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Se a inês sabe disto

O infante

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Texto de Edmundo Gonçalves 

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Estou de férias por Cabanas, Tavira, desfrutando da melhor praia do Mundo (para mim e mais meia dúzia de entusiastas), onde em Agosto o chapéu mais próximo está a cinquenta metros e o silêncio só é quebrado pelo bater das "ondas" na areia. A água tem estado boa, com 23º de temperatura e as conquilhas ao rodar do pé na areia. Ontem fomos a Espanha, eu e a Mina. Bom, a Ayamonte, não é bem Espanha, apesar do sotaque espanhol daqueles algarvios...

Isto é pertinho, um pouco de N125 e menos ainda de A22, a Via do Infante de Sagres, conforme publicitavam uns cartazes até Dezembro 2011, quando o governo de sua excelência Pedro Passos Coelho decidiu ir mais além que a troika e portajou a pista.

Bom, preços em Espanha à parte (muito mais baratos, desde o combustível ao marisco, até aos charutos e ao Rum vindo directamente de Cuba - e a fruta e os iogurtes e a carne e o peixe), vocês não imaginam o que o meu rico carro se me fartou de chamar nomes! Desde "é pá, leva-me mazé p'a Marrocos que é mais saudável para a minha mecânica" até "se vivesses aqui todo o ano não ganhavas para me manter em suspensão e pneus", foram vinte minutos de terror. É que os meus amigos não imaginam a vergonha que é a N125 de Tavira a Vila Real de Santo António (é o único bocadinho que eu faço) e toda a A22, rivalizando entre ambas na quantidade de buracos. Terei provavelmente, assim por alto, uns milhões de km no "papo" e tenho penado por algumas vias que não lembra ao diabo, mas ter que pagar para circular numa via esburacada como alternativa a outra via igualmente esburacada, é no mínimo maquiavélico.

Então a minha sugestão em forma de pedido ao primeiro ministro, é que, se não consegue ou não quer acabar com as portagens na A22 e voltar a designá-la como Via do Infante, ao menos mande a Infraestruturas de Portugal pavimentar ambas as vias, para que quem ali anda diariamente tenha opção de escolha e então sim, se possa, com alguma água benta pelo meio, admitir as portagens numa infraestrutura totalmente financiada pela União Europeia.

E sabem o que mais me irrita? É que assim que se passa a ponte, pomposamente designada de Internacional do Guadiana, aquilo parece uma alcatifa, um tatami, pronto alcatrão a sério!

 

Redução do tempo de aulas

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Texto de Edmundo Gonçalves

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O Ministério da Educação decidiu aumentar o tempo de recreio dos alunos do primeiro ciclo em meia hora. Devo já dizer que, não sendo nem de perto nem de longe especialista no assunto ( a palavra matéria é mais para os políticos ), acho uma medida acertada.

Parece-me que a carga horária das crianças nas escolas as impede de serem isso mesmo, crianças. Se é verdade que as crianças devem frequentar a escola ( esse é um facto inquestionável ), elas devem ter não apenas a oportunidade, mas o direito à brincadeira. Vivemos numa sociedade demasiado competitiva, que começa cada vez mais cedo a selecção das pessoas e, salvo melhor opinião, parece-me que as crianças deviam ser poupadas e defendidas nos seus direitos. Brincar é talvez tão importante para uma criança, como aprender a ler e a escrever.

Dar às crianças o seu tempo para o usarem como as crianças o devem usar é uma medida inteligente, não tenho qualquer dúvida. No meu tempo, na classe do professor Correia, as aulas eram de manhã. A tarde era dedicada a sermos crianças, à brincadeira, aos índios e cowboys, à bicicleta e à bola. Não havia o fastidioso carrego dos TPC’s, uma coisa que eu encontrei quando os meus filhos chegaram à escola e que sempre considerei uma aberração, com a agravante de o tempo de aulas ser composto por dois períodos, manhã e tarde. Qualquer deles, bastas vezes, trouxe na caderneta o reparo de não ter feito os trabalhos de casa. Inevitavelmente um dos pais lá escrevia que o menino não teve tempo, porque estava a ser menino.

Vejam isto desta forma, não será difícil, vocês que têm um emprego: trabalham sete ou oito horas nos vossos empregos e o vosso chefe ou patrão dá-vos mais uns trabalhinhos extra para fazerem em casa. Gostavam? Pois claro que não e são adultos com outro entendimento. Imaginem as pobres crianças…

Já agora, parece que as associações de pais querem que esse tempo seja de qualidade e em segurança. Quanto à segurança, plenamente de acordo, já quanto à qualidade percebe-se que virá aí exigência de acompanhamento ou actividades extra-curriculares. Porra, meus senhores, deixem as crianças simplesmente BRIN-CAR! 

