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Se a inês sabe disto

Um porcentozinho

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Se bem se lembram, houve recentemente (em 2014) um referendo na Escócia onde os eleitores se pronunciaram sobre a sua independência em relação ao Reino Unido. Venceu então o Não por uma margem confortável (cerca de 55% contra cerca de 45%). Não houve nota de incidentes, a não ser a intervenção do então primeiro-ministro Cameron em defesa do Não e tomando medidas tendentes a que os eleitores alinhassem por esta opção, o que no limite até se pode considerar legítimo, se as promesas tivessem sido implementadas, o que sinceramente desconheço e não é relevante para o caso, depois do resultado verificado. O governo escocês já votou um outro referendo para final de 2018, início de 2019, que está a negociar com o governo britânico. Tudo normal, se pudermos considerar uma normalidade uma votação para a separação de uma parte de um país, para se tornar independente. Nestes referendos, no realizado e no que eventualmente se irá realizar, participam apenas os cidadãos escoceses.

Provavelmente a Escócia, um estado onde não pára de chover e o nevoeiro é presença constante, que tem "apenas" como cartão de visita a lã e os carneiros que a produzem e o belo whisky, não terá uma importância assim tão grande nas contas do estado britânico que o leve a recusar permitir que os escoceses, que já têm uma larga autonomia, escolham desligar-se da Grã-Bretanha.

 

Já aqui ao lado, na Catalunha, as coisas têm sido diferentes. Ao contrário dos escoceses, os catalães contribuem com 30% para o PIB espanhol e têm por exemplo o maior porto de mar. Grande parte da riqueza criada em Espanha passa por Barcelona e pela Catalunha, que é de há muito a mais rica região de Espanha.

 

Embora os académicos não se entendam quanto ao facto de a Catalunha ter sido alguma vez independente, é um facto que ela teve governo e cortes próprias (sistema jurídico) dos séc. XII/XIII ao séc. XVIII, como reino de Aragão, tendo sido dissolvidos apenas após a Guerra da Sucessão em 1714 e com a vitória dos Bourbon perdeu órgãos de autogoverno.

Mais recentemente, antes da Guerra Civil espanhola (1936 e 1939), a Catalunha dispunha de ampla autonomia, que veio a perder com o governo do ditador Francisco Franco. Quando este morreu, em 1975, o sentimento autonómico reacendeu-se e a Constituição de 1978 devolveu-lhe a autonomia perdida e posteriormente, em 2002, novos poderes concedidos deram-lhe o estatuto de "Nação", estatuto que lhe foi depois retirado pela Corte Constitucional Espanhola, em 2010.

Em 2015 os separatistas venceram as eleições para o governo da região, o que desencadeou o processo de início de um referendo tendente à independência, que chegou até a verificar-se em 2014, ainda que o acto tivesse sido considerado ilegal, mas onde cerca de 80% dos eleitores se mostraram favoráveis à independência e culminando nos acontecimentos recentes, de que todos estamos a ser testemunhas.

 

Parece-me que aqui o que está em causa não é a defesa da unidade de um país, o reino de Espanha, que não é mais que a soma de vários reinos anexados pelo reino de Castela, mas a luta pelo fillet mignon da riqueza produzida na região. Se é certo que a Catalunha é um território enorme, o restante território espanhol é imensamente maior e não dará muito jeito ao estado prescindir de um terço do dinheiro gerado, antevendo-se enormes dificuldades na gestão corrente, se tal independência se viesse a verificar.

É pois tudo uma questão de dinheiro, como em tudo na vida. E a fatia de que seria amputado o restante território espanhol, parece-me ser o factor impeditivo de um acordo entre governo regional e governo central, para a realização de um referendo independentista. Referendo que apesar dos sinais favoráveis ao Sim, se for feito com total liberdade, isto é, permitindo que votem todos os que estiverem para aí virados, os que querem a independência e uma república e os que querem continuar ligados a Espanha e à monarquia, não é líquido que implique uma vitória do Sim. Parece-me que deveria ter sido por aí que o primeiro-ministro espanhol deveria ter ido e não numa primeira instância defender que todos os espanhóis se devem pronunciar num referendo (uma aberração em toda a linha) e posteriormente ter gerado um conflito desnecessário e ao mandar as polícias contra os cidadãos, ter criado um "monstro" do qual dificilmente se livrará e que terá a curto prazo duas consequências, na minha modesta opinião: A sua destituição e a declaração de independência da Catalunha.

Patrícia Teixeira

Edmundo Gonçalves

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