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Se a inês sabe disto

O dilema do polícia

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- Disparo ou não disparo? Eis a questão.

Tão atacado por todos os lados porque não prende a ladroagem e ele próprio frustrado porque quando o faz, o pilantra atravessa a porta de saída mais depressa do que ele, o polícia vive um enorme dilema.

É verdade que lhe passaram para a mão uma arma, contudo ao contrário do que possa pensar-se, não lhe passaram licença para matar.

No entanto ele, o polícia, por vezes, mata. Estou em crer que nunca propositadamente, mas mata. E as mais das vezes corre-lhe mal o "atrevimento". Estou a lembrar-me do polícia que em Loures, na tentativa de fazer parar um condutor que assaltara uma vacaria, por ironia do destino acabou por matar uma criança de 13 anos, filho do assaltante que ele transportava na traseira da Ford Transit de caixa fechada, portanto impossibilitando a visibilidade. O polícia foi condenado, após recursos, a quatro anos de pena suspensa e a pagar 50 mil Euros de indemnização ao assaltante. O polícia diz ainda hoje que teria agido da mesma forma e que o fez cumprindo o regulamento; A mim não me custa acreditar, porque a melhor forma de parar um veículo é atirando para as rodas, mas sabe-se que o apronto de tiro é raro e também se sabe que se o polícia quiser aprimorar a sua pontaria e frieza no acto de puxar o gatilho, terá que pagar as balas do seu bolso.

Ontem, mais um polícia matou. Ao que consta, um grupo de seis polícias em perseguição de uma viatura com assaltantes a uma caixa multibanco em Almada, acabou por confundir os carros e mandou parar outro que não o dos assaltantes. O condutor desta viatura não terá obedecido à ordem de paragem, por duas vezes, tentando, na versão dos polícias, atropelar os agentes da autoridade. Foram efectuados disparos e deles resultou a morte no local da passageira que ocupava o lugar do morto (literalmente). E agora o polícia (que se há-de saber, após peritagem quem foi) que matou, lá estará a braços com um julgamento e será provavelmente condenado a prisão e a indemnizar os familiares da vítima.

O dilema é mesmo aquele com que comecei este texto: "Disparo, ou não disparo?" Ao que se sabe o condutor da viatura era, à luz da Lei, um criminoso, já que não estava legalmente habilitado para conduzir, não tinha carta de condução, o que constitui crime punível com pena de prisão até dois anos. Nada justifica uma morte e uma morte não justifica outras acções. Pode especular-se que o condutor é um potencial assassino, porque a falta de habilitação o poderia levar a provocar acidentes com vítimas mortais, mas ninguém pode ser condenado por antecipação, ainda que o simples facto de conduzir sem carta o torne, de imediato, criminoso.

Alguns dos leitores lembrar-se-ão do polícia "Geléia", o boneco que Jô Soares magistralmente interpretava, um polícia medroso, incapaz, inútil. A pergunta que vos deixo é simples: Queremos o polícia "Geléia", ou queremos o polícia que actua e que cumprindo os regulamentos tem uma retaguarda, onde incluo os tribunais, que o apoia incondicionalmente?

De algumas situações de abuso de autoridade, que também as há e são condenáveis, até podemos dizer, com alguma condescendência, que "ninguém os manda estar ali, estavam mesmo a pedi-las", mas quando alguém assalta, rouba, furta, bate, mata, tem que saber que está sujeito a que, no limite, pode ter um polícia que não é o boneco do Jô e que cumprindo o regulamento, o pode matar. Hoje por hoje, para essa gente, essa é uma possibilidade ínfima e que joga a seu favor.