Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

Se a inês sabe disto

Preocupante?

513498.png

 

Texto de Edmundo Gonçalves

edmundo.jpg

“Os portugueses de França são os mais duros para com os imigrantes que vêm para cá e não respeitam ninguém!”.  Esta frase foi proferida por Marine Le Pen ao “Expresso” em 2012. Em 2015, 25% dos candidatos (luso-descendentes) às eleições locais, concorreu pela Frente Nacional. Em Maio de 2016, um estudo do Centro de Estudos Políticos de Sciences Po mostrou que entre os jovens franceses com origens na imigração os que têm ascendência portuguesa eram os mais dispostos a votar na extrema-direita – 50% admitiam fazê-lo. E Davy Rodríguez de Oliveira, o vice-presidente da juventude FN, é neto de imigrantes, uma portuguesa e um espanhol. Para ele, não é contraditório ter raízes na imigração e ser a favor de um partido que vê a imigração como um problema.

Em França, cerca de 20% da população ou é imigrante ou descendente de imigrantes. É assim bastante significativo o apoio dos imigrantes portugueses e dos seus descendentes ao partido de direita, dirigido por Marine Le Pen.

Assuntos como a saída do Euro; Referendar a permanência na UE; A expulsão automática para "criminosos" estrangeiros; O restabelecer das fronteiras nacionais e sair do espaço Schengen; O de reduzir a imigração legal a 10 mil entradas por ano; A existência de condições "mais exigentes" para obter a nacionalidade francesa; Aplicar uma taxa adicional aos salários dos trabalhadores estrangeiros; A reforma aos 60 anos, desde que cumpridos 40 anos de contribuições; Atribuir apenas aos franceses os incentivos à natalidade e Prioridade aos franceses na atribuição de alojamento social, parecem estar a convencer os portugueses e descendentes.

Seria injusto afirmar que isto é saudosismo, se não nos lembrarmos (e alguns deles devem lembrar-se bem) por que saíram de Portugal grande parte deles ainda durante os anos da ditadura, fugindo à miséria e à fome. Percebe-se até que tenham escondido aos filhos e netos a situação nalguns casos miserável em que sobreviviam, mas é já preocupante que não lhes tenham sabido fazer ver a “sorte” que lhes caiu nos braços depois do salto. Fruto do seu suor e de muitas lágrimas, é certo, que aquilo nos primeiros tempos era duro e desumano. Mas que não deixa de ser curioso que quem viveu sob uma feroz ditadura e teve que abandonar as suas raízes para matar uma fome endémica, apoie agora entusiasticamente uma força política que, com todas as alterações proporcionadas pela modernidade, em pouco difere da ditadura de Salazar.

Os imigrantes portugueses, honra lhes seja feita, sempre foram diferentes de todos os outros em França (e noutros países). Por razões culturais, pela maneira de ser, pela educação e por aquela nossa faceta de desenrasca e de querer estar sempre de bem com todos, a comunidade portuguesa é mais tolerada que todas as outras. Quando os portugueses imigrantes em França perceberem que são apenas tolerados e mesmo os descendentes, franceses de nascimento, são olhados como serventes, será o seu comportamento o mesmo? Apesar da vivência em democracia durante tantos anos, estará o estigma da ditadura enraizado ainda nestas pessoas? No mínimo preocupante.

Patrícia Teixeira

Edmundo Gonçalves

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Mensagens