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Festival do Marisco

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Texto de Edmundo Gonçalves

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Para quem conhece, o primeiro festival do marisco nasceu em Olhão, vai para trinta e dois anos (assim de memória) e terá lugar aqui mesmo ao pé, de 10 a 15 de Agosto, já depois de amanhã, portanto. Para quem conhece, como disse, é um evento excelente, com uma oferta de muita qualidade em variados pratos de marisco e derivados e também do ponto de vista do divertimento, com a actuação de vários artistas, alguns deles consagrados, no panorama nacional.

Mas não é deste festival do marisco que vos quero falar e para o qual quero chamar a atenção, principalmente aos meus leitores  (perdoem a imodéstia e a prosápia de considerar que tenho um número "de jeito" de pessoas que prestam alguma atenção ao que vou publicando) de Tomar, meus patrícios e conterrâneos. Este festival do marisco, o primeiro, vai realizar-se em São Miguel, Madalena, a cinco minutos da cidade, na Associação Recreativa e Cultural Os Quatro Unidos, já nos próximos dias 19 e 20 de Agosto, conforme podem constatar no programa que vos informa de tudo o que devem saber.

Bom, de tudo não, que não vos diz que na cozinha vão estar este vosso amigo e a sua parceira de sempre, a minha mulher, para vos proporcionar a degustação que os palatos de vossas excelências sem dúvida merecerão.

Vão lá. No Sábado de preferência, que como é a primeira edição as "cascas" provavelmente serão o primeiro pitéu a ir e depois não poderão testemunhar o quão saborosas estavam as ameijoas à Bulhão Pato, os berbigões ao natural, ou a bela da cataplana... Porque os camarões, esses nunca acabam! Apareçam e dêem notícia de que lá estão. Por mim será um gosto imenso rever alguns amigos de infância.

O Zé das bananas

 

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Texto de Edmundo Gonçalves

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Foi meu professor de matemática no liceu. O pai negociava em bananas, morava ali perto do parque de campismo, perto da Horta do Barão, salvo erro, mas já perceberam que a minha memória às vezes me atraiçoa…

Era um personagem. Afável, sempre bem disposto, sabia ensinar de forma simples mas eficaz e sempre com uma estória para contar e uma analogia com qualquer situação que se deparasse no momento. Mudou-se para Tomar para ensinar devido a doença do pai, se a memória me não atraiçoa. Para nós, miúdos, era com alguma surpresa que ouvíamos um “setôr” falar com um total à vontade do seu pai, da sua actividade e mais, com muito orgulho. Os olhos luziam-lhe quando dizia “eu sou filho do Zé das bananas”. E quando algum de nós o questionava, porque no nosso imaginário um professor e ainda p’ra mais de matemática, tinha que ter raízes “aristocráticas”, se o pai tinha mesmo um armazém de bananas, ele respondia invariavelmente “ atão vocês não vêm pela minha barriga que eu só como bananas desde pequeno, o meu pai tem um armazém de bananas, o que é que querem?” E para mal dos seus pecados tinha que acumular com o ensino o armazém de bananas.

Não era difícil ouvi-lo também desabafar: “Isto é que é uma porra, agora tenho que tomar conta da chafarica. Qualquer dia deixo “mazé” o ensino e dedico-me às bananas, não consigo dar conta disto tudo. Vocês na imaginam a dor de cabeça c’aquilo dá, é pááááá…” Confesso que não tenho memória se terá cumprido a “ameaça”, mas que estava verdadeiramente determinado, disso não tenho a menor dúvida. Se souberem “apitem”, que gostaria de saber…

Uma memória muito agradável de um ser humano extraordinário.

Chapeux, também para ele.

Tomar regressa à Idade Média

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E como este blog tem sido muito acarinhado pelas pessoas de Tomar, graças às memórias que o Edmundo Gonçalves aqui tem partilhado a respeito desta cidade, é com todo o gosto também que vamos divulgando os eventos que por lá acontecem.

