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Se a inês sabe disto

O Bicagas

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Texto de Edmundo Gonçalves

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O meu pai foi taxista. Melhor, foi industrial de táxi, que é muito mais pomposo. Hoje está reformado, vendeu a sua “indústria”. Esse será assunto para uma outra crónica, mas já vão entender porque aparece aqui o meu pai nesta história. Adiante. O Bicagas, de seu nome Álvaro, era cauteleiro, vendia cautelas, lotaria, aquela que hoje é denominada de “clássica”, que a par do totobola, eram os dois jogos sociais que existiam. Vestia impecavelmente, rematando o conjunto sempre com um lenço ao pescoço no lugar da gravata; Creio que visualizam a coisa. Apregoava “há horas de sorte! Ólhó trintinove, andámanhã à roda”, muitas vezes na estação de caminho-de-ferro e na baixa da cidade, parando muitas vezes no Café Paraíso, ali na Corredoura, donde era quase sempre corrido pelo engraxador que ali fazia ponto e que também vendia jogo, e que juro que quando me lembrar do nome ou alcunha, lhes venho aqui comunicar. Era um tipo baixinho, velhote, bastante sisudo e educado, fazia o seu trabalho e não se metia com ninguém, mas que diabo, ali era o seu posto de trabalho e o Bicagas ia ali meter-se? Claro que a razão era o poder de compra dos clientes do Paraíso, à época frequentado pela nata da sociedade tomarense. O Bicagas foi rico duas vezes. Isso mesmo, não sei por que carga de água, mas por duas vezes saiu-lhe “a grande”. Ou porque ficou com as cautelas propositadamente, ou porque as não conseguiu vender em tempo e não teve oportunidade de as entregar antes da extracção dos números, o que é certo é que por duas vezes num curto espaço de tempo, foi rico. Bom, o Bicagas vestia bem, mas a sua diferença com o Cavalo de Pau terminava por aí. É certo que a mulher também não ajudava grande coisa, cozendo-se mais ou menos com as mesmas linhas que o marido. O Bicagas ficou rico, pela primeira vez, não faço ideia da quantia que ganhou, mas à época seria o equivalente ao valor de um duodécimo de hoje, como diria o outro, é irem ver ao site da Santa Casa… O Bicagas tinha, como toda a gente, ambições e desejos que não conseguia atingir se não tivesse sido bafejado pela sorte e entendeu que já que a sorte lhe bateu à porta, era de aproveitar e a partir daí foi viver à grande. Não direi à francesa, porque provavelmente nenhuma francesa derreteria tanto dinheiro em tão pouco tempo. Almoçar e jantar em restaurantes, grandes fatiotas para ambos e tudo o mais que possam imaginar. Aqui é que entra o meu pai. O Bicagas quis fazer uma viagem de avião com a esposa, é normal. Mas digam-me lá, se tivessem possibilidade de fazer um baptismo de voo onde iam? Provavelmente ao Brasil, às Caraíbas, às Canárias, que na época estava na moda, ou mesmo à Madeira ou aos Açores, que nestes destinos mesmo havendo o castelhano para decifrar a malta entende-se. Não senhor, o Bicagas passou pela praça de táxis e disse ao meu pai: “Zé António, amanhã às seis da manhã estás em minha casa p’a levares a gente p’ó Porto”. E no outro dia lá estava o Zé António para transportar o casalinho para a Invicta. Paragem na Mealhada para o leitãozinho da ordem e chegada a Pedras Rubras. O Bicagas e a esposa iam fazer o seu baptismo num voo para Lisboa! “Zé António, agora esperas p’a gente em Lisboa, mas só amanhã, c’a gente vai dar aqui uma volta p’o Porto e vamos amanhã de manhã. Toma lá dinheiro p’ó hotel”. E lá veio o meu pai, sozinho, do Porto para Lisboa. Claro que dormiu em Tomar, em casa e no outro dia partiu para trazer Bicagas e sua esposa de volta a casa. Num ano fizeram milhares de quilómetros no táxi do meu pai. Percorreram o país de lés a lés e algumas cidades espanholas da raia, até que o dinheiro se acabou. A segunda parte da história do Bicagas fica para outra crónica, mas digo-vos já que teve um final triste e vão perceber a referência ao Cavalo de Pau, lá em cima…

Patrícia Teixeira

Edmundo Gonçalves

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