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Bairro das Flores - Memórias de Tomar

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 Texto de Edmundo Gonçalves

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Já aqui falei dele. Era formado pelos quarteirões que vão da Av.ª Cândido Madureira à Várzea Pequena, com a Praça da República pelo meio. Apropriadamente tinha esse nome, pelas flores que quase todas as casas ostentavam à porta e algumas em toda a frontaria. Hoje ainda algumas, poucas, mantêm esse passado vivo.

Curiosamente e havendo a grande Praça a meio, a divisória do “bairro” não era no sentido sul/norte, mas nascente poente, como se houvesse uma fronteira imaginária nas Rua Direita, a da Várzea Grande e a da Várzea Pequena.

A ligação da rapaziada estendia-se mais no sentido sul/norte, abarcando toda a parte “de cima” ou toda a parte “de baixo” do “bairro”. E assim de repente vêm-me à memória o Paulo, o filho da Lena e um futebolista excelente (um Pedro Barbosa, em bom), o Quim do Vale, O Marito, grande Guarda-redes do União, prematuramente perdido para o futebol em consequência de um estúpido acidente de automóvel numa deslocação para assistir a uma final europeia em Lisboa e onde perdeu a vida outra jovem promessa do clube, Veríssimo; o Zé Manel, Pícaro de alcunha, irmão do Marito e ainda a Pícara, como calcularão irmã de ambos; o Tininho, também já falecido e um personagem, que fazia questão de nos acompanhar nas imperiais no Noite e Sol com iogurte, só porque sim. E o Zé Martins, filho de outra figura ímpar da cidade, o Manel Martins, um homem da cultura e do teatro e um apreciador de belos néctares, com quem privei nalguns locais e onde o lanche era pretexto para discussão sobre cultura e política. O Camilo e o Paulinho estufador, da minha rua ambos e ainda o Zé da farmácia e o Fernando Zé dos retratos, de quem já falei e que foi meu parceiro, os Pimentas da farmácia, um pouco mais velhos, mas o Tó alinhava sempre nos “copos”. Lá mais para a ponta, acho que na Gil de Avô, moravam os Vigário, cujo pai tinha a Casa (Adega?) dos Passarinhos e inventou aquela bebida extraordinária chamada “Mouchão”. Um deles, o mais novo, Belmiro, também jogador no União. E os mais velhos: O Zé Júlio da ourivesaria Puga, que hoje tem uma loja lá mais perto do cine-teatro; o “vizinho” Abel, marceneiro de eleição e uma pessoa extraordinária; a Casa das Ratas e o Sr. Matreno, o Cândido do restaurante que é hoje o Piri-Piri e que fundou a Pic-Nic; a latoaria junto ao cinema e que hoje é uma casa de jornais e revistas; o Bar Sem Nome, que era a porta de entrada no bairro, em frente ao hospital da Misericórdia e é hoje o restaurante O Infante; a oficina de motorizadas do Fernando Mendes, activo director do União de Tomar em várias ocasiões, situada no que foi talvez o primeiro hospital da cidade; a Nabantina, a colectividade maior do bairro, com uma escola e banda de música notáveis; o Migalhas e a sua loja de velharias e latoaria; o supermercado do Neto; a casa do Chico, que ainda está em pleno funcionamento; o Joaquim Ferreira, barbeiro e cabeleireiro que acumulava com a portaria do cine-teatro e foi o “responsável” pela minha doidice por cinema, porque me deixava entrar, já quando a sala estava na penumbra, para assistir a filmes vedados para a minha idade, mas que me rasgaram os olhos e a mente; a loja da Singer; a Papelaria Gouveia, que (acho que) resiste; a espingardaria em frente ao cine-teatro e que foi depois uma loja de perfumes e que hoje está emparedada e decrépita; a ourivesaria Puga, que ainda lá está, embora apenas num dos lados da rua; a Gráfica, uma livraria e papelaria extraordinária, que tinha aquele cheiro “a livros” maravilhoso; a loja de ferragens do António Domingos, que deu lugar a um pronto-a-vestir; a Sacor, que é hoje um snack-Bar; a Reinolar, que resiste aos hipers; a Loja dos Rapazes…

Vai longa a lista, mas estão referenciados um número ínfimo de pessoas que fizeram parte da minha infância e juventude e de estabelecimentos dos mais variados ramos que eram parte importante do tecido empresarial da cidade e que davam emprego a imensa gente. Aquilo a que outrora foi chamado de judiaria pela presença discreta, porém imponente da sinagoga, um monumento maior da cultura hebraica e que talvez tenha contribuído para a singularidade daquele perímetro, apesar da grandiosidade da igreja de S. João Baptista, que domina a Praça da República. 

Provavelmente quem nasceu ou viveu noutras partes da cidade dirá o mesmo que eu e terá a mesma memória da importância do seu local, mas permitam-me a imodéstia, até pela importância dada pela festa maior da cidade e do concelho, a Festa dos Tabuleiros, com a decoração das ruas (hoje estendida a outras partes da cidade e muito bem), deu a este auto-designado Bairro das Flores, um carisma muito próprio e um sentimento ímpar nos seus habitantes. E nós, os mais novos na altura, sentíamos aquilo com convicção. Eu diria, até, com devoção.