Desta vez Tomar volta a ser um burgo medieval e é já de 6 a 9 de Julho. Durante quatro dias a cidade recebe a Festa Templária. Uma viagem histórica cujos protagonistas serão cavaleiros, mercadores, artesãos, saltimbancos, músicos, malabaristas, cuspidores de fogo, entre outras personagens da Idade Média. A atracção principal passa pela recriação do cerco ao Castelo, que ocorreu em 1190. Nesse ano, a 13 de Julho, 900 guerreiros árabes sob o comando do rei de Marrocos, Almançor, cercaram o Castelo Templário. Durante seis dias fizeram várias tentativas para conquistá-lo. Mas lá dentro 200 cavaleiros templários, liderados por Gualdim Pais, travaram o ataque dos muçulmanos tornando este um marco histórico da cidade.

Haverá então um cortejo nocturno que reúne, não só as várias personagens históricas, como as recriações do acampamento templário, o treino dos homens de armas, as danças medievais, a feira de artesanato alusivo à época, o festival de gastronomia medieval nos restaurantes locais, os petiscos nas tasquinhas, os jogos medievais, entre muitas outras actividades que devolvem Tomar ao século XII.

O programa cultural da festa inclui ainda a conferência “Templários – das origens ao terminus”, que terá lugar no Scriptorium do Convento de Cristo, no dia 6 de Julho. Na sexta-feira, 7 de julho, o refeitório dos Frades do Convento de Cristo será o palco de um Jantar Real, com ementa e animação medieval. A Festa Templária, que tem lugar em várias zonas da cidade, do Mouchão Parque ao Convento de Cristo, passando pelo centro histórico, pretende recordar o passado mantendo viva a influência da Ordem de Cristo, sucessora da Ordem Templária.

 

Programa

6 de julho | quinta-feira 

10h00 - 17h00 – Conferência “Templários – das origens ao términus” 

18h00 – Abertura Oficial da Festa Templária 2017: Cerimónia na Praça da República e Cortejo de Abertura da festa pelo centro histórico e Mouchão Parque

18h00 - 24h00 – Feira de Artesanato e Tasquinhas 

19h00 - 23h00 – Festival de Cozinha Medieval nos restaurantes aderentes 

23h00 – Recriação do cerco do Castelo Templário - Mata dos Sete Montes

 

7 de julho | sexta-feira 

18h00 – 24h00 - Feira de Artesanato e Tasquinhas (abertas até às 2h00)

19h00 - 23h00 – Festival de Cozinha Medieval nos restaurantes aderentes 

20h00 – Jantar Real no Convento de Cristo 

23h00 – Recriação do cerco do Castelo Templário - Mata dos Sete Montes

 

8 de julho | sábado 

12h00 - 24h00 - Feira de Artesanato e Tasquinhas (abertas até às 2h00)

10h00 – Visitas Culturais 

12h00 – Festival de Cozinha Medieval nos restaurantes aderentes 

22h00 – Cortejo Noturno

 

9 de julho | domingo 

10h00 – Visitas Culturais 

12h00 - 23h00 – Feira de Artesanato e Tasquinhas 

12h00 - 15h00 / 19h00 - 23h00 – Festival de Cozinha Medieval nos restaurantes aderentes

18h00 - Render da guarda

 

Todos os dias:

Acampamento Templário, personagens históricas, danças medievais, treino dos Homens de Armas, cenas da vida na Taberna e jogos medievais no Mouchão Parque.

Recriações no Centro Histórico (danças medievais e ofícios).

Santa Iria

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Texto de Edmundo Gonçalves

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A minha primeira memória da Feira de Santa Iria tem a ver com uma camioneta enorme, de madeira, que durou até eu me colocar em cima dela para tentar descer um carreiro íngreme que havia perto da casa da minha avó. Deveria ter aí uns quatro, cinco anos, antes de me mudar para a cidade, aos sete. A camioneta provavelmente não seria tão grande como eu a via, deveria ser proporcional ao meu tamanho, de modo que talvez não fosse tão grande assim.

