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Se a inês sabe disto

Outra vez bicicletas

MEMORIAS DE TOMAR.jpg

 

 

Texto de Edmundo Gonçalves

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Lembram-se do Cavalo de Pau, o brilhante ciclista amador que no Verão vendia gelados Rajá calcorreando Tomar? O homem não era nenhum Agostinho, mas atentos os carradões de fome que passava, era um milagre, não só aguentar-se em cima da bicicleta, mas vencer algumas provas para populares que era tradição realizarem-se nas festas de arraial nas freguesias do concelho, durante o Verão. O ciclismo era, à época, bastante popular.

O Manel tinha nestas provas um adversário à altura, o Azeite. Também de nome Manel, o Azeite era um poço de força antes de ir para a tropa e depois para o Ultramar, fazer a guerra colonial. Teria dado um excelente ciclista, sem dúvida, tinha tudo para vencer, como o Cavalo de Pau aliás, mas ambos foram vítimas das circunstâncias. Um, porque tinha assim, digamos... um pequeno atraso e vinha de uma família miserável, o outro porque chegou avariado dos pirulitos da Guiné. O pior cenário da guerra colonial, deu-lhe cabo do juízo e também ele ficou com um pequeno... atraso. Sabe-se hoje que aquilo era stress de guerra, mas os risos histéricos e despropositados, as fugas para debaixo da cama e as conversas sem nexo eram, para aqueles que assistiam e ignoravam, doidice. "O gajo veio maluco lá da Guiné", era o que todos dizíamos, mesmo nós mais miúdos. Não, o Azeite foi uma das milhares de vítimas de uma guerra sem sentido, mas isso fica para outra crónica.

Retomando, o Manel Azeite e o Cavalo de Pau eram em regra os animadores das provas de ciclismo para populares. Havia sempre quem ganhasse, rapazes que chegaram ao Sporting e Benfica, mas havia lá prova que entusiasmasse se não corresse um deles?

Certa vez, no final de uma dessas "corridas", Cavalo de Pau foi "entrevistado" por um engraçado, que usava um microfone sem ligação: "Manel, umas palavrinhas para o Radio Clube Português, como é que foi esta corrida?" "Ó pá, eu nesta Volta a Portugal era gajo pa ter "ganhado", mas no bastecimento déxei cair a banana e óspois purdim as forças e só na caim pó lado porcu Azête me deu uma das dele, era cá uma banana, cum caraças... épá e tamém furim ali nas Algarvias, tinve um azar, mas mêmassim inda conseguim esputar a itapa aqui ó sprinte." E estava estafado, efectivamente. Subnutrido, era um mistério como aquele homem já muito para lá dos trinta, engraxador de Inverno e vendedor de  gelados no Verão, se conseguia manter em cima duma bicicleta e ainda lutar por vencer.

Andava sempre bem disposto e estava sempre pronto a resolver qualquer imprevisto, como fez numa tarde de Abril no estádio municipal. Jogava o União uma partida, a assistência vibrava, o sol brilhava, o Manel andava pela bancada apregoando o seu produto. "Olhó Rajá fxquinho, é frutó chiclate". Entretanto como acontecia quando o tempo era previsível, era normal virem umas pingas de água, afinal "em Abril, águas mil" e começou a descarregar que Deus a dava, a temperatura desceu, levantou-se um ventinho e o Nascimento, um gordo que era caixeiro-viajante grita lá de cima "Manel, na tens gelados quentes?" "Ó sô Nacimento, aqui na tanho, mas ê vô perguntar ó gajo da camineta". E lá saiu a correr do estádio...

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Patrícia Teixeira

Edmundo Gonçalves

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