Nota final: Na última crónica ameacei dar um traque. Descansem, foi apenas ameaça. Eu não tenho a pretensão de cantar como o Salvador.

O Kalim Kalam

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Texto de Edmundo Gonçalves

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Kalim Kalam, ou Calim Calam, ou Calim Calã, porque provavelmente é esta a primeira vez que esta alcunha é escrita, não há uma grafia que a identifique. A mim agrada-me a primeira, ficaremos pela primeira. Retomando, Kalim Kalam era um tipo enorme de que tenho uma memória muito difusa. Era um brutamontes, grande em força, mas também em manha. Trabalhava e vivia nas obras, basicamente era aquilo a que se costumava designar por um pobre diabo. Era um trabalhador indiferenciado, especializado em absolutamente nada, fazia todas as tarefas básicas a ver com o ofício. Fazia a massa, descarregava e fornecia aos pedreiros os tijolos, limpava e guardava a obra durante a noite, impedindo os roubos de materiais e ferramentas. Um indivíduo do seu tamanho, ainda que sem acção, intimidava se alguém o visse na noite escura.

E fazia a comida para o pessoal. A comida, como tudo naquela altura, era escassa e aqueles trabalhadores precisavam de ser alimentados. Hoje há maquinetas para tudo e uma casa faz-se quase sozinha, mas nem sempre foi assim. De modo que na hora do tacho, os esganados apareciam e o Kalim ficava, as mais das vezes, a ver navios. Ficava com os restos da sopa, que era pouco mais que água com gordura e umas folhas de couve.

Até que Kalim abriu os olhos um dia! Antes de bater no “gongo” para chamar a rapaziada para a manga, batia-se com um ou dois “discos” de sopa e tratava dos enchidos. A malta reclamava em coro, mas o patrão garantia que tinha mandado comprar tudo. E Kalim esperava pela sua vez, ordeiramente, como sempre. Durante algum tempo ninguém se lembrou que a marosca poderia vir de onde menos se esperava, até que a um dos colegas, vendo que Kalim se resignava sem as costumeiras reclamações, lhe passou isso pela cabeça. Meu dito, meu feito, no dia seguinte perto da hora em que Kalim começava a preparar a sopa de carne, o nosso amigo colocou-se de atalaia. Kalim Kalan fez a fogueira com tábuas velhas de andaime, meteu-lhe a trempe de ferro por cima e em cima dela a panela também de ferro e encheu-a de água, esperando que levantasse fervura. O outro desesperava, escondido. A coisa foi avançando e Kalim, entre um balde de massa e uns tijolos que levava escadas acima, às costas, ia vigiando o panelão. Até que, quando calculou que a coisa já estivesse quase no ponto, se dedicou à sopa em exclusivo, tratando de lá colocar todos os ingredientes. Passado pouco tempo, lá de cima do seu posto de vigia, o outro foi vendo Kalim tirar a tampa, pegar na colher de pau e começar a mexer a sopa. Chegou-se mais perto quando se apercebeu que Kalim falava para a panela, ficando junto a uma pilha de tijolos que Kalim para ali tinha levado e foi ouvindo “passa a senhora couve” e rodava a colher, “passa a senhora massa” e continuava “passa a senhora morcela… passa o senhor chipe” e rodava, rodava, procurando todos os ingredientes, “passa a senhora farinheira… passa o senhor nabo… passa a senhora batata”, cada vez com mais atenção “passa a senhora cenoura”, com ar de enfado. Até que por fim exclama, com um ar triunfante: “Passa o senhor chouriço! Alto lá senhor chouriço, está preso à ordem de Kalim Kalam!”

Esse foi o dia em que Kalim Kalam foi parar ao hospital da Misericórdia com a cabeça aberta por um tijolo. Sem almoçar…

Está o baile armado

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Texto de Edmundo Gonçalves

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Está o baile armado

Ou a gerinçonça, em inglatónico

Usado por Dinis Machado na sua obra maior, O que diz Molero, para a descrição de uma zaragata de marinheiros americanos no Bairro Alto, “ o maior fogo-de-artifício de que há memória em matéria de pancadaria ”.  (…) uma coisa inglatónica”, define algo de grandioso no cinema da época, anos 40 do século XX, onde pontificavam bandidos da pior espécie e polícias de dedo algo nervoso.