Depois da mudança para a cidade e para a classe do professor Correia, a Feira era o acontecimento do ano, com a parafernália de divertimentos, das barracas de tiros, dos “robertos”, o teatro de marionetas, da barraca dos espelhos, do comércio de tudo e mais alguma coisa, com muita luz e com milhares de pessoas a visitá-la. O circo era o Mariano, onde ouvi e vi pela primeira vez Fernando Farinha que era uma vedeta da rádio, um fadista barreirense adoptado pelo bairro lisboeta da Bica e que mais tarde (o Mundo é um penico) vim a conhecer pessoalmente e a privar. Bom, os meus pais é que gostavam do fadista, eu ia ao Mariano mais por outras atracções. Sempre me fascinou ver os trapezistas, ainda hoje me fascina, voltas e mais voltas e piruetas e mortais;  Aos animais não achava muita piada, mas não perdia a visita às jaulas, com eles ali mesmo à mão, num misto de audácia e “cagufa”. E havia o Poço da Morte, com o Joselito na mota e o pai num carro, num rodopiar louco à volta das paredes, com o rosto tapado, sem mãos, de joelhos e o aplauso efusivo no final “Arrojo, Audácia, Sangue Frio, venha ao Poço da Morte”. Uns heróis! Vim também a encontra-los mais tarde, na Feira Popular de Lisboa, através de um amigo que lá tinha um negócio e que me apresentou ao Joselito. Acreditem que foi uma enorme emoção, não tanto pelo acto, mas pela recordação do fascínio de infância. Acreditem, o Mundo é mesmo um penico!

E os carros de choque, tudo a andar à roda da pista, uma Indianápolis de miniatura, com as faúlhas a saltar da rede electrificada. E o carroussel, “mais uma volta, mais uma viagem, no Maravilha”, aquela bicharada toda a andar à roda sem parar, subindo e descendo, num efeito oito, fazendo um barulho só superado pelo berreiro das cornetas que passavam a música da moda e a voz fanhosa do tipo da cabine de comando “vá lá menina, compre uma senha e leva duas”. Confesso que não vou à Feira há mais de vinte anos, por nenhuma razão que não seja a de não estar em Tomar, mas recordo um episódio engraçado passado com uma rapaziada do Colégio Nun’Álvares, que num dia de soltura  por uma desavença qualquer com o tipo do carroussel, provavelmente porque se estariam a portar “bem”, não os ter deixado dar mais uma voltinha, saltaram p’ra cima daquela coisa e vai de arrancar a bicharada toda e carregar com alguns cavalos, burros, girafas e sei lá mais o quê, para o colégio. Chegaram ao mesmo tempo que a polícia. Segundo um amigo participante na “festa” e que reencontrei mais tarde profissionalmente, o “velho”, como era carinhosamente tratado o proprietário do colégio, o Dr. Raul Lopes, com o seu ar calmo perguntou à trupe “afinal o que é que se passou, porque é que trazem os bichos para o colégio?” “Doutor, o gajo não nos quis deixar andar no carrossel e a gente passou-se”. “Muito bem, os cavalos não saem daqui!”

Salva a honra dos seus alunos e do colégio e evidenciada a sua autoridade, no dia seguinte todos os implicados, numa camioneta, foram entregar os animais sobreviventes ao carroussel. Alguns coxos, outros mancos, mas a bicheza continuou a andar à roda para uma “nova corrida, nova viagem”…

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O Jorge Cocão

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Texto de Edmundo Gonçalves

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Confesso que nunca soube o apelido verdadeiro do senhor, ou sequer se era mesmo este o seu apelido. Era aferidor de pesos e medidas. Percorria a cidade e o concelho, visitando as mercearias e o comércio em geral, verificando a legalidade de instrumentos de peso e de medida, balanças, os próprios pesos, metros, recipientes para líquidos e sólidos, almudes e meios-almudes, alqueires e meios- alqueires, e mais um ror de utensílios que se usavam à época em mercearias, tabernas, cafés, lojas de tecidos, eu sei lá, que não era como hoje, que tudo já vem pesado e medido e já nada, praticamente, se vende sob peso ou medida. Bom, ainda se vende pão ao quilo na padaria Rosa e tecidos a metro no Cruz, em frente ao Tribunal.

