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Se a inês sabe disto

Os filhos de deus

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Eu confesso, passe a imprecisão, que não dou muito para o peditório das religiões e que considero que todas elas, baseando-se na crendice e em factos não cientificamente provados, não passam de reminiscências de um passado de ignorância científica, que há muito a humanidade deveria ter conseguido ultrapassar. Não conseguiu, não há nada a fazer, uma vez consolidada e bem a liberdade de expressão e religião (aliadas a outras que fomos conquistando e de que nem nos damos conta, por as darmos por adquiridas). Não é legítimo a ninguém pretender coartar o direito de outrem à sua fé, que apesar de a propaganda dizer que alimenta, infelizmente não mata a fome a ninguém.

Bom, não mata é uma forma de expressão (a fome, quer-se dizer), que há por aí muito milhar de desocupado a viver à conta da fé dos outros. Uns há um par de milhares de anos, outros há muito menos tempo, mas não com menos eficácia. Destes, tem-se destacado um brasileiro de seu nome Edir Macedo Bezerra, que desde o final dos anos setenta, altura em que fundou a igreja universal do reino de deus (IURD), já convenceu nove milhões de incautos a que chama fiéis, espalhados por 182 países. Para o acolitarem nesta hercúlea tarefa, tem 320 bispos e cerca de 14 mil pastores, que mais não servem que para procederem à colecta em favor do chefe da quadrilha, que é hoje considerado o pastor mais rico e poderoso do Brasil e com um património superior a mil milhões de dólares.

Em 1989 chega a Portugal e rapidamente conquista as simpatias de gente que (novidade...) estava desacreditada das igrejas existentes, com a católica à cabeça, mais não seja porque é ainda a que arrasta mais fiéis. Abriu um "tasco" na Estrada de Benfica e muito pouco tempo depois comprou o cinema Império, ali à Alameda Afonso Henriques. Certamente os trinta milhões de Euros de colectas que factura por ano livres de impostos em Portugal apenas, não serão alheios a isso e cá para mim devem fazer corar de vergonha (inveja não porque é pecado mortal, dizem) a igreja católica. Ainda tentou comprar o Coliseu do Porto, mas felizmente a massa crítica da Invicta mobilizou-se e impediu a compra/venda do imóvel.

A charlatanice é pródiga em caçar os incautos e também e talvez principalmente, os deserdados da vida, aqueles que menos têm e menos esperança têm de vir a ter alguma coisa, seja dinheiro, seja afecto, seja amor,  por isso esta e outras igrejas rapidamente proliferam e se espalham como um vírus, já que as igrejas tradicionais não respondem (nunca foi vocação delas fazê-lo) às necessidades de quem a elas acorre e delas acaba por se desiludir. E assim Edir Macedo Bezerra construiu um império. Deixem-me que vos diga que com muito mais inteligência (ou xico-espertice se quiserem, talvez herdada de algum antepassado português) que a igreja católica: Esta para construir o império que possui, as mais das vezes recorreu ao roubo, às negociatas, aos jogos de interesses, a invasões, à ameaça de excomunhão e por aí fora. Edir (re)inventou o dízimo também já usado pela igreja católica, mas tornou-o voluntário, ele conseguiu até convencer os menos lúcidos e esclarecidos de que o dinheiro era obra do diabo, coitado, que está lá tão sossegado no Inferno, dizem, e que nada melhor havia que confiarem na IURD para que ao mesmo tempo que lhes levavam o dinheiro, lhes tiravam o diabo do corpo.

Bom, a determinada altura do ano de 1994, Edir decide fundar uma obra social a que dá o nome de Lar Universal, destinado a "acolher" crianças ali deixadas pelos fiéis. Não seria grave, se o fim fosse esse. No entanto estas casas em Portugal precisam de ser legalizadas junto da Segurança Social e isso não aconteceu durante cerca de nove anos, período durante o qual, pasme-se, a própria Segurança Social e até os tribunais, enviaram crianças retiradas às famílias para uma casa para todos os efeitos, ilegal.

A abertura desta casa tem um fim muito preciso e cruel e custa a crer que apenas passados vinte anos estas coisas venham a público, numa reportagem que ainda agora se iniciou, emitida pela TVI. Eu disse cruel e reitero: Estas crianças eram recolhidas no Lar Universal unicamente com o propósito de serem adoptadas pelos pastores da IURD, que a determinada altura Edir decidiu que fossem castrados (vasectomias sob coacção é praticamente o mesmo, que foi o que ordenou que fizessem, em clínicas de vão de escada, ao arrepio da Lei, que impede o acto a menores de 25 anos e sem filhos). Este "lar" passou a ser o entreposto de crianças que foram raptadas, não há que ter medo das palavras, e enviadas para os mais diversos países do Mundo, onde existem delegações da IURD. Vejam os leitores como Edir quis queimar etapas no crescimento e implantação da sua igreja: A sua concorrente mais forte impede os seus bispos e sacerdotes de se casarem, ele foi mais longe, impediu-os de ter filhos! Os bispos e sacerdotes da igreja católica ainda podem mijar-fora-do-penico e terem o azar de procriarem (e quantos por aí há, filhos de digníssimos representantes de cristo na terra), os seus bispos e pastores podem dar vazão à vontade sexual, que as consequências serão nulas.

Consta que os seus "netos" terão sido escolhidos "por catálogo" neste "Lar", que foram para os Estados Unidos e que um deles faleceu recentemente, o mais novo de três irmãos, dois rapazes e uma menina, cuja mãe apenas pediu auxílio para a guarda das crianças enquanto estava no seu trabalho. Virão aí mais episódios, certamente com revelações escabrosas, portanto queria deixar um conselho a quem se indignou (e bem, eu sou um dos que) com o saque à Raríssimas, que não deixe de indignar-se, com a mesma veemência, com as actividades desta autêntica quadrilha que actua sob a capa da bondade, mas ao que se dedica é à prática da extorsão, da crendice, da alienação e do rapto de menores para a prossecução dos seus fins, o enriquecimento ilícito do seu pastor-mor, Edir Macedo Bezerra, também ele, já agora, um filho de deus...