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Se a inês sabe disto

O Nené Cebola

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Texto de Edmundo Gonçalves

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A memória da figura é clara. Um sujeito magro, não muito alto, muito simpático e educado, sempre muito bem vestido. Parava quase exclusivamente no Café Paraíso, propriedade do Manuel Mota Grego, tio de João Mota, o fundador do Teatro da Comuna, também ele natural de Tomar e também no Pepe, na Praça da República. Sempre a “duzentos” à hora. Tomava sempre um galão e uma torrada, que também quase sempre alguém acabava por lhe pagar. Sem que ele fizesse por isso, mas nunca recusando a gentileza.

Não trabalhava, não tinha condições psicológicas para tal. O comum dos tomarenses “vendia” a estória de que foi vítima de um esgotamento enquanto estudante e nunca mais recuperara. A esta distância, contudo e com outra informação que não detinha nesse tempo, é hoje fácil chegar à conclusão que Lionel Carvalhais era autista. Desconheço a razão por que tinha a alcunha de Nené Cebola, mas é curioso que ninguém a ele se dirigia desse modo, era sempre tratado por Carvalhais, por tu ou por senhor, conforme a proximidade. Nené era o tratamento na terceira pessoa. Se fizerem um esforço e tentarem lembrar-se de Dustin Hoffman em “Encontro de irmãos”, onde contracena com Tom Cruise e onde dá vida a uma pessoa com autismo, podem ver o Nené Cebola. Creio que vivia com uma irmã que dele cuidava, de quem tenho uma memória muito vaga, porque raramente saía de casa.

Lionel Carvalhais tinha, como quase todos os autistas, uma fixação (perdoem-me os eruditos no assunto, mas o meu conhecimento não vai mais além): Sabia todos os números de telefone do concelho de Tomar e de todos à volta e que com ele confinam, de memória. Era dizer-lhe um nome e ele rapidamente respondia. Era uma agenda telefónica volante. Imaginem-se na Praça da República e precisarem de telefonar para um Manuel Figueiredo, de Abrantes e não fazem ideia para que número devem telefonar. Passa Carvalhais e é fácil: “Ó sô Carvalhais, dá-me o número do Manuel Figueiredo de Abrantes?” “Com certeza, meu amigo, é o (e lá vem o número e como bónus a morada), mas se não atender pode ligar para o João Fernandes que mora na casa ao lado”. Não é raro estas pessoas serem brilhantes com números e os telefones quando começou tinham apenas quatro números e uma sequência lógica (publicou as listas até os números terem cinco dígitos, salvo erro), mas já era outro assunto juntar-lhes as moradas. Note-se que de memória…

Os CTT não editavam listas telefónicas, ou talvez editassem, não faço ideia, mas de qualquer modo Nené arranjou forma de juntar uns cobres para a sua sobrevivência e da irmã: Editava ele próprio as listas, uma a uma, numa máquina de escrever, agrafando depois as folhas. Começou pelo concelho de Tomar, depois acrescentou-lhe Ferreira do Zêzere e finalmente tudo à volta, Abrantes, Ourém, Torres Novas e Barquinha, com quem Tomar faz fronteira. Posteriormente acrescentou-lhe os concelhos da Chamusca, Golegã e Entroncamento.

Escusado era perguntarem-lhe alguma coisa quando caminhava, em passadas curtas e rápidas, falando para ele próprio. A resposta era inevitavelmente a mesma: “Vá perguntar aos correios”.

Patrícia Teixeira

Edmundo Gonçalves

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