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Se a inês sabe disto

Santa Iria

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Texto de Edmundo Gonçalves

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A minha primeira memória da Feira de Santa Iria tem a ver com uma camioneta enorme, de madeira, que durou até eu me colocar em cima dela para tentar descer um carreiro íngreme que havia perto da casa da minha avó. Deveria ter aí uns quatro, cinco anos, antes de me mudar para a cidade, aos sete. A camioneta provavelmente não seria tão grande como eu a via, deveria ser proporcional ao meu tamanho, de modo que talvez não fosse tão grande assim.

Depois da mudança para a cidade e para a classe do professor Correia, a Feira era o acontecimento do ano, com a parafernália de divertimentos, das barracas de tiros, dos “robertos”, o teatro de marionetas, da barraca dos espelhos, do comércio de tudo e mais alguma coisa, com muita luz e com milhares de pessoas a visitá-la. O circo era o Mariano, onde ouvi e vi pela primeira vez Fernando Farinha que era uma vedeta da rádio, um fadista barreirense adoptado pelo bairro lisboeta da Bica e que mais tarde (o Mundo é um penico) vim a conhecer pessoalmente e a privar. Bom, os meus pais é que gostavam do fadista, eu ia ao Mariano mais por outras atracções. Sempre me fascinou ver os trapezistas, ainda hoje me fascina, voltas e mais voltas e piruetas e mortais;  Aos animais não achava muita piada, mas não perdia a visita às jaulas, com eles ali mesmo à mão, num misto de audácia e “cagufa”. E havia o Poço da Morte, com o Joselito na mota e o pai num carro, num rodopiar louco à volta das paredes, com o rosto tapado, sem mãos, de joelhos e o aplauso efusivo no final “Arrojo, Audácia, Sangue Frio, venha ao Poço da Morte”. Uns heróis! Vim também a encontra-los mais tarde, na Feira Popular de Lisboa, através de um amigo que lá tinha um negócio e que me apresentou ao Joselito. Acreditem que foi uma enorme emoção, não tanto pelo acto, mas pela recordação do fascínio de infância. Acreditem, o Mundo é mesmo um penico!

E os carros de choque, tudo a andar à roda da pista, uma Indianápolis de miniatura, com as faúlhas a saltar da rede electrificada. E o carroussel, “mais uma volta, mais uma viagem, no Maravilha”, aquela bicharada toda a andar à roda sem parar, subindo e descendo, num efeito oito, fazendo um barulho só superado pelo berreiro das cornetas que passavam a música da moda e a voz fanhosa do tipo da cabine de comando “vá lá menina, compre uma senha e leva duas”. Confesso que não vou à Feira há mais de vinte anos, por nenhuma razão que não seja a de não estar em Tomar, mas recordo um episódio engraçado passado com uma rapaziada do Colégio Nun’Álvares, que num dia de soltura  por uma desavença qualquer com o tipo do carroussel, provavelmente porque se estariam a portar “bem”, não os ter deixado dar mais uma voltinha, saltaram p’ra cima daquela coisa e vai de arrancar a bicharada toda e carregar com alguns cavalos, burros, girafas e sei lá mais o quê, para o colégio. Chegaram ao mesmo tempo que a polícia. Segundo um amigo participante na “festa” e que reencontrei mais tarde profissionalmente, o “velho”, como era carinhosamente tratado o proprietário do colégio, o Dr. Raul Lopes, com o seu ar calmo perguntou à trupe “afinal o que é que se passou, porque é que trazem os bichos para o colégio?” “Doutor, o gajo não nos quis deixar andar no carrossel e a gente passou-se”. “Muito bem, os cavalos não saem daqui!”

Salva a honra dos seus alunos e do colégio e evidenciada a sua autoridade, no dia seguinte todos os implicados, numa camioneta, foram entregar os animais sobreviventes ao carroussel. Alguns coxos, outros mancos, mas a bicheza continuou a andar à roda para uma “nova corrida, nova viagem”…

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