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seainessabedisto

O Jorge Cocão

MEMORIAS DE TOMAR.jpg

 

Texto de Edmundo Gonçalves

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Confesso que nunca soube o apelido verdadeiro do senhor, ou sequer se era mesmo este o seu apelido. Era aferidor de pesos e medidas. Percorria a cidade e o concelho, visitando as mercearias e o comércio em geral, verificando a legalidade de instrumentos de peso e de medida, balanças, os próprios pesos, metros, recipientes para líquidos e sólidos, almudes e meios-almudes, alqueires e meios- alqueires, e mais um ror de utensílios que se usavam à época em mercearias, tabernas, cafés, lojas de tecidos, eu sei lá, que não era como hoje, que tudo já vem pesado e medido e já nada, praticamente, se vende sob peso ou medida. Bom, ainda se vende pão ao quilo na padaria Rosa e tecidos a metro no Cruz, em frente ao Tribunal.

O Jorge deslocava-se num “calhambeque”. Não tenho memória da marca, mas era um automóvel dos anos trinta, p’raí, uma verdadeira “Dona Elvira”, que se fazia anunciar com a sua buzina rouca característica. De um carácter afável, andava sempre bem disposto. Tinha loja de velharias aberta na Rua de S. João, onde foi depois a casa “Migalhas – Velharias” do Américo “Migalhas”, outra figura da minha infância ( a sua filha, que continuou o ofício de latoaria, andará pela minha idade ). Espero que a memória me não atraiçoe quanto à localização… Voltando ao Jorge e ao seu sempre ar despreocupado e alegre. Consta que era um fervoroso opositor ao regime, andando por via disso sempre debaixo do olho da PIDE, a polícia política.

Contava-se uma estória de que terá sido protagonista, que me chegou nesta versão e que não tenho como confirmar: Em determinado momento, aí pelo final dos anos quarenta, início de cinquenta, num levantamento popular por si encabeçado, terá sido decidido invadir as instalações da Legião Portuguesa e sequestrar os elementos que lá estivessem. O grupo ter-se-á dirigido à sede da organização com o Jorge à frente das “tropas”. O seu entusiasmo seria tal que nem olhava para trás. Se o tivesse feito, teria verificado que o seu entusiasmo não era tão contagiante como imaginaria e os comparsas foram retardando o passo de tal forma que quando bateu com todo o vigor à porta da sede distrital da organização de defesa civil do Estado Novo e depois de lá de dentro lhe perguntarem “Quem é?” ter respondido com toda a convicção revolucionária “É o povo e a revolução e o chefe é o Jorge Cocão!” tendo nesse momento olhado para trás para sentir o apoio dos correligionários. Constatou que estava sozinho à porta da milícia; Quando um dos legionários abriu a porta, o seu sentido de oportunidade ter-lhe-á feito sair da boca a frase que mais ninguém esperaria. Talvez nem o próprio: “Viva a Guarda Republicana!”

Foi bater com os costados na prisão, obviamente. A bem da Nação.

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