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O Salvador deu um traque

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Texto de Edmundo Gonçalves

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Bocage, o enorme Elmano Sadino, como a ele próprio se referia por pseudónimo, consta ter sofrido de grave flatulência e de não ter pudor algum em libertar-se de gases, independentemente do local e das companhias. Consta que terá, certa noite de baile de gala na corte, soltado descaradamente um traque, perfeitamente audível por sobre o som dos metais e cordas da orquestra de câmara que animava os convivas.

De imediato e em consequência do geral rodar de cabeças em sua direcção, o vate, com a sagacidade e agilidade retórica que se lhe conhecia, ali mesmo, de imediato, apontou uma dama que lhe terá negado favores de alcofa e terá, despudoradamente afirmado “meus senhores, o peido que aquela senhora deu, não foi ela, fui eu!” O Salvador não se peidou, mas terá deixado sair com aquele comentário a despropósito, muito do capital de simpatia que detinha entre os portugueses. Quanto a Bocage, o “conto” não passará disso mesmo, um estória(eta).  Quanto ao Salvador, confesso que, como anósmico, pode peidar-se à vontade que não me incomoda. Acho é que terá que ter cuidado com os traques.

Santa Iria

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Texto de Edmundo Gonçalves

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A minha primeira memória da Feira de Santa Iria tem a ver com uma camioneta enorme, de madeira, que durou até eu me colocar em cima dela para tentar descer um carreiro íngreme que havia perto da casa da minha avó. Deveria ter aí uns quatro, cinco anos, antes de me mudar para a cidade, aos sete. A camioneta provavelmente não seria tão grande como eu a via, deveria ser proporcional ao meu tamanho, de modo que talvez não fosse tão grande assim.

Depois da mudança para a cidade e para a classe do professor Correia, a Feira era o acontecimento do ano, com a parafernália de divertimentos, das barracas de tiros, dos “robertos”, o teatro de marionetas, da barraca dos espelhos, do comércio de tudo e mais alguma coisa, com muita luz e com milhares de pessoas a visitá-la. O circo era o Mariano, onde ouvi e vi pela primeira vez Fernando Farinha que era uma vedeta da rádio, um fadista barreirense adoptado pelo bairro lisboeta da Bica e que mais tarde (o Mundo é um penico) vim a conhecer pessoalmente e a privar. Bom, os meus pais é que gostavam do fadista, eu ia ao Mariano mais por outras atracções. Sempre me fascinou ver os trapezistas, ainda hoje me fascina, voltas e mais voltas e piruetas e mortais;  Aos animais não achava muita piada, mas não perdia a visita às jaulas, com eles ali mesmo à mão, num misto de audácia e “cagufa”. E havia o Poço da Morte, com o Joselito na mota e o pai num carro, num rodopiar louco à volta das paredes, com o rosto tapado, sem mãos, de joelhos e o aplauso efusivo no final “Arrojo, Audácia, Sangue Frio, venha ao Poço da Morte”. Uns heróis! Vim também a encontra-los mais tarde, na Feira Popular de Lisboa, através de um amigo que lá tinha um negócio e que me apresentou ao Joselito. Acreditem que foi uma enorme emoção, não tanto pelo acto, mas pela recordação do fascínio de infância. Acreditem, o Mundo é mesmo um penico!

E os carros de choque, tudo a andar à roda da pista, uma Indianápolis de miniatura, com as faúlhas a saltar da rede electrificada. E o carroussel, “mais uma volta, mais uma viagem, no Maravilha”, aquela bicharada toda a andar à roda sem parar, subindo e descendo, num efeito oito, fazendo um barulho só superado pelo berreiro das cornetas que passavam a música da moda e a voz fanhosa do tipo da cabine de comando “vá lá menina, compre uma senha e leva duas”. Confesso que não vou à Feira há mais de vinte anos, por nenhuma razão que não seja a de não estar em Tomar, mas recordo um episódio engraçado passado com uma rapaziada do Colégio Nun’Álvares, que num dia de soltura  por uma desavença qualquer com o tipo do carroussel, provavelmente porque se estariam a portar “bem”, não os ter deixado dar mais uma voltinha, saltaram p’ra cima daquela coisa e vai de arrancar a bicharada toda e carregar com alguns cavalos, burros, girafas e sei lá mais o quê, para o colégio. Chegaram ao mesmo tempo que a polícia. Segundo um amigo participante na “festa” e que reencontrei mais tarde profissionalmente, o “velho”, como era carinhosamente tratado o proprietário do colégio, o Dr. Raul Lopes, com o seu ar calmo perguntou à trupe “afinal o que é que se passou, porque é que trazem os bichos para o colégio?” “Doutor, o gajo não nos quis deixar andar no carrossel e a gente passou-se”. “Muito bem, os cavalos não saem daqui!”

