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O Zé das bananas

 

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Texto de Edmundo Gonçalves

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Foi meu professor de matemática no liceu. O pai negociava em bananas, morava ali perto do parque de campismo, perto da Horta do Barão, salvo erro, mas já perceberam que a minha memória às vezes me atraiçoa…

Era um personagem. Afável, sempre bem disposto, sabia ensinar de forma simples mas eficaz e sempre com uma estória para contar e uma analogia com qualquer situação que se deparasse no momento. Mudou-se para Tomar para ensinar devido a doença do pai, se a memória me não atraiçoa. Para nós, miúdos, era com alguma surpresa que ouvíamos um “setôr” falar com um total à vontade do seu pai, da sua actividade e mais, com muito orgulho. Os olhos luziam-lhe quando dizia “eu sou filho do Zé das bananas”. E quando algum de nós o questionava, porque no nosso imaginário um professor e ainda p’ra mais de matemática, tinha que ter raízes “aristocráticas”, se o pai tinha mesmo um armazém de bananas, ele respondia invariavelmente “ atão vocês não vêm pela minha barriga que eu só como bananas desde pequeno, o meu pai tem um armazém de bananas, o que é que querem?” E para mal dos seus pecados tinha que acumular com o ensino o armazém de bananas.

Não era difícil ouvi-lo também desabafar: “Isto é que é uma porra, agora tenho que tomar conta da chafarica. Qualquer dia deixo “mazé” o ensino e dedico-me às bananas, não consigo dar conta disto tudo. Vocês na imaginam a dor de cabeça c’aquilo dá, é pááááá…” Confesso que não tenho memória se terá cumprido a “ameaça”, mas que estava verdadeiramente determinado, disso não tenho a menor dúvida. Se souberem “apitem”, que gostaria de saber…

Uma memória muito agradável de um ser humano extraordinário.

Chapeux, também para ele.

O Luís do cinema

 

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Texto de Edmundo Gonçalves 

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Pequenino, ou velhaco ou dançarino, lá diz o povo na sua imensa sabedoria. Ao Luís do cinema nunca vi dançar, dançar; Assim a fazer par com uma mulher. Assim, teria que ser velhaco! Nada de mais falso. A sua dança em redor dos cartazes de cartão duro que publicitavam imagens dos filmes em exibição no Cine-teatro, que ele ia levantar na estação dos comboios (juntamente com as enormes bobinas de fita em caixas de metal) e que posteriormente afixava nalguns locais da cidade, a sua boa disposição permanente, a sua prontidão para um copito e o cigarro sem filtro pendurado no canto da boca, a resposta pronta a uma piada, diziam que o Luís do cinema era um porreiraço.

Foi durante anos a fio, o fogueteiro “oficial” da Festa dos Tabuleiros. Era vê-lo, do alto do seu pouco mais que metro e meio, a deixar fugir os foguetes de bateria (trã, trã,trã - trãtrãtrãtrã, trã, trã – trã), os de “três tiros” (trã – trã – trã) e os morteiros (fsssssstttttt… PUM!), calça e camisa branca, faixa vermelha à cinta e o barrete ao ombro, com dois ou três “ajudantes” atrás, que o municiavam com a artilharia e com “combustível” para aguentar duas voltas à cidade. Para quem pense que havia constrangimentos para o Luís, desengane-se, ele fazia subir a foguetagem mesmo pelas ruas mais estreitas. Tirava o azimute ao vento e vai de inclinar a cana de modo a que com a sua ajuda, o projéctil subisse direitinho “até lá acima”. “Nunca falha”, dizia ele com um sorriso sempre maroto e sempre com segunda intenção. Bom, de vez em quando a cana ainda a arder lá caía em cima dum telhado ou nalgum quintal e era a altura dos bombeiros mostrarem o seu valor.

O Ti Luís era a alma do cinema. Ali trabalharam muitas pessoas, a maior parte como arrumadores, mas a memória que tenho, para além do dono, Jaime de Oliveira e do porteiro, o Joaquim Ferreira, é do Ti Luís. Não me recordo de mais ninguém, excepto  da rapaziada do bar (que creio estar à exploração), o Tita e os irmãos e já agora a fumarada que fazia com que quase não se visse ninguém naquele espaço. E olhem que eu ia ao cinema praticamente todos os dias. Para o “piolho”, que custava vinte e cinco tostões, pouco mais que um cêntimo  e o preço de dois chicharros na praça, já agora…

A aferição da qualidade dos filmes para o Ti Luís era sempre a mesma, “pá, vem ver este, tem gajas boas” dizia ele meio em segredo, com ar quase conspirativo. Ele tinha lá tempo e disposição para assistir aos filmes, havia muita coisa para fazer durante a projecção. No tempo em que ir ao cinema era um ritual, havia que garantir que nada falhava e as mais das vezes ele até assistia à projecção por detrás, mesmo que quisesse ler as legendas não chegava lá, que estavam “ao contrário”. De modo que via os bonecos. Ou melhor, as bonecas! “’Tou-te a d’zer, tem gajas boas, pá!” 

