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Se a inês sabe disto

O Luís do cinema

 

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Texto de Edmundo Gonçalves 

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Pequenino, ou velhaco ou dançarino, lá diz o povo na sua imensa sabedoria. Ao Luís do cinema nunca vi dançar, dançar; Assim a fazer par com uma mulher. Assim, teria que ser velhaco! Nada de mais falso. A sua dança em redor dos cartazes de cartão duro que publicitavam imagens dos filmes em exibição no Cine-teatro, que ele ia levantar na estação dos comboios (juntamente com as enormes bobinas de fita em caixas de metal) e que posteriormente afixava nalguns locais da cidade, a sua boa disposição permanente, a sua prontidão para um copito e o cigarro sem filtro pendurado no canto da boca, a resposta pronta a uma piada, diziam que o Luís do cinema era um porreiraço.

Foi durante anos a fio, o fogueteiro “oficial” da Festa dos Tabuleiros. Era vê-lo, do alto do seu pouco mais que metro e meio, a deixar fugir os foguetes de bateria (trã, trã,trã - trãtrãtrãtrã, trã, trã – trã), os de “três tiros” (trã – trã – trã) e os morteiros (fsssssstttttt… PUM!), calça e camisa branca, faixa vermelha à cinta e o barrete ao ombro, com dois ou três “ajudantes” atrás, que o municiavam com a artilharia e com “combustível” para aguentar duas voltas à cidade. Para quem pense que havia constrangimentos para o Luís, desengane-se, ele fazia subir a foguetagem mesmo pelas ruas mais estreitas. Tirava o azimute ao vento e vai de inclinar a cana de modo a que com a sua ajuda, o projéctil subisse direitinho “até lá acima”. “Nunca falha”, dizia ele com um sorriso sempre maroto e sempre com segunda intenção. Bom, de vez em quando a cana ainda a arder lá caía em cima dum telhado ou nalgum quintal e era a altura dos bombeiros mostrarem o seu valor.

O Ti Luís era a alma do cinema. Ali trabalharam muitas pessoas, a maior parte como arrumadores, mas a memória que tenho, para além do dono, Jaime de Oliveira e do porteiro, o Joaquim Ferreira, é do Ti Luís. Não me recordo de mais ninguém, excepto  da rapaziada do bar (que creio estar à exploração), o Tita e os irmãos e já agora a fumarada que fazia com que quase não se visse ninguém naquele espaço. E olhem que eu ia ao cinema praticamente todos os dias. Para o “piolho”, que custava vinte e cinco tostões, pouco mais que um cêntimo  e o preço de dois chicharros na praça, já agora…

A aferição da qualidade dos filmes para o Ti Luís era sempre a mesma, “pá, vem ver este, tem gajas boas” dizia ele meio em segredo, com ar quase conspirativo. Ele tinha lá tempo e disposição para assistir aos filmes, havia muita coisa para fazer durante a projecção. No tempo em que ir ao cinema era um ritual, havia que garantir que nada falhava e as mais das vezes ele até assistia à projecção por detrás, mesmo que quisesse ler as legendas não chegava lá, que estavam “ao contrário”. De modo que via os bonecos. Ou melhor, as bonecas! “’Tou-te a d’zer, tem gajas boas, pá!” 

 

NOTA: 

Também calhou ao concelho de Tomar o seu grande incêndio. Calha quase todos os anos.
Quanto ao assunto, mantenho tudo o que escrevi neste post , desejando que à hora a que este post é lançado, a tragédia de Pedrógão não se tenha repetido.