Salva a honra dos seus alunos e do colégio e evidenciada a sua autoridade, no dia seguinte todos os implicados, numa camioneta, foram entregar os animais sobreviventes ao carroussel. Alguns coxos, outros mancos, mas a bicheza continuou a andar à roda para uma “nova corrida, nova viagem”…

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De olhos bem fechados

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Texto de Edmundo Gonçalves

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O tempo, esse “criminoso”, parece não lhe prestar grande atenção, mas a verdade é que uma das actrizes mais profícuas da indústria cinematográfica, por tudo, desde a sua competência e versatilidade, até ao seu narizinho arrebitado que lhe valeu um papel que representou de forma ímpar em “Casei Com Uma Feiticeira”, fez ontem, 21 de Junho, cinquenta anos.

A “malta” tem alguma tendência em apenas olhar para o seu umbigo e preocupar-se apenas com o passar dos seus anos e quando olha em seu redor com olhos de ver, conclui que os outros também são atingidos pela “desgraça”. É certo que com uns, talvez por algum pacto secreto com o demo ou com algum anjo mais condescendente, o tempo é mais permissivo, deixando-os com um aspecto que até aos próprios provavelmente enganará. Eu falo por mim, que tenho o ar de um jovem de 25 anos, não fora as dores nas “cruzes” fazerem questão de me lembrar que fiz há dias 57 (eheh).

Querem falar sobre A Intérprete, O Mistério, Mulheres Perfeitas, Dogville, Cold Mountain, From Russia With Love, Os Outros, Moulin Rouge, o icónico Eyes Wide Shut, O Pacificador, Retrato de Uma Senhora, Batman Forever,  Horizonte Longínquo, do enorme Billy Bathgate, Dias de Tempestade, Um Editor de Génios, Raínha do Deserto, Grace ou The Railway Man num total de 54 longas metragens, algumas delas magistralmente vividas?

Não sou muito de ícones. Mandela e Luther King serão talvez dois dos que terão para mim esse estatuto, os restantes serão mortais um pouco mais virtuosos ou engajados do que outros, apesar da importância que possam ter tido nas suas épocas e que poderão até ter revolucionado a evolução e a história da humanidade. Desse modo não idolatro quem quer que seja; Esta é apenas uma crónica de fait-divers sobre uma excelente actriz, Nicole Kidman e que serve também para quem possa revisitar a sua obra, o faça com olhos de ver. Parabéns então Nicole, Engana-me que eu Gosto.

 

Fogo que arde e se vê

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Texto de Edmundo Gonçalves

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Há uns anos fui à Alemanha. Na época o país de Willy Brandt e da social-democracia e já um dos mais industrializados da Europa e do Mundo. Em conversa com o meu primo, que ainda por lá está e já é alemão por opção, pelo menos no que à forma de ver o Mundo e a vida diz respeito, lembro-me de comentar sobre um enorme campo de trigo a perder de vista perto da sua casa em Hameln, “é pá, o dono disto deve ser um “ganda” latifundiário, nem se vê o fim do campo”.

O Fernando não percebeu o meu comentário e obrigou-me a repetir que aquilo devia ser dum “gajo” cheio da “bagalhoça”, com um latifúndio assim tão grande. Ele riu-se quando percebeu e respondeu com o ar mais natural do Mundo que aquilo seria provavelmente de mais de cem ou duzentos proprietários e que até as máquinas e alfaias que se viam eram propriedade da cooperativa. Confesso que a minha alma ficou parva. Na Alemanha, um país capitalista, preponderante na política europeia, os donos de pequenas parcelas de terreno entendiam-se e juntavam esforços para fazer render a terra, a puxarem todos para o mesmo lado. 

