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Se a inês sabe disto

Juventude. Um conceito?

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Texto de Edmundo Gonçalves

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O meu avô nasceu em 1915.  Aos 50 anos era um homem velho. A vida diária no campo, nos primeiros tempos de sol a sol, sem protecção, tisnou-lhe a pele e o manejo da enxada e de outros utensílios, deram-lhe cabo do físico. A partir de determinada altura, teria eu os meus 15 anos e ele 60 (como vêm, para os parâmetros actuais foi avô bastante novo, ainda trabalhava os seus bocados de terra e também por conta de outros), eu passei a ser o seu barbeiro oficial. Ao Domingo de manhã, todas as semanas, no alpendre da casa onde hoje vivem os meus pais, entretanto reformada e remodelada, sentavam-se ele, o Chora, o Aníbal e o Charola, todos “rapazitos” da sua idade, cada um no seu “mocho” e aquilo funcionava como uma cadeia de montagem: Uma bacia de esmalte com água, o creme de barbear Gibbs e a gillette. Primeiro ensaboava-lhes a cara a todos, era um pequeno truque, enquanto tinham a cara branca como pais Natal não falavam muito… e não iam à garrafinha do tinto. De seguida começava o corte. O que me causava algum incómodo, era o cuidado que tinha que ter com a gillette, já que corria sempre o risco, que por vezes acontecia, de trazer algum pedaço de pele junto com os pelos da barba. Esta era a consequência da falta de cuidado e a prova de que aqueles homens estavam velhos fisicamente. Era a hora de aplicar o creme 444, que amainava o ardor e ao mesmo tempo ajudava a cicatrização.

Era uma manhã muito gratificante. Aprendi imenso com aqueles “velhos” de quem gostava verdadeiramente. O meu avô porque era o meu avô e não é necessária mais nenhuma razão e os outros porque eram uns velhos porreiros, sempre bem dispostos e sempre com um dichote na ponta da língua, o que fazia deles uns velhos bastante jovens. E faziam questão de pagar pelo serviço! Não tenho memória de alguma vez ter cobrado a barba e o aparar de cabelo (o corte era para profissionais que eu a isso não me atrevia), eu é que deveria pagar pelo tempo que eles me dispensavam e pelo privilégio de usufruir da sua sabedoria, do seu saber empírico, mas também de experiência feito. Já partiram todos. O meu avô Padica poucos dias antes do nascimento do meu filho mais novo, em 1988, próximo do Natal, foi o primeiro. Iriam gostar um do outro, aposto!

Eu hoje tenho quase a mesma idade que eles tinham naquele tempo. Com outras vivências, outro conhecimento, outra forma de vida, mais cuidados de saúde, tenho um aspecto jovem, se comparado com eles. Sinal dos tempos, em que a esperança média de vida aumentou significativamente e a ninguém passa pela cabeça fazer reparo pelos 40 anos de quem quer que seja. Tenho é algumas dúvidas se serão, em espírito, tão jovens como o Padica, o Aníbal, o Chora e o Charola…