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Se a inês sabe disto

Está o baile armado

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Texto de Edmundo Gonçalves

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Está o baile armado

Ou a gerinçonça, em inglatónico

Usado por Dinis Machado na sua obra maior, O que diz Molero, para a descrição de uma zaragata de marinheiros americanos no Bairro Alto, “ o maior fogo-de-artifício de que há memória em matéria de pancadaria ”.  (…) uma coisa inglatónica”, define algo de grandioso no cinema da época, anos 40 do século XX, onde pontificavam bandidos da pior espécie e polícias de dedo algo nervoso.

Aqui o termo tem a ver com o país e o impasse a que se chegou depois das eleições que o partido conservador, no poder, provocou para consolidar uma maioria que lhe desse força para negociar uma melhor solução, na sua perspectiva, para a negociação da saída do Reino Unido da União Europeia. Como diz o povo, saiu-lhe o cão no carreiro e aquilo que se antevia para Theresa May uma jornada de glória e consagração, redundou num enorme bico-de-obra e numa bota muito difícil de descalçar.

Com a perda de doze deputados e o crescimento exponencial dos trabalhistas, não se antevê grande futuro político para a líder dos conservadores. Resta-lhe formar um governo de minoria, mas saberá que terá os trabalhistas a roer-lhe os calcanhares, ou procurar um acordo com os unionistas irlandeses do DUP, que segurarão, asseguram, a coligação enquanto Corbyn for o líder trabalhista.

Corbyn que já reclamou vitória. Desconheço o número de votos expressos, já que o sistema eleitoral em Inglaterra apenas faz eleger o mais votado de cada círculo, sendo os votos dos restantes literalmente mandados para o lixo (em Portugal o sistema proporcional permite a eleição de vários deputados por cada círculo), mas a correlação de forças prende-se por um cabelo: Com o acordo com os irlandeses, Theresa May tem apenas mais dois deputados para lhe garantir um desempate. E é aqui que entra a geringonça! Partindo do pressuposto que a raínha concederá a May licença para formar governo, terá este acordo força suficiente para se aguentar, ou pelo contrário será sol de pouca dura e obrigará à constituição de maiorias alternativas? Os trabalhistas já demonstraram vontade de assumir o governo e contam para isso com os escoceses, os verdes, os galeses e os liberais (que não estarão muito pelos ajustes) para formar uma maioria que será tão periclitante como a dos conservadores. Resta saber se a inédita solução portuguesa será viável na tão fleumática Inglaterra.

Em resumo, está aquilo a que se costuma designar como um baile armado. Esperemos que não descambe tudo numa cena “inglatónica”.

Patrícia Teixeira

Edmundo Gonçalves

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