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Se a inês sabe disto

Bicagas, o final

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Texto de Edmundo Gonçalves

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(podem ler a primeira parte da crónica aqui)

Álvaro ficou de novo nas lonas e teve que regressar às origens. Mas dessa vez, ao negócio de venda de lotaria, juntou o de engraxador. Montou banca no Restauração, o café frequentado pelos professores do Colégio Nun’Álvares, que ficava mesmo ali ao pé, na parte nova da cidade. Por curiosidade, na mesma praça havia o Académico, frequentado pelos estudantes. Ambos ainda hoje têm porta aberta.

Mais uma vez, um ano ou dois depois da tragédia da bancarrota, Álvaro foi bafejado pela sorte. Outra cautela premiada, permitiu-lhe de novo voltar ao nível de vida a que estava habituado. Touradas, restaurantes, táxi para aqui e para ali, uma chusma de gajos à volta sempre, a comer e a beber à sua conta e as fatiotas, último grito, compradas sempre no Noel, que era quem ditava a moda em Tomar. Bicagas era o príncipe Rainier de Tomar! Passou até a usar chapéu, claro no Verão, mais escuro no Inverno. Uma figura! Simpática, sempre. Como costuma dizer-se, por detrás de um (grande) homem, está sempre uma (grande) mulher (ou vice-versa, não venham já com machismos, fáxavor!). Aqui o homem era grande apenas no tamanho e ela nem sequer. De modo que se um deles fosse orientado, a coisa poderia ter-se composto e teriam uma vidinha sem sobressaltos. Nada disso, à velocidade com que veio, esta nova batelada de dinheiro desapareceu “enquanto o diabo esfregava um olho”.

Ora, lá voltou o Álvaro de novo às cautelas. No entanto estes altos e baixos na sua vida trouxeram-lhe uma nova realidade, provavelmente consequência do resultado de não ter sabido administrar o que de bom lhe aconteceu, o alcoolismo. Depois dessa segunda falência, Bicagas passou a beber e o seu aspecto foi-se deteriorando a olhos vistos, até que num desafortunado dia, vindo de comboio do Entroncamento onde foi vender jogo, não se sabe bem como, à chegada a Tomar caiu e a composição ceifou-lhe uma perna.

Com mobilidade reduzida, em cadeira de rodas, era-lhe difícil deslocar-se e exercer a sua profissão. Foi então que teve o rasgo da sua vida: Procurou o Cavalo de Pau e deu-lhe sociedade nas cautelas. Ele fixou ponto de venda novamente no Restauração e o Manel fazia a volta pela cidade, sendo que fazia uma perninha de engraxador quando regressava à base. A sociedade foi de tal modo profícua e o entendimento entre os sócios era tal que, um dia, quando deu por “ela”, Bicagas tinha começado também a dividir a mulher com o Cavalo de Pau… O álcool foi-lhe dando cabo da saúde e não durou muito.  Bicagas é a prova provada de que o dinheiro traz felicidade. Mas também prova que sem cabecinha, essa felicidade pode ser efémera e acabar em tragédia.

Mas aposto convosco que enquanto durou, enquanto gastou à tripa forra, Bicagas foi o homem mais feliz à face da Terra. E se pensarmos bem, o graveto não vai p’rá cova co’a gente…

 

 

Patrícia Teixeira

Edmundo Gonçalves

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