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O “Rénaldo”

MEMORIAS DE TOMAR.jpg

 

Texto de Edmundo Gonçalves

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O Reinaldo morava na Aurora de Macedo, creio ter sido varredor da Câmara Municipal. Frequentava a tasca que havia na esquina em frente à SACOR, religiosamente. Ou seja, sempre que a vassoura queria descansar… Fumava uns cigarros sem filtro, marca Definitivos, concorrentes dos Provisórios, mas também fumava Kentucky (alcunhados de mata-ratos, vá-se lá saber porquê), 20 20 20 (três vintes), a que ele chamava invariavelmente, a todos, “Tip-Top”.

-Uma selha e um maço Tip-Top. Era a sua dose. Curiosamente nunca ninguém chamou ao copo ¼ de litro, ou 2,5dl; Evoluiu para penalti. Talvez por ser grande…

Esta tasca era directamente concorrente com a da Lena, de que distava pouco mais de quinze metros, ambas com porta para a Infantaria 15, sendo que a diferença eram as preferências políticas dos proprietários. O marido da Lena trabalhava na “Fábrica”, a fábrica de fiação de Tomar, onde havia naquela altura já um espírito de operariado consciente, de modo que sem se comprometer, como era avisado que havia bufos por tudo quanto era canto (é escusado divulgar os seus nomes, grande parte deles já não estará entre nós e 43 anos de Democracia serão bastantes para convivermos com essa parte negra da nossa história), sem se comprometer, dizia, na Lena vivia-se um clima mais respirável que na tasca do vizinho, o Bacalhau (não sei se alcunha, se apelido), mais simpatizante do regime.

O “Renaldo” era um amante de copos, mas de parvo não tinha nada e essa veia vinha-lhe as mais das vezes quando já estava com o seu copito a mais e lhe dava para “sarnar” o Bacalhau, arranjando logo ali um interlocutor. A pergunta era a mesma, sempre: “Quem foi o primeiro rei de Portugal?” A resposta era também sempre a mesma, o que deixava o outro “em broa”: “Albano Barreiro(s)! O primeiro homem a ter um armazém de vinhos em Tomar.” E o outro bufava…

Efectivamente Albano Barreiros foi um grande armazenista de vinhos, fornecedor de praticamente todos os restaurantes e tascas da cidade, do concelho e até limítrofes e provavelmente para o “Renaldo” não seria apenas picardia chamar-lhe “rei”…

Apenas por curiosidade, o Bacalhau, no dia 26 de Abril de 1974, tinha na sua tasca em local bem visível, uma foto de António de Spínola. Não fosse o diabo tecê-las.

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