O Jorge deslocava-se num “calhambeque”. Não tenho memória da marca, mas era um automóvel dos anos trinta, p’raí, uma verdadeira “Dona Elvira”, que se fazia anunciar com a sua buzina rouca característica. De um carácter afável, andava sempre bem disposto. Tinha loja de velharias aberta na Rua de S. João, onde foi depois a casa “Migalhas – Velharias” do Américo “Migalhas”, outra figura da minha infância ( a sua filha, que continuou o ofício de latoaria, andará pela minha idade ). Espero que a memória me não atraiçoe quanto à localização… Voltando ao Jorge e ao seu sempre ar despreocupado e alegre. Consta que era um fervoroso opositor ao regime, andando por via disso sempre debaixo do olho da PIDE, a polícia política.

Contava-se uma estória de que terá sido protagonista, que me chegou nesta versão e que não tenho como confirmar: Em determinado momento, aí pelo final dos anos quarenta, início de cinquenta, num levantamento popular por si encabeçado, terá sido decidido invadir as instalações da Legião Portuguesa e sequestrar os elementos que lá estivessem. O grupo ter-se-á dirigido à sede da organização com o Jorge à frente das “tropas”. O seu entusiasmo seria tal que nem olhava para trás. Se o tivesse feito, teria verificado que o seu entusiasmo não era tão contagiante como imaginaria e os comparsas foram retardando o passo de tal forma que quando bateu com todo o vigor à porta da sede distrital da organização de defesa civil do Estado Novo e depois de lá de dentro lhe perguntarem “Quem é?” ter respondido com toda a convicção revolucionária “É o povo e a revolução e o chefe é o Jorge Cocão!” tendo nesse momento olhado para trás para sentir o apoio dos correligionários. Constatou que estava sozinho à porta da milícia; Quando um dos legionários abriu a porta, o seu sentido de oportunidade ter-lhe-á feito sair da boca a frase que mais ninguém esperaria. Talvez nem o próprio: “Viva a Guarda Republicana!”

Foi bater com os costados na prisão, obviamente. A bem da Nação.

O Manel Faia

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Texto de Edmundo Gonçalves

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O Manel Faia era prefeito (ou perfeito, há quem utilize também esta terminologia, na altura o equivalente a contínuo, hoje auxiliar de educação) no antigo Colégio Nun’Álvares. Consta que era bruto que nem umas casas e distribuía chapada a torto e a direito pela rapaziada que não cumpria as orientações, rígidas, da “casa”.

Eu conheci o Faia através do meu pai. O Manel era um homem grande, muito grande, como dizíamos, cada mão “era uma certidão de óbito”, mas fora do colégio era um paz de alma, era um homem de muito bom trato e sobretudo um enorme aficionado. Foi dele o pontapé de saída para a formação do grupo de forcados amadores do Colégio Nun’Álvares, donde saíram forcados de enorme valor, tendo sido seu cabo e um enorme forcado (bem como o seu irmão João), depois de ter estado também na fundação dos Amadores de Tomar e tendo como um dos pontos altos da carreira, como cabo dos Amadores de Riachos, a despedida de Manuel dos Santos, um enorme matador de toiros, no Campo Pequeno, em 1953. Um pequeno aparte para o tratamento dado a cada um dos elementos dos grupos de forcados, aqui no cartaz do evento, exemplificando deste modo que, à época, Portugal era mesmo só Lisboa e o resto era mesmo apenas paisagem.

