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Se a inês sabe disto

O Manel Faia

MEMORIAS DE TOMAR.jpg

Texto de Edmundo Gonçalves

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O Manel Faia era prefeito (ou perfeito, há quem utilize também esta terminologia, na altura o equivalente a contínuo, hoje auxiliar de educação) no antigo Colégio Nun’Álvares. Consta que era bruto que nem umas casas e distribuía chapada a torto e a direito pela rapaziada que não cumpria as orientações, rígidas, da “casa”.

Eu conheci o Faia através do meu pai. O Manel era um homem grande, muito grande, como dizíamos, cada mão “era uma certidão de óbito”, mas fora do colégio era um paz de alma, era um homem de muito bom trato e sobretudo um enorme aficionado. Foi dele o pontapé de saída para a formação do grupo de forcados amadores do Colégio Nun’Álvares, donde saíram forcados de enorme valor, tendo sido seu cabo e um enorme forcado (bem como o seu irmão João), depois de ter estado também na fundação dos Amadores de Tomar e tendo como um dos pontos altos da carreira, como cabo dos Amadores de Riachos, a despedida de Manuel dos Santos, um enorme matador de toiros, no Campo Pequeno, em 1953. Um pequeno aparte para o tratamento dado a cada um dos elementos dos grupos de forcados, aqui no cartaz do evento, exemplificando deste modo que, à época, Portugal era mesmo só Lisboa e o resto era mesmo apenas paisagem.

Na qualidade de grande aficionado, foi empresário de várias praças de touros um pouco por todo o País, já no início da década de setenta. Como não tinha nem carro, nem carta de condução, o carro de serviço do Faia era o táxi do meu pai. E durante alguns anos, quando podia, eu acompanhava-os às corridas, às tentas, à escolha dos curros quase sempre na herdade do António Barbeiro e frequentei as casas de algumas figuras do toureio apeado e a cavalo da segunda metade do século passado. Assisti ao “nascimento” de João Moura e de Rui Salvador, entre outros, o primeiro precisamente um mês mais velho que eu e passei belas tardes na herdade do José João Zoio, já falecido.

O mundo dos touros era (hoje não sei, confesso) muito, digamos, escorregadio. Havia algumas dificuldades em montar cartéis, havia os compromissos, o pagamento de favores, a cobrança de amizades, algumas vigarices menores, mas no final aquilo acabava tudo bem, mesmo que a bilheteira não tivesse dado para a despesa. Sendo um mundo como disse, escorregadio, era também um mundo muito solidário e de compromisso: Hoje dou-te eu, amanhã dás-me tu, se eu precisar, assim: “Hoje a bilheteira só deu isto, tem que dar p’ra todos”. E dava! A maior parte das praças não tinha um local onde os protagonistas de “duas patas” se preparassem para as corridas, para vestirem os trajes de festa e calçarem aquelas sapatilhas um pouco, bom, fiquemos por aqui… E então a alguns apanhávamo-los pelo caminho, à porta de casa ou num qualquer café e eles lá seguiam para a praça, devidamente paramentados. Dei por mim a pensar várias vezes que aquela malta parecia que ia para um baile de máscaras.

Depois da função, inevitável era o jantar. O Faia não gostava muito de misturas, nesses dias era ele, o meu pai e eu, à mesa. Quando dava, a paragem era em Almeirim, ali numa transversal à Rua José Relvas, onde o Faia tinha um rabo de saia, ou pelo menos era o que todos diziam, eu não sei bem se era mesmo assim, mas pelas vezes que lá parávamos… ‘Tá bem, comia-se bem, mas havia mais restaurantes, ‘né?

Apesar de alguns “cagaços” que aquela malta me fez passar (uma tarde em cima de uma oliveira, com os bichos ali mesmo em baixo foi uma delas), acreditem que uma vez dentro, o bichinho nunca mais sai. Foi ele o culpado pela minha afición, foi com ele que aprendi a gostar dos toiros e da festa e foi também com ele que a festa viveu os seus anos de ouro em Tomar.

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