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Se a inês sabe disto

Auto e pára o baile

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Texto de Emundo Gonçalves

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Os trabalhadores da Autoeuropa estão hoje em greve. Isto é notícia, é o homem que mordeu o cão, o santo graal de qualquer jornal ou jornalista, já que desde a sua existência, há cerca de vinte e seis anos, excepto para greves ditas nacionais, apenas houve uma paralisação naquela empresa, apontada como um caso de sucesso na relação empregador/empregado.

Ao que consta, as razões dos trabalhadores prendem-se com o alargamento do horário de trabalho, obrigando à prestação de trabalho durante três em cada quatro Sábados, com uma compensação monetária significativamente inferior ao que aufeririam se esse trabalho fosse feito de forma extraordinária. Eu cá estou à vontade para falar nisto, visto que de 1980 a 1990 trabalhei numa empresa que praticava um horário com trabalho ao Sábado. Havia no entanto uma pequena nuance, havia descanso suplementar às Segundas e os Sábados tinham um acréscimo de 50% no vencimento. Este horário vigorava durante um mês, sendo depois substituído por um dito normal, de 2.ª a Sexta-feira (havia mais dois horários, um totalmente nocturno e outro semi, o que permitia que a empresa, um grande estaleiro naval, funcionasse 24 horas sem interrupção). 

Aqui o que está em causa, segundo os trabalhadores, não é tanto a (pequena) compensação financeira, mas o facto de apenas terem um fim de semana completo de quatro em quatro semanas, o que se reflectirá na sua qualidade de vida e das suas famílias, já que a sua vida está organizada em função da situação actual. Nestas grandes empresas, onde existem comissões de trabalhadores fortes, é normal os sindicatos terem um papel aparentemente secundário, deixando o protagonismo da representação  dos trabalhadores à sua comissão. Foi o que aconteceu durante todos estes anos, em que aparentemente se viveu uma paz laboral que permitiu à empresa e aos trabalhadores viverem sem grandes sobressaltos. Há no entanto uma máxima que sempre defendi, eu que também fui dirigente sindical e membro de comissões de trabalhadores e que é a de que a ocupação dos lugares não é eterna, sob pena de o foco do nosso trabalho, a defesa intransigente de quem representamos, se ir perdendo no esfumar do tempo. A Autoeuropa, sendo uma empresa com berço alemão, privilegia o relacionamento leal com os representantes dos trabalhadores. É assim na Alemanha, onde nas médias e grandes empresas, em regra há um elemento do sindicato do sector na administração, o sindicato é um parceiro, nunca um inimigo e creio que eles têm obtido resultados visíveis. Na Autoeuropa o relacionamento tem-se feito através da comissão de trabalhadores. Como disse é normal e já agora, legítimo. Legítimo no entanto é também os trabalhadores não estarem de acordo com as propostas da CT e segundo o que se lê nos jornais, esta terá feito um pré-acordo com a administração da empresa, que os trabalhadores consideraram lesivo dos seus interesses. E que fizeram os elementos da CT? Pois ao invés de se chegarem à frente e junto da administração darem conta do chumbo daquilo que tinham pré-acordado e quiçá até levar uma nova proposta para discussão, imagine-se, demitiram-se! Eu cá não sou de teorias da conspiração, mas aqueles senhores eram da CT só nas horas boas? Só para o tempinho do remanso? Quando foi preciso bater o pé fugiram? E agora, depois de se demitirem da sua obrigação e para a qual foram eleitos, estão todos enxofrados com os sindicatos por estes terem apenas dado voz aos interesses que os trabalhadores querem ver defendidos? Há um tal de Chora, que esteve 20 anos, 20! como coordenador da CT e que todos os jornais e televisões querem ouvir, que se reformou no início deste ano, que tem a opinião de que isto não passa de um assalto dos sindicatos à comissão de trabalhadores. O homem, que se reformou porque diz, já estava farto de “trabalhar”, certamente estará senil. Alguém lhe explique que aquilo está desocupado, os seus antigos companheiros fugiram com o rabo à seringa, deixaram os seus colegas ao “deus-dará”, a casa está devoluta, abandonaram o carro, defraudaram o voto que neles depositaram. Eu, não querendo ser duro, diria que se acomodaram, voltando à minha teoria de que as pessoas não são detentores dos cargos, estão nos cargos. Enquanto se justificar e a sua eficácia e o seu entusiasmo o permitirem. E não vale a pena Chorar, quando se abandona por opção.

Entretanto o bom senso prevaleceu e a administração e os sindicatos resolveram voltar a reunir para encontrar uma solução para o problema. Com responsabilidade de ambas as partes supõe-se. Sem Chor(a)os.

Patrícia Teixeira

Edmundo Gonçalves

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