Dei por mim a pensar em voz alta que, na altura, se no centro e norte de Portugal alguém propusesse tal solução para o estrangulado (ainda hoje e cada vez mais) minifúndio rural, seria apelidado de perigoso comunista e acusado de querer roubar as terras aos seus legítimos proprietários. Vem isto a propósito do incêndio trágico de Pedrógão, que vitimou por agora 64 pessoas. Tendo durante a minha vida profissional estado ligado à prevenção de fogos florestais e ao primeiro combate a incêndios, coordenando equipes de sapadores florestais, aprendi em formação adequada que o grande inimigo da floresta é o péssimo ordenamento da mesma. As várias tentativas, umas mais outras menos meritórias, feitas por alguns governantes verdadeiramente preocupados com o assunto, tem esbarrado sempre na oposição dos pequenos proprietários, que resistem à agregação das suas pequenas parcelas de “meia-dúzia” de pinheiros ou eucaliptos, com o receio de que lhe roubem a sua propriedade.

Ainda ontem o secretário de estado da agricultura, que está a tentar implementar medidas que me parecem válidas e com pernas para andar, tratou com pinças este assunto num programa de televisão. Não sendo catedrático da matéria, mas conhecendo a orografia da maior parte da nossa floresta, só com medidas drásticas de regularização do coberto se poderá começar a pensar em prevenção. É certo que a população proprietária dessas pequenas parcelas está empobrecida e não tem condições monetárias para proceder à necessária limpeza dos solos, mas este incêndio em particular, em fogo de copa em eucaliptos, despreza por completo o solo e progride a uma velocidade estonteante.

Correndo o risco de ser apelidado de perigoso e gatuno, eu sugeria a estas pessoas que olhassem para o exemplo alemão de que falei acima. E se elas não têm acesso a ele, que lho mostrem, em sessões lembrando as de alfabetização de 1974/75.

Para bem da floresta, mas principalmente deles próprios.

O Kalim Kalam

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Texto de Edmundo Gonçalves

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Kalim Kalam, ou Calim Calam, ou Calim Calã, porque provavelmente é esta a primeira vez que esta alcunha é escrita, não há uma grafia que a identifique. A mim agrada-me a primeira, ficaremos pela primeira. Retomando, Kalim Kalam era um tipo enorme de que tenho uma memória muito difusa. Era um brutamontes, grande em força, mas também em manha. Trabalhava e vivia nas obras, basicamente era aquilo a que se costumava designar por um pobre diabo. Era um trabalhador indiferenciado, especializado em absolutamente nada, fazia todas as tarefas básicas a ver com o ofício. Fazia a massa, descarregava e fornecia aos pedreiros os tijolos, limpava e guardava a obra durante a noite, impedindo os roubos de materiais e ferramentas. Um indivíduo do seu tamanho, ainda que sem acção, intimidava se alguém o visse na noite escura.

E fazia a comida para o pessoal. A comida, como tudo naquela altura, era escassa e aqueles trabalhadores precisavam de ser alimentados. Hoje há maquinetas para tudo e uma casa faz-se quase sozinha, mas nem sempre foi assim. De modo que na hora do tacho, os esganados apareciam e o Kalim ficava, as mais das vezes, a ver navios. Ficava com os restos da sopa, que era pouco mais que água com gordura e umas folhas de couve.

Até que Kalim abriu os olhos um dia! Antes de bater no “gongo” para chamar a rapaziada para a manga, batia-se com um ou dois “discos” de sopa e tratava dos enchidos. A malta reclamava em coro, mas o patrão garantia que tinha mandado comprar tudo. E Kalim esperava pela sua vez, ordeiramente, como sempre. Durante algum tempo ninguém se lembrou que a marosca poderia vir de onde menos se esperava, até que a um dos colegas, vendo que Kalim se resignava sem as costumeiras reclamações, lhe passou isso pela cabeça. Meu dito, meu feito, no dia seguinte perto da hora em que Kalim começava a preparar a sopa de carne, o nosso amigo colocou-se de atalaia. Kalim Kalan fez a fogueira com tábuas velhas de andaime, meteu-lhe a trempe de ferro por cima e em cima dela a panela também de ferro e encheu-a de água, esperando que levantasse fervura. O outro desesperava, escondido. A coisa foi avançando e Kalim, entre um balde de massa e uns tijolos que levava escadas acima, às costas, ia vigiando o panelão. Até que, quando calculou que a coisa já estivesse quase no ponto, se dedicou à sopa em exclusivo, tratando de lá colocar todos os ingredientes. Passado pouco tempo, lá de cima do seu posto de vigia, o outro foi vendo Kalim tirar a tampa, pegar na colher de pau e começar a mexer a sopa. Chegou-se mais perto quando se apercebeu que Kalim falava para a panela, ficando junto a uma pilha de tijolos que Kalim para ali tinha levado e foi ouvindo “passa a senhora couve” e rodava a colher, “passa a senhora massa” e continuava “passa a senhora morcela… passa o senhor chipe” e rodava, rodava, procurando todos os ingredientes, “passa a senhora farinheira… passa o senhor nabo… passa a senhora batata”, cada vez com mais atenção “passa a senhora cenoura”, com ar de enfado. Até que por fim exclama, com um ar triunfante: “Passa o senhor chouriço! Alto lá senhor chouriço, está preso à ordem de Kalim Kalam!”

