever, mas depois os meus amigos não liam e o que se pretende é que pelo menos sintam um pouco da nossa nostalgia e ao mesmo tempo do entusiasmo de uma nova fase que esperamos seja melhor que a anterior.

Isto resumido, mesmo espremido, é isto: 38 anos e parece que foi ontem que lá chegámos, com o nosso Honda 360...