Na qualidade de grande aficionado, foi empresário de várias praças de touros um pouco por todo o País, já no início da década de setenta. Como não tinha nem carro, nem carta de condução, o carro de serviço do Faia era o táxi do meu pai. E durante alguns anos, quando podia, eu acompanhava-os às corridas, às tentas, à escolha dos curros quase sempre na herdade do António Barbeiro e frequentei as casas de algumas figuras do toureio apeado e a cavalo da segunda metade do século passado. Assisti ao “nascimento” de João Moura e de Rui Salvador, entre outros, o primeiro precisamente um mês mais velho que eu e passei belas tardes na herdade do José João Zoio, já falecido.

O mundo dos touros era (hoje não sei, confesso) muito, digamos, escorregadio. Havia algumas dificuldades em montar cartéis, havia os compromissos, o pagamento de favores, a cobrança de amizades, algumas vigarices menores, mas no final aquilo acabava tudo bem, mesmo que a bilheteira não tivesse dado para a despesa. Sendo um mundo como disse, escorregadio, era também um mundo muito solidário e de compromisso: Hoje dou-te eu, amanhã dás-me tu, se eu precisar, assim: “Hoje a bilheteira só deu isto, tem que dar p’ra todos”. E dava! A maior parte das praças não tinha um local onde os protagonistas de “duas patas” se preparassem para as corridas, para vestirem os trajes de festa e calçarem aquelas sapatilhas um pouco, bom, fiquemos por aqui… E então a alguns apanhávamo-los pelo caminho, à porta de casa ou num qualquer café e eles lá seguiam para a praça, devidamente paramentados. Dei por mim a pensar várias vezes que aquela malta parecia que ia para um baile de máscaras.

Depois da função, inevitável era o jantar. O Faia não gostava muito de misturas, nesses dias era ele, o meu pai e eu, à mesa. Quando dava, a paragem era em Almeirim, ali numa transversal à Rua José Relvas, onde o Faia tinha um rabo de saia, ou pelo menos era o que todos diziam, eu não sei bem se era mesmo assim, mas pelas vezes que lá parávamos… ‘Tá bem, comia-se bem, mas havia mais restaurantes, ‘né?

Apesar de alguns “cagaços” que aquela malta me fez passar (uma tarde em cima de uma oliveira, com os bichos ali mesmo em baixo foi uma delas), acreditem que uma vez dentro, o bichinho nunca mais sai. Foi ele o culpado pela minha afición, foi com ele que aprendi a gostar dos toiros e da festa e foi também com ele que a festa viveu os seus anos de ouro em Tomar.

O Nené Cebola

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Texto de Edmundo Gonçalves

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A memória da figura é clara. Um sujeito magro, não muito alto, muito simpático e educado, sempre muito bem vestido. Parava quase exclusivamente no Café Paraíso, propriedade do Manuel Mota Grego, tio de João Mota, o fundador do Teatro da Comuna, também ele natural de Tomar e também no Pepe, na Praça da República. Sempre a “duzentos” à hora. Tomava sempre um galão e uma torrada, que também quase sempre alguém acabava por lhe pagar. Sem que ele fizesse por isso, mas nunca recusando a gentileza.

Não trabalhava, não tinha condições psicológicas para tal. O comum dos tomarenses “vendia” a estória de que foi vítima de um esgotamento enquanto estudante e nunca mais recuperara. A esta distância, contudo e com outra informação que não detinha nesse tempo, é hoje fácil chegar à conclusão que Lionel Carvalhais era autista. Desconheço a razão por que tinha a alcunha de Nené Cebola, mas é curioso que ninguém a ele se dirigia desse modo, era sempre tratado por Carvalhais, por tu ou por senhor, conforme a proximidade. Nené era o tratamento na terceira pessoa. Se fizerem um esforço e tentarem lembrar-se de Dustin Hoffman em “Encontro de irmãos”, onde contracena com Tom Cruise e onde dá vida a uma pessoa com autismo, podem ver o Nené Cebola. Creio que vivia com uma irmã que dele cuidava, de quem tenho uma memória muito vaga, porque raramente saía de casa.

