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O China

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Texto de Edmundo Gonçalves

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As revoluções, sejam elas de que sentido forem, deixam sempre os seus “rabos”. Eu fui morar para a cidade aos sete anos, para a rua da Sinagoga, ali mesmo no centro próximo da Praça da República. Todas as casas ali, bastante antigas, têm quintais para as traseiras e a maior parte deles não têm separação entre si. Traseiras com traseiras, se me entendem.

Algumas casas tinham até uma entrada secundária por ali. Era o caso da casa da Lena da taberna. A taberna tinha porta para a Rua Direita (a mais torta, como em quase todo o lado), e nas traseiras era meia cave. A Lena morava por cima e tinha ainda um pequeno apartamento ao lado, que alugou a um chinês até o pobre bater as botas. Este chinês era um enigma para todos nós, os miúdos do Bairro das Flores, como era conhecido o aglomerado de artérias entre a rua do hospital e a Várzea Pequena, pelas flores que todas as casas tinham à porta. Vendia bugigangas, chinesices, traquitanas, numa banca no mercado municipal e um pouco por toda a cidade. Havia outro chinês, que se dizia ser irmão, que lhe fazia concorrência, mas provavelmente não seria verdade, já que não habitavam juntos. Ninguém percebia como conseguiam sobreviver a vender quinquilharia, mas o que é certo é que lá iam fazendo pela vida.

Os putos são cruéis em toda a parte do Mundo e ali não era diferente. O homem não se metia com ninguém, fazia a sua vidinha, mas sempre que passava de casa pela saída do quintal, a malta que jogava à bola na rua de calçada de seixo, não perdia oportunidade de se meter com ele. “China”, “plim, plim, plim” “chinoca” e um gesto de meter o nariz entre os dedos médio e indicador que o deixava possesso, vá-se lá saber porquê, e que o punha a correr atrás de nós como um desalmado. Pior que o china, só o polícia que nos aplicava, quando conseguia, a bendita multa de cinquenta mil e quinhentos (50,50$ - cinquenta escudos e cinquenta centavos, uma fortuna naquele tempo, hoje cerca de 25 cêntimos de Euro).

O China (e o “irmão”) vieram da China, essa era uma certeza insofismável que nós tínhamos. Desconhecíamos de todo é que tinha havido uma revolução na China e sequer que havia duas Chinas, de modo que ainda hoje não sei se os chinas fugiram à revolução de Mao, se a Chiang Kay-shek, da China nacionalista (República da China, Taiwan-Formosa). O que é quase certo é que alguma subvenção lhes viria daquelas bandas, já que por algumas vezes em que estava bem disposto, permitiu que entrássemos em sua casa e se via correspondência em caracteres chineses. Claro que aquilo para nós era chinês, mas era divertido vê-lo escrever de cima para baixo e da direita para a esquerda a uma velocidade que para nós era estonteante, aqueles gatafunhos esquisitos. A integração daquelas alminhas foi tão precária que sabiam apenas meia dúzia de palavras em português ao fim de tantos anos de presença em Portugal e o seu relacionamento social era praticamente nulo.

Há poucos anos, quando ouvi e comecei a ver/ler coisas publicadas relacionadas com vinoterapia, veio-me à memória a conversa da Lena da tasca a dizer que o China era maluco. Década de sessenta do século vinte, muitos anos antes de alguém por aqui se lembrar que o vinho pode ser benéfico de outras formas que não apenas a ingestão, não me saem da cabeça as palavras da Lena: “Não querem lá ver o China, toma banho com vinho, é maluco.” Ela, que o apreciava tanto, ao vinho, achava um desperdício. Claro! 

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PATRÍCIA TEIXEIRA

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