Esse foi o dia em que Kalim Kalam foi parar ao hospital da Misericórdia com a cabeça aberta por um tijolo. Sem almoçar…

Que viva la madre de diós

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Texto de Edmundo Gonçalves

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 Quem me acompanha, saberá que não professo qualquer religião. Sem tecer quaisquer considerandos, respeito todos e cada crente, bem como todos os credos. E como espírito aberto, lá fui, com a troupe do costume e mais umas novidades agradáveis, à romaria em honra da virgem de El Rocío.

Já vos tinha dito no ano passado, numa crónica semelhante, que aquilo é um misto de Fátima com a Feira da Golegã. Há o factor religião, que é importante e está sempre presente, mas também há a festa, os cavalos, as charretes, as sevilhanas e os fatos riquíssimos que elas e eles, mais elas como é usual, envergam.

Dezenas de milhares de pessoas de toda a Espanha, especialmente da Extremadura, deslocam-se para uma festa. A diferença entre esta romaria e Fátima é mesmo esta! A Fátima, principalmente os católicos, deslocam-se com um sentimento completamente diferente dos que acodem ao chamamento da virgen del Rocío, o chamamento religioso está lá todo, mas há um lado, chamemos-lhe profano, que está lá e é preponderante. É vulgar assistir a pares ou a  grupos de homens e mulheres, trajados a preceito, dançando sevilhanas, ao som da música tradicional andaluza. Se há por ali promessas em pagamento, elas serão liquidadas com copas e música, que não se vê ninguém humilhando-se a desfilar ajoelhado.

É notório o sentimento de felicidade estampado no rosto de todos, e por ali haverá também gente que sofre, certamente; Viram-se dentro da pequena igreja, com um altar espectacular em talha dourada, crianças e jovens deficientes profundos acompanhados dos pais certamente e outros familiares, no entanto o sentimento dentro do espaço era de alegria contagiante, com um coro que cantava… flamenco.

Para quem não crê e vê aquela romaria de fora, é contudo impossível não sentir-se contagiado. Ali há uma religiosidade que não é castigadora, que não é triste, que não é fatalista e é fácil entrar no espírito. Ali a religião, não esquecendo que estão ali pessoas profundamente católicas, faz parte de um todo e sem toda a restante envolvência, provavelmente não existiria romaria. Para aqueles romeiros a ida a El Rocío é uma festa. E quem de nós não está disponível para uma festa?. A profusão de sentimentos é tão grande, que tenho a certeza que com a ajuda de algumas fotos, das centenas que fizemos, compreenderão melhor o que estou a tentar passar-lhes. Desfrutem.

 

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Às sextas com os Tachos: Sopa da Pedra

 

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Receita de Edmundo Gonçalves

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Sopa da Pedra

Uma sopa que de sopa tem muito pouco e cuja confecção não é muito complicada. Procura-se aqui uma sopa que foge um pouco à confecção tradicional, para evitar o excesso de gordura que normalmente a caracteriza uma vez que se utilizam todas as águas das cozeduras, o que aqui, como disse, se tenta evitar.