Lionel Carvalhais tinha, como quase todos os autistas, uma fixação (perdoem-me os eruditos no assunto, mas o meu conhecimento não vai mais além): Sabia todos os números de telefone do concelho de Tomar e de todos à volta e que com ele confinam, de memória. Era dizer-lhe um nome e ele rapidamente respondia. Era uma agenda telefónica volante. Imaginem-se na Praça da República e precisarem de telefonar para um Manuel Figueiredo, de Abrantes e não fazem ideia para que número devem telefonar. Passa Carvalhais e é fácil: “Ó sô Carvalhais, dá-me o número do Manuel Figueiredo de Abrantes?” “Com certeza, meu amigo, é o (e lá vem o número e como bónus a morada), mas se não atender pode ligar para o João Fernandes que mora na casa ao lado”. Não é raro estas pessoas serem brilhantes com números e os telefones quando começou tinham apenas quatro números e uma sequência lógica (publicou as listas até os números terem cinco dígitos, salvo erro), mas já era outro assunto juntar-lhes as moradas. Note-se que de memória…

Os CTT não editavam listas telefónicas, ou talvez editassem, não faço ideia, mas de qualquer modo Nené arranjou forma de juntar uns cobres para a sua sobrevivência e da irmã: Editava ele próprio as listas, uma a uma, numa máquina de escrever, agrafando depois as folhas. Começou pelo concelho de Tomar, depois acrescentou-lhe Ferreira do Zêzere e finalmente tudo à volta, Abrantes, Ourém, Torres Novas e Barquinha, com quem Tomar faz fronteira. Posteriormente acrescentou-lhe os concelhos da Chamusca, Golegã e Entroncamento.

Escusado era perguntarem-lhe alguma coisa quando caminhava, em passadas curtas e rápidas, falando para ele próprio. A resposta era inevitavelmente a mesma: “Vá perguntar aos correios”.

Tomar dá a provar mais de 50 receitas de sopa

 

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No dia 6 de maio, a partir das 12h30, regressa à cidade templária o Congresso da Sopa. Este evento, que se realiza pelo 24.º ano consecutivo, é uma iniciativa do Município de Tomar, em parceria com mais de 30 restaurantes, associações e produtores de vinho locais.

Os ingredientes são irresistíveis: boa comida e bebida que podem ser saboreadas numa ilha! É o que acontece neste Congresso da Sopa, que tem lugar no Mouchão Parque, uma ilha verdejante em pleno rio Nabão, onde podem ser degustadas mais de cinco dezenas de especialidades, acompanhadas pelos deliciosos néctares da região.

A sopa é a vedeta seja ela confeccionada a partir de uma receita tradicional e apreciada em todo o país ou de uma experiência arrojada que surpreende o palato. Entre mais de meia centena de propostas, o difícil será escolher. À espera dos visitantes estão a sopa de peixe, a sopa da pedra, o caldo de enguias, a sopa de lampreia, a sopa de leitão, a sopa de castanha com cogumelos, a sopa de abóbora com gengibre, o creme de cenoura com crocante de farinheira, entre muitas outras.

Há ainda sugestões com nomes originais, como a sopa de corno, que se espera que caia bem no estômago e no espírito! E, já a abrir o apetite para a Festa Templária, que se realiza entre 6 e 9 de julho, dá-se a provar a sopa medieval.O Congresso da Sopa é uma das maiores e mais populares tradições da cidade de Tomar, mas continua com o mesmo vigor com que nos anos 90 veio revolucionar o universo das festividades gastronómicas em Portugal, criando um verdadeiro culto em torno da sopa. Neste evento, os “congressistas” entregam-se ao apelo dos sabores e à consciencialização da necessidade de uma alimentação saudável.

Esta iniciativa tem um cariz solidário, uma vez que as receitas de bilheteira revertem para o Centro de Integração e Reabilitação de Tomar (CIRE).

 

Informações úteis

 

Bilhete geral: 5€

Crianças 6 - 12 anos: 2€

Famílias (2 adultos e 2 crianças): 12€

Kit do Congresso da Sopa (copo, tigela, colher e guardanapo): 3€. É possível trazer de casa e poupar este valor.

