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Se a inês sabe disto

O Kalim Kalam

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Texto de Edmundo Gonçalves

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Kalim Kalam, ou Calim Calam, ou Calim Calã, porque provavelmente é esta a primeira vez que esta alcunha é escrita, não há uma grafia que a identifique. A mim agrada-me a primeira, ficaremos pela primeira. Retomando, Kalim Kalam era um tipo enorme de que tenho uma memória muito difusa. Era um brutamontes, grande em força, mas também em manha. Trabalhava e vivia nas obras, basicamente era aquilo a que se costumava designar por um pobre diabo. Era um trabalhador indiferenciado, especializado em absolutamente nada, fazia todas as tarefas básicas a ver com o ofício. Fazia a massa, descarregava e fornecia aos pedreiros os tijolos, limpava e guardava a obra durante a noite, impedindo os roubos de materiais e ferramentas. Um indivíduo do seu tamanho, ainda que sem acção, intimidava se alguém o visse na noite escura.

E fazia a comida para o pessoal. A comida, como tudo naquela altura, era escassa e aqueles trabalhadores precisavam de ser alimentados. Hoje há maquinetas para tudo e uma casa faz-se quase sozinha, mas nem sempre foi assim. De modo que na hora do tacho, os esganados apareciam e o Kalim ficava, as mais das vezes, a ver navios. Ficava com os restos da sopa, que era pouco mais que água com gordura e umas folhas de couve.

Até que Kalim abriu os olhos um dia! Antes de bater no “gongo” para chamar a rapaziada para a manga, batia-se com um ou dois “discos” de sopa e tratava dos enchidos. A malta reclamava em coro, mas o patrão garantia que tinha mandado comprar tudo. E Kalim esperava pela sua vez, ordeiramente, como sempre. Durante algum tempo ninguém se lembrou que a marosca poderia vir de onde menos se esperava, até que a um dos colegas, vendo que Kalim se resignava sem as costumeiras reclamações, lhe passou isso pela cabeça. Meu dito, meu feito, no dia seguinte perto da hora em que Kalim começava a preparar a sopa de carne, o nosso amigo colocou-se de atalaia. Kalim Kalan fez a fogueira com tábuas velhas de andaime, meteu-lhe a trempe de ferro por cima e em cima dela a panela também de ferro e encheu-a de água, esperando que levantasse fervura. O outro desesperava, escondido. A coisa foi avançando e Kalim, entre um balde de massa e uns tijolos que levava escadas acima, às costas, ia vigiando o panelão. Até que, quando calculou que a coisa já estivesse quase no ponto, se dedicou à sopa em exclusivo, tratando de lá colocar todos os ingredientes. Passado pouco tempo, lá de cima do seu posto de vigia, o outro foi vendo Kalim tirar a tampa, pegar na colher de pau e começar a mexer a sopa. Chegou-se mais perto quando se apercebeu que Kalim falava para a panela, ficando junto a uma pilha de tijolos que Kalim para ali tinha levado e foi ouvindo “passa a senhora couve” e rodava a colher, “passa a senhora massa” e continuava “passa a senhora morcela… passa o senhor chipe” e rodava, rodava, procurando todos os ingredientes, “passa a senhora farinheira… passa o senhor nabo… passa a senhora batata”, cada vez com mais atenção “passa a senhora cenoura”, com ar de enfado. Até que por fim exclama, com um ar triunfante: “Passa o senhor chouriço! Alto lá senhor chouriço, está preso à ordem de Kalim Kalam!”

Esse foi o dia em que Kalim Kalam foi parar ao hospital da Misericórdia com a cabeça aberta por um tijolo. Sem almoçar…

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Patrícia Teixeira

Edmundo Gonçalves

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