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Se a inês sabe disto

Fogo que arde e se vê

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Texto de Edmundo Gonçalves

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Há uns anos fui à Alemanha. Na época o país de Willy Brandt e da social-democracia e já um dos mais industrializados da Europa e do Mundo. Em conversa com o meu primo, que ainda por lá está e já é alemão por opção, pelo menos no que à forma de ver o Mundo e a vida diz respeito, lembro-me de comentar sobre um enorme campo de trigo a perder de vista perto da sua casa em Hameln, “é pá, o dono disto deve ser um “ganda” latifundiário, nem se vê o fim do campo”.

O Fernando não percebeu o meu comentário e obrigou-me a repetir que aquilo devia ser dum “gajo” cheio da “bagalhoça”, com um latifúndio assim tão grande. Ele riu-se quando percebeu e respondeu com o ar mais natural do Mundo que aquilo seria provavelmente de mais de cem ou duzentos proprietários e que até as máquinas e alfaias que se viam eram propriedade da cooperativa. Confesso que a minha alma ficou parva. Na Alemanha, um país capitalista, preponderante na política europeia, os donos de pequenas parcelas de terreno entendiam-se e juntavam esforços para fazer render a terra, a puxarem todos para o mesmo lado. 

Dei por mim a pensar em voz alta que, na altura, se no centro e norte de Portugal alguém propusesse tal solução para o estrangulado (ainda hoje e cada vez mais) minifúndio rural, seria apelidado de perigoso comunista e acusado de querer roubar as terras aos seus legítimos proprietários. Vem isto a propósito do incêndio trágico de Pedrógão, que vitimou por agora 64 pessoas. Tendo durante a minha vida profissional estado ligado à prevenção de fogos florestais e ao primeiro combate a incêndios, coordenando equipes de sapadores florestais, aprendi em formação adequada que o grande inimigo da floresta é o péssimo ordenamento da mesma. As várias tentativas, umas mais outras menos meritórias, feitas por alguns governantes verdadeiramente preocupados com o assunto, tem esbarrado sempre na oposição dos pequenos proprietários, que resistem à agregação das suas pequenas parcelas de “meia-dúzia” de pinheiros ou eucaliptos, com o receio de que lhe roubem a sua propriedade.

Ainda ontem o secretário de estado da agricultura, que está a tentar implementar medidas que me parecem válidas e com pernas para andar, tratou com pinças este assunto num programa de televisão. Não sendo catedrático da matéria, mas conhecendo a orografia da maior parte da nossa floresta, só com medidas drásticas de regularização do coberto se poderá começar a pensar em prevenção. É certo que a população proprietária dessas pequenas parcelas está empobrecida e não tem condições monetárias para proceder à necessária limpeza dos solos, mas este incêndio em particular, em fogo de copa em eucaliptos, despreza por completo o solo e progride a uma velocidade estonteante.

Correndo o risco de ser apelidado de perigoso e gatuno, eu sugeria a estas pessoas que olhassem para o exemplo alemão de que falei acima. E se elas não têm acesso a ele, que lho mostrem, em sessões lembrando as de alfabetização de 1974/75.

Para bem da floresta, mas principalmente deles próprios.

Patrícia Teixeira

Edmundo Gonçalves

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