 

NOTA: 

Também calhou ao concelho de Tomar o seu grande incêndio. Calha quase todos os anos.
Quanto ao assunto, mantenho tudo o que escrevi neste post , desejando que à hora a que este post é lançado, a tragédia de Pedrógão não se tenha repetido.

Santa Iria

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Texto de Edmundo Gonçalves

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A minha primeira memória da Feira de Santa Iria tem a ver com uma camioneta enorme, de madeira, que durou até eu me colocar em cima dela para tentar descer um carreiro íngreme que havia perto da casa da minha avó. Deveria ter aí uns quatro, cinco anos, antes de me mudar para a cidade, aos sete. A camioneta provavelmente não seria tão grande como eu a via, deveria ser proporcional ao meu tamanho, de modo que talvez não fosse tão grande assim.

Depois da mudança para a cidade e para a classe do professor Correia, a Feira era o acontecimento do ano, com a parafernália de divertimentos, das barracas de tiros, dos “robertos”, o teatro de marionetas, da barraca dos espelhos, do comércio de tudo e mais alguma coisa, com muita luz e com milhares de pessoas a visitá-la. O circo era o Mariano, onde ouvi e vi pela primeira vez Fernando Farinha que era uma vedeta da rádio, um fadista barreirense adoptado pelo bairro lisboeta da Bica e que mais tarde (o Mundo é um penico) vim a conhecer pessoalmente e a privar. Bom, os meus pais é que gostavam do fadista, eu ia ao Mariano mais por outras atracções. Sempre me fascinou ver os trapezistas, ainda hoje me fascina, voltas e mais voltas e piruetas e mortais;  Aos animais não achava muita piada, mas não perdia a visita às jaulas, com eles ali mesmo à mão, num misto de audácia e “cagufa”. E havia o Poço da Morte, com o Joselito na mota e o pai num carro, num rodopiar louco à volta das paredes, com o rosto tapado, sem mãos, de joelhos e o aplauso efusivo no final “Arrojo, Audácia, Sangue Frio, venha ao Poço da Morte”. Uns heróis! Vim também a encontra-los mais tarde, na Feira Popular de Lisboa, através de um amigo que lá tinha um negócio e que me apresentou ao Joselito. Acreditem que foi uma enorme emoção, não tanto pelo acto, mas pela recordação do fascínio de infância. Acreditem, o Mundo é mesmo um penico!

E os carros de choque, tudo a andar à roda da pista, uma Indianápolis de miniatura, com as faúlhas a saltar da rede electrificada. E o carroussel, “mais uma volta, mais uma viagem, no Maravilha”, aquela bicharada toda a andar à roda sem parar, subindo e descendo, num efeito oito, fazendo um barulho só superado pelo berreiro das cornetas que passavam a música da moda e a voz fanhosa do tipo da cabine de comando “vá lá menina, compre uma senha e leva duas”. Confesso que não vou à Feira há mais de vinte anos, por nenhuma razão que não seja a de não estar em Tomar, mas recordo um episódio engraçado passado com uma rapaziada do Colégio Nun’Álvares, que num dia de soltura  por uma desavença qualquer com o tipo do carroussel, provavelmente porque se estariam a portar “bem”, não os ter deixado dar mais uma voltinha, saltaram p’ra cima daquela coisa e vai de arrancar a bicharada toda e carregar com alguns cavalos, burros, girafas e sei lá mais o quê, para o colégio. Chegaram ao mesmo tempo que a polícia. Segundo um amigo participante na “festa” e que reencontrei mais tarde profissionalmente, o “velho”, como era carinhosamente tratado o proprietário do colégio, o Dr. Raul Lopes, com o seu ar calmo perguntou à trupe “afinal o que é que se passou, porque é que trazem os bichos para o colégio?” “Doutor, o gajo não nos quis deixar andar no carrossel e a gente passou-se”. “Muito bem, os cavalos não saem daqui!”

Salva a honra dos seus alunos e do colégio e evidenciada a sua autoridade, no dia seguinte todos os implicados, numa camioneta, foram entregar os animais sobreviventes ao carroussel. Alguns coxos, outros mancos, mas a bicheza continuou a andar à roda para uma “nova corrida, nova viagem”…

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