Os bilhetes estão à venda no Posto de Turismo de Tomar e no CIRE.

Fotos: Câmara Municipal de Tomar

 

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Congresso da Sopa (1) - créditos Câmara Municipa

 

 

(Divulgação de Press Release)

 

 

O Bicagas

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Texto de Edmundo Gonçalves

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O meu pai foi taxista. Melhor, foi industrial de táxi, que é muito mais pomposo. Hoje está reformado, vendeu a sua “indústria”. Esse será assunto para uma outra crónica, mas já vão entender porque aparece aqui o meu pai nesta história. Adiante. O Bicagas, de seu nome Álvaro, era cauteleiro, vendia cautelas, lotaria, aquela que hoje é denominada de “clássica”, que a par do totobola, eram os dois jogos sociais que existiam. Vestia impecavelmente, rematando o conjunto sempre com um lenço ao pescoço no lugar da gravata; Creio que visualizam a coisa. Apregoava “há horas de sorte! Ólhó trintinove, andámanhã à roda”, muitas vezes na estação de caminho-de-ferro e na baixa da cidade, parando muitas vezes no Café Paraíso, ali na Corredoura, donde era quase sempre corrido pelo engraxador que ali fazia ponto e que também vendia jogo, e que juro que quando me lembrar do nome ou alcunha, lhes venho aqui comunicar. Era um tipo baixinho, velhote, bastante sisudo e educado, fazia o seu trabalho e não se metia com ninguém, mas que diabo, ali era o seu posto de trabalho e o Bicagas ia ali meter-se? Claro que a razão era o poder de compra dos clientes do Paraíso, à época frequentado pela nata da sociedade tomarense. O Bicagas foi rico duas vezes. Isso mesmo, não sei por que carga de água, mas por duas vezes saiu-lhe “a grande”. Ou porque ficou com as cautelas propositadamente, ou porque as não conseguiu vender em tempo e não teve oportunidade de as entregar antes da extracção dos números, o que é certo é que por duas vezes num curto espaço de tempo, foi rico. Bom, o Bicagas vestia bem, mas a sua diferença com o Cavalo de Pau terminava por aí. É certo que a mulher também não ajudava grande coisa, cozendo-se mais ou menos com as mesmas linhas que o marido. O Bicagas ficou rico, pela primeira vez, não faço ideia da quantia que ganhou, mas à época seria o equivalente ao valor de um duodécimo de hoje, como diria o outro, é irem ver ao site da Santa Casa… O Bicagas tinha, como toda a gente, ambições e desejos que não conseguia atingir se não tivesse sido bafejado pela sorte e entendeu que já que a sorte lhe bateu à porta, era de aproveitar e a partir daí foi viver à grande. Não direi à francesa, porque provavelmente nenhuma francesa derreteria tanto dinheiro em tão pouco tempo. Almoçar e jantar em restaurantes, grandes fatiotas para ambos e tudo o mais que possam imaginar. Aqui é que entra o meu pai. O Bicagas quis fazer uma viagem de avião com a esposa, é normal. Mas digam-me lá, se tivessem possibilidade de fazer um baptismo de voo onde iam? Provavelmente ao Brasil, às Caraíbas, às Canárias, que na época estava na moda, ou mesmo à Madeira ou aos Açores, que nestes destinos mesmo havendo o castelhano para decifrar a malta entende-se. Não senhor, o Bicagas passou pela praça de táxis e disse ao meu pai: “Zé António, amanhã às seis da manhã estás em minha casa p’a levares a gente p’ó Porto”. E no outro dia lá estava o Zé António para transportar o casalinho para a Invicta. Paragem na Mealhada para o leitãozinho da ordem e chegada a Pedras Rubras. O Bicagas e a esposa iam fazer o seu baptismo num voo para Lisboa! “Zé António, agora esperas p’a gente em Lisboa, mas só amanhã, c’a gente vai dar aqui uma volta p’o Porto e vamos amanhã de manhã. Toma lá dinheiro p’ó hotel”. E lá veio o meu pai, sozinho, do Porto para Lisboa. Claro que dormiu em Tomar, em casa e no outro dia partiu para trazer Bicagas e sua esposa de volta a casa. Num ano fizeram milhares de quilómetros no táxi do meu pai. Percorreram o país de lés a lés e algumas cidades espanholas da raia, até que o dinheiro se acabou. A segunda parte da história do Bicagas fica para outra crónica, mas digo-vos já que teve um final triste e vão perceber a referência ao Cavalo de Pau, lá em cima…