 

INGREDIENTES:

1 pernil de porco

1 orelha de porco

1 morcela, 1 chouriço, 1 farinheira

½ l de feijão seco (eu prefiro manteiga, que “deixa” mais goma)

½ pimento encarnado

1 cebola média

4 dentes de alho

2 batatas médias

Massa de pimentão

Coentros

 

PREPARAÇÃO:

De véspera barrar o pernil e a orelha com sal e massa de pimentão e reservar. Demolhar o feijão. No dia, cozer os enchidos num tacho e reservar, guardando a água, que utiliza para cozer as batatas, cortadas em quadrados com cerca de 1cm de lado. Cozer o feijão, sem sal, e reservar conjuntamente com a água. Lavar bem as carnes e cozer. Reservar, descartando a água. Picar a cebola e os alhos e deixar refogar conjuntamente com o pimentão.  Juntar a água da cozedura dos enchidos e do feijão e metade do feijão. Deixar levantar fervura e passe com a varinha mágica (ou com um passe-vite, se desejar eliminar as cascas do feijão). Cortar as carnes em pedaços pequenos eliminando as partes mais gordas e cortar os enchidos às rodelas e juntar tudo ao creme de feijão, conjuntamente com as batatas e o restante feijão.

Acrescentar os coentros picados e servir de imediato.

Notar que em regra a massa de pimentão é por si muito salgada e os enchidos têm também sal, por isso o sal destas operações deverá ser suficiente. No entanto antes de introduzir os coentros, rectifique de sal.

Um dos “segredos” desta sopa são os enchidos. Convém usá-los de qualidade. Como este é um petisco da zona de Almeirim, aconselha-se Marquesa de Alorna, Grande Reserva Tinto, 2012.

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Voar baixinho

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Texto de Edmundo Gonçalves

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Um dia Passos Coelho, à época primeiro-ministro deste por vezes tão maltratado país, entendeu assim um bocado por dá cá aquela palha, vender a TAP, uma das jóias da coroa do empresariado público. Valha a verdade que não apareceram muitos interessados, até que caiu aí num charter um tal de David Neeleman, um tipo dono de uma companhia de aviação brasileira que veio a saber-se à posteriori, estar em falência iminente e que talvez por causa disso, foi obrigado a levar com o dono da Barraqueiro e de mais uma carrada de empresas de transportes, Humberto Pedrosa, como parceiro na compra da transportadora aérea.

Como alguns de nós, os que vimos notícias sabemos, a TAP tem um negócio ruinoso no Brasil, que é a parte de manutenção da extinta Varig, que tem empurrado para baixo as contas do grupo, negócio esse defendido de forma irracional, digo eu que só sei matemática da escola primária e pouco mais, por Fernando Pinto, o eterno presidente da companhia. Contudo, goste-se ou não do homem, duma coisa não o podemos acusar, é de que não percebe do assunto. Já de Miguel Frasquilho, um rapaz do PSD que de aviões sabe que as viagens dão milhas que se acumulam e depois se pode viajar de borla, não se pode dizer o mesmo. Mas se alguém possa pensar que foi distracção do governo a nomeação de Frasquilho, desengane-se, o rapaz vai sentar o sim senhor na cadeira do conselho de administração, como compensação pela nomeação de um amigo de António Costa, que ao que parece também sabe voar, mas baixinho, Lacerda Machado de seu nome. O PSD contesta a nomeação deste advogado que tem no seu currículo a negociação da reversão da privatização de 50% da empresa. Eu cá não sou de intrigas, mas parece-me que se o governo coloca na administração da TAP o tipo que negociou em seu nome e parece que com resultados positivos aquele dossier, será uma forma de ter na administração alguém que certamente deverá defender os seus interesses, e por extensão os nossos, mas isto sou só eu, que como disse não percebo nada de aviões. Já o que não fará grande sentido é a nomeação do social-democrata, se ela se destina apenas a calar o PSD e o assunto tem todo o “cheiro” de uma compensação.