Aqui o termo tem a ver com o país e o impasse a que se chegou depois das eleições que o partido conservador, no poder, provocou para consolidar uma maioria que lhe desse força para negociar uma melhor solução, na sua perspectiva, para a negociação da saída do Reino Unido da União Europeia. Como diz o povo, saiu-lhe o cão no carreiro e aquilo que se antevia para Theresa May uma jornada de glória e consagração, redundou num enorme bico-de-obra e numa bota muito difícil de descalçar.

Com a perda de doze deputados e o crescimento exponencial dos trabalhistas, não se antevê grande futuro político para a líder dos conservadores. Resta-lhe formar um governo de minoria, mas saberá que terá os trabalhistas a roer-lhe os calcanhares, ou procurar um acordo com os unionistas irlandeses do DUP, que segurarão, asseguram, a coligação enquanto Corbyn for o líder trabalhista.

Corbyn que já reclamou vitória. Desconheço o número de votos expressos, já que o sistema eleitoral em Inglaterra apenas faz eleger o mais votado de cada círculo, sendo os votos dos restantes literalmente mandados para o lixo (em Portugal o sistema proporcional permite a eleição de vários deputados por cada círculo), mas a correlação de forças prende-se por um cabelo: Com o acordo com os irlandeses, Theresa May tem apenas mais dois deputados para lhe garantir um desempate. E é aqui que entra a geringonça! Partindo do pressuposto que a raínha concederá a May licença para formar governo, terá este acordo força suficiente para se aguentar, ou pelo contrário será sol de pouca dura e obrigará à constituição de maiorias alternativas? Os trabalhistas já demonstraram vontade de assumir o governo e contam para isso com os escoceses, os verdes, os galeses e os liberais (que não estarão muito pelos ajustes) para formar uma maioria que será tão periclitante como a dos conservadores. Resta saber se a inédita solução portuguesa será viável na tão fleumática Inglaterra.

Em resumo, está aquilo a que se costuma designar como um baile armado. Esperemos que não descambe tudo numa cena “inglatónica”.

Faça-se luz

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Texto de Edmundo Gonçalves

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António Mexia, o “boss” da EDP foi constituído arguido aí num processo, por corrupção activa e passiva e participação económica em negócio. Para que conste, até prova em contrário, para mim o senhor é inocente. Já sobre um negócio da China feito com a energética aquando da abertura da comercialização a outras empresas, aquilo a que prosaicamente eles chamam de concorrência ou mercado livre, penso que há alguns que não serão tão inocentes e nesse grupo também estava António Mexia.

Sabem que em dez anos a EDP teve mil milhões de Euros (é muito zero à direita) de lucros e que desse valor, duzentos e cinquenta milhões, ou seja, “apenas” 25% foram de compensações pela perda do monopólio? Eu faço um desenho, para aqueles que ficaram um pouco toldados e ainda andam à procura da lógica na batata: A determinada altura o Estado português decidiu liberalizar o mercado de electricidade e achou por bem, esquecendo que para o bem ou para o mal estamos inseridos numa coisa que se costuma chamar de economia de mercado, achou por bem, dizia eu, compensar a empresa que iria passar a ter concorrência, precisamente aquela que não tinha que lutar por quotas de mercado, aquela que detinha 100% da clientela, pela perda de clientes. Pronto, agora é que não recuperam mesmo o juízo…

Bom, e não lhes falo daquela parte de que estamos todos a financiar a rede eólica, sendo que quem recolhe os lucros são os accionistas de EDP Renováveis, a EDP com parte de leão e outros, grandes ou pequenos accionistas. Sim, todos os meses há uma parte do valor que paga que é para financiar o plantio de aerogeradores um pouco por todo o país. Nada contra, se quem os pagar não seja quem nada recebe em troca. Estão de boca à banda, não estão? Pois eu também fiquei quando tive conhecimento dos números.

Isto quer dizer que a sua fatura e a de todos os clientes da EDP, poderia ser 25% mais barata. Imagine que paga agora 100 Euros de electricidade por mês. Pagaria 75! É dinheiro…Mas que raio, porque é que eu não tive visão e não fundei uma empresa destas, condenada a dar sempre lucro, mais não seja porque o Estado lho garante?

Só me deu para restaurantes. Parvo!

 

Patrícia Teixeira

Edmundo Gonçalves

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