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Se a inês sabe disto

Os manos Cardoso

MEMORIAS DE TOMAR.jpg

Texto de Edmundo Gonçalves

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Fotógrafos ambos. O Henrique começou primeiro, com a Foto Nabão, sendo que o Augusto, seu aprendiz logo que deslindou os segredos da câmara escura, se estabeleceu por conta própria também, com a Foto A. Cardoso, já encerrada, cujo último domicílio ficava na Rua Direita da Várzea Pequena (Silva Magalhães). A Foto Nabão ficava na Rua Direita da Várzea Grande (Infantaria 15) e continuou aberta ao público até ao final do ano passado, explorada pelo filho, o Fernando Zé, meu parceiro na escola e que revi há relativamente pouco tempo. Atenta a informação lida na CS, encerrou actividade a 31 de Dezembro. Sinal dos tempos, eventual e infelizmente.

Os manos Cardoso, o Henrique e o Augusto, eram duas figuras. Pela sua postura, pela sua amizade, pela sua cumplicidade, talvez porque tivessem um “feitio” tão divergente. O Augusto mais ponderado, mais calculista, o Henrique muito mais extrovertido, agindo por impulso quase sempre. Ambos davam largas a um dos seus vícios todos os dias, religiosamente de segunda a sexta à hora de almoço, no salão de bilhares do Paraíso, fazendo a vida negra aos que os defrontavam (porque ambos, cada um com o seu estilo que era o espelho da sua forma de ser, jogavam muito bem ao snooker-pool) e ao Raúl, o empregado de mesa que tinha paciência de santo não só para eles, como para nós miúdos, que ali estávamos impreterivelmente à uma e meia da tarde para assistir ao espectáculo das tabelas secas do Henrique e dos “snoocanços” do Augusto e ali continuávamos depois das três, a tentar imitar as suas performances.

O salão do Paraíso era a meca do bilhar e do snooker (pool). O Restauração, aberto pelo Zé no final dos anos cinquenta quando saiu do Paraíso, tinha um salão muito maior, com mesas grandes, onde se jogava o verdadeiro snooker,  mas era quase exclusivamente frequentado por estudantes. O Paraíso tinha outro “cheiro”, era mais intimista e tinha para além das mesas, um reservado onde se jogava mahjong. Toda a gente sabia, mas escondia-se que as fichas tinham efectivamente um valor facial, baixo, mas era dinheiro à séria. Longas horas e muitas imperiais e tostas mistas estão no currículo, naquele local.

Para se aquilatar do “vício” por aquelas partidas da hora de almoço, certa vez ambos, aficionados até ao tutano, foram num Domingo assistir a uma noturna a Badajoz, com touros de morte que é o que os que gostam da Festa querem ver. Aquelas alminhas dormiram “a correr”, para não faltarem à partida do dia seguinte, que tinha ficado suspensa na sexta-feira anterior. É que de Badajoz a Tomar, naquela altura, a estrada era uma dor de alma. 

Ambos falecidos, o Augusto no ano passado com oitenta anos, a idade do meu pai, sem saberem foram parte importante da minha formação. Pelas horas que passei a vê-los jogar e a forma como viviam a sua vida. E para quem não teve irmãos, era cá uma inveja quando o Henrique dizia “mano, dá aí uma tabela seca à nove”, sempre audaz e o Augusto respondia “não sejas parvo, mano, encosto mazé a branca à oito e snooko o gajo”, cauteloso como sempre…

Chapeaux!

Nota: Quanto ao meu amigo Fernando Zé, fotógrafo oficial e oficioso do meu casamento, está todo “branco”, tadinho, como podem ver aqui, no que descobri numa pesquisa rápida na net, buscando fotos dos protagonistas desta estória. Como apenas encontrei uma foto do Augusto, precisamente da notícia do seu falecimento, vai a prosa assim, simples, que eles não haveriam de gostar que eu os separasse.