Já agora, convém lembrar que depois da negociação da reversão da privatização, o Estado ficou com 50%, o consócio liderado por Pedrosa e Neeleman com 45% e os restantes 5% para serem adquiridos pelos trabalhadores, o que a não acontecer não poderão ser adquiridos pelo Estado. O conselho de administração terá doze lugares (entre eles o presidente, nomeado pelo Estado e com direito de veto), seis nomeados por cada uma das partes, sendo que a comissão executiva será de nomeação exclusiva de Neeleman e Pedrosa. Eu cá, que neste particular tenho a mesma formação que o Frasquilho, só que com muito menos milhas, acho, apesar disso, que doze melros naquele poleiro é demasiada gente, mas pronto, sempre poderá ser necessário empurrar um avião para fora do hangar…

Muito bem, concluindo, parece-me mais uma guerrinha de Alecrim e Manjerona, que não levará a lado nenhum. Resta acrescentar que nesta leva de nomeações, virá uma senhora de Serralves, Ana Pinho. Supõe-se que para tratar do museu da empresa…

Ah! Também virá um chinês. Que ao que parece são quem está a injectar dinheiro fresco na TAP.

Rai’s ma parta se não estou a ficar com os olhos em bico!

Bairro das Flores - Memórias de Tomar

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 Texto de Edmundo Gonçalves

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Já aqui falei dele. Era formado pelos quarteirões que vão da Av.ª Cândido Madureira à Várzea Pequena, com a Praça da República pelo meio. Apropriadamente tinha esse nome, pelas flores que quase todas as casas ostentavam à porta e algumas em toda a frontaria. Hoje ainda algumas, poucas, mantêm esse passado vivo.

Curiosamente e havendo a grande Praça a meio, a divisória do “bairro” não era no sentido sul/norte, mas nascente poente, como se houvesse uma fronteira imaginária nas Rua Direita, a da Várzea Grande e a da Várzea Pequena.

A ligação da rapaziada estendia-se mais no sentido sul/norte, abarcando toda a parte “de cima” ou toda a parte “de baixo” do “bairro”. E assim de repente vêm-me à memória o Paulo, o filho da Lena e um futebolista excelente (um Pedro Barbosa, em bom), o Quim do Vale, O Marito, grande Guarda-redes do União, prematuramente perdido para o futebol em consequência de um estúpido acidente de automóvel numa deslocação para assistir a uma final europeia em Lisboa e onde perdeu a vida outra jovem promessa do clube, Veríssimo; o Zé Manel, Pícaro de alcunha, irmão do Marito e ainda a Pícara, como calcularão irmã de ambos; o Tininho, também já falecido e um personagem, que fazia questão de nos acompanhar nas imperiais no Noite e Sol com iogurte, só porque sim. E o Zé Martins, filho de outra figura ímpar da cidade, o Manel Martins, um homem da cultura e do teatro e um apreciador de belos néctares, com quem privei nalguns locais e onde o lanche era pretexto para discussão sobre cultura e política. O Camilo e o Paulinho estufador, da minha rua ambos e ainda o Zé da farmácia e o Fernando Zé dos retratos, de quem já falei e que foi meu parceiro, os Pimentas da farmácia, um pouco mais velhos, mas o Tó alinhava sempre nos “copos”. Lá mais para a ponta, acho que na Gil de Avô, moravam os Vigário, cujo pai tinha a Casa (Adega?) dos Passarinhos e inventou aquela bebida extraordinária chamada “Mouchão”. Um deles, o mais novo, Belmiro, também jogador no União. E os mais velhos: O Zé Júlio da ourivesaria Puga, que hoje tem uma loja lá mais perto do cine-teatro; o “vizinho” Abel, marceneiro de eleição e uma pessoa extraordinária; a Casa das Ratas e o Sr. Matreno, o Cândido do restaurante que é hoje o Piri-Piri e que fundou a Pic-Nic; a latoaria junto ao cinema e que hoje é uma casa de jornais e revistas; o Bar Sem Nome, que era a porta de entrada no bairro, em frente ao hospital da Misericórdia e é hoje o restaurante O Infante; a oficina de motorizadas do Fernando Mendes, activo director do União de Tomar em várias ocasiões, situada no que foi talvez o primeiro hospital da cidade; a Nabantina, a colectividade maior do bairro, com uma escola e banda de música notáveis; o Migalhas e a sua loja de velharias e latoaria; o supermercado do Neto; a casa do Chico, que ainda está em pleno funcionamento; o Joaquim Ferreira, barbeiro e cabeleireiro que acumulava com a portaria do cine-teatro e foi o “responsável” pela minha doidice por cinema, porque me deixava entrar, já quando a sala estava na penumbra, para assistir a filmes vedados para a minha idade, mas que me rasgaram os olhos e a mente; a loja da Singer; a Papelaria Gouveia, que (acho que) resiste; a espingardaria em frente ao cine-teatro e que foi depois uma loja de perfumes e que hoje está emparedada e decrépita; a ourivesaria Puga, que ainda lá está, embora apenas num dos lados da rua; a Gráfica, uma livraria e papelaria extraordinária, que tinha aquele cheiro “a livros” maravilhoso; a loja de ferragens do António Domingos, que deu lugar a um pronto-a-vestir; a Sacor, que é hoje um snack-Bar; a Reinolar, que resiste aos hipers; a Loja dos Rapazes…