Outra vez bicicletas

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Texto de Edmundo Gonçalves

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Lembram-se do Cavalo de Pau, o brilhante ciclista amador que no Verão vendia gelados Rajá calcorreando Tomar? O homem não era nenhum Agostinho, mas atentos os carradões de fome que passava, era um milagre, não só aguentar-se em cima da bicicleta, mas vencer algumas provas para populares que era tradição realizarem-se nas festas de arraial nas freguesias do concelho, durante o Verão. O ciclismo era, à época, bastante popular.

O Manel tinha nestas provas um adversário à altura, o Azeite. Também de nome Manel, o Azeite era um poço de força antes de ir para a tropa e depois para o Ultramar, fazer a guerra colonial. Teria dado um excelente ciclista, sem dúvida, tinha tudo para vencer, como o Cavalo de Pau aliás, mas ambos foram vítimas das circunstâncias. Um, porque tinha assim, digamos... um pequeno atraso e vinha de uma família miserável, o outro porque chegou avariado dos pirulitos da Guiné. O pior cenário da guerra colonial, deu-lhe cabo do juízo e também ele ficou com um pequeno... atraso. Sabe-se hoje que aquilo era stress de guerra, mas os risos histéricos e despropositados, as fugas para debaixo da cama e as conversas sem nexo eram, para aqueles que assistiam e ignoravam, doidice. "O gajo veio maluco lá da Guiné", era o que todos dizíamos, mesmo nós mais miúdos. Não, o Azeite foi uma das milhares de vítimas de uma guerra sem sentido, mas isso fica para outra crónica.

Retomando, o Manel Azeite e o Cavalo de Pau eram em regra os animadores das provas de ciclismo para populares. Havia sempre quem ganhasse, rapazes que chegaram ao Sporting e Benfica, mas havia lá prova que entusiasmasse se não corresse um deles?

Certa vez, no final de uma dessas "corridas", Cavalo de Pau foi "entrevistado" por um engraçado, que usava um microfone sem ligação: "Manel, umas palavrinhas para o Radio Clube Português, como é que foi esta corrida?" "Ó pá, eu nesta Volta a Portugal era gajo pa ter "ganhado", mas no bastecimento déxei cair a banana e óspois purdim as forças e só na caim pó lado porcu Azête me deu uma das dele, era cá uma banana, cum caraças... épá e tamém furim ali nas Algarvias, tinve um azar, mas mêmassim inda conseguim esputar a itapa aqui ó sprinte." E estava estafado, efectivamente. Subnutrido, era um mistério como aquele homem já muito para lá dos trinta, engraxador de Inverno e vendedor de  gelados no Verão, se conseguia manter em cima duma bicicleta e ainda lutar por vencer.

Andava sempre bem disposto e estava sempre pronto a resolver qualquer imprevisto, como fez numa tarde de Abril no estádio municipal. Jogava o União uma partida, a assistência vibrava, o sol brilhava, o Manel andava pela bancada apregoando o seu produto. "Olhó Rajá fxquinho, é frutó chiclate". Entretanto como acontecia quando o tempo era previsível, era normal virem umas pingas de água, afinal "em Abril, águas mil" e começou a descarregar que Deus a dava, a temperatura desceu, levantou-se um ventinho e o Nascimento, um gordo que era caixeiro-viajante grita lá de cima "Manel, na tens gelados quentes?" "Ó sô Nacimento, aqui na tanho, mas ê vô perguntar ó gajo da camineta". E lá saiu a correr do estádio...

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