Vai longa a lista, mas estão referenciados um número ínfimo de pessoas que fizeram parte da minha infância e juventude e de estabelecimentos dos mais variados ramos que eram parte importante do tecido empresarial da cidade e que davam emprego a imensa gente. Aquilo a que outrora foi chamado de judiaria pela presença discreta, porém imponente da sinagoga, um monumento maior da cultura hebraica e que talvez tenha contribuído para a singularidade daquele perímetro, apesar da grandiosidade da igreja de S. João Baptista, que domina a Praça da República. 

Provavelmente quem nasceu ou viveu noutras partes da cidade dirá o mesmo que eu e terá a mesma memória da importância do seu local, mas permitam-me a imodéstia, até pela importância dada pela festa maior da cidade e do concelho, a Festa dos Tabuleiros, com a decoração das ruas (hoje estendida a outras partes da cidade e muito bem), deu a este auto-designado Bairro das Flores, um carisma muito próprio e um sentimento ímpar nos seus habitantes. E nós, os mais novos na altura, sentíamos aquilo com convicção. Eu diria, até, com devoção.

Está o baile armado

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Texto de Edmundo Gonçalves

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Está o baile armado

Ou a gerinçonça, em inglatónico

Usado por Dinis Machado na sua obra maior, O que diz Molero, para a descrição de uma zaragata de marinheiros americanos no Bairro Alto, “ o maior fogo-de-artifício de que há memória em matéria de pancadaria ”.  (…) uma coisa inglatónica”, define algo de grandioso no cinema da época, anos 40 do século XX, onde pontificavam bandidos da pior espécie e polícias de dedo algo nervoso.

Aqui o termo tem a ver com o país e o impasse a que se chegou depois das eleições que o partido conservador, no poder, provocou para consolidar uma maioria que lhe desse força para negociar uma melhor solução, na sua perspectiva, para a negociação da saída do Reino Unido da União Europeia. Como diz o povo, saiu-lhe o cão no carreiro e aquilo que se antevia para Theresa May uma jornada de glória e consagração, redundou num enorme bico-de-obra e numa bota muito difícil de descalçar.

Com a perda de doze deputados e o crescimento exponencial dos trabalhistas, não se antevê grande futuro político para a líder dos conservadores. Resta-lhe formar um governo de minoria, mas saberá que terá os trabalhistas a roer-lhe os calcanhares, ou procurar um acordo com os unionistas irlandeses do DUP, que segurarão, asseguram, a coligação enquanto Corbyn for o líder trabalhista.

Corbyn que já reclamou vitória. Desconheço o número de votos expressos, já que o sistema eleitoral em Inglaterra apenas faz eleger o mais votado de cada círculo, sendo os votos dos restantes literalmente mandados para o lixo (em Portugal o sistema proporcional permite a eleição de vários deputados por cada círculo), mas a correlação de forças prende-se por um cabelo: Com o acordo com os irlandeses, Theresa May tem apenas mais dois deputados para lhe garantir um desempate. E é aqui que entra a geringonça! Partindo do pressuposto que a raínha concederá a May licença para formar governo, terá este acordo força suficiente para se aguentar, ou pelo contrário será sol de pouca dura e obrigará à constituição de maiorias alternativas? Os trabalhistas já demonstraram vontade de assumir o governo e contam para isso com os escoceses, os verdes, os galeses e os liberais (que não estarão muito pelos ajustes) para formar uma maioria que será tão periclitante como a dos conservadores. Resta saber se a inédita solução portuguesa será viável na tão fleumática Inglaterra.

Em resumo, está aquilo a que se costuma designar como um baile armado. Esperemos que não descambe tudo numa cena “inglatónica”.

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PATRÍCIA TEIXEIRA

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