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Se a inês sabe disto

A moda das independências?

 

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Proponho aos leitores um pequeno exercício, um "supônhamos" e que é simples: Imaginem os caros que uma qualquer região de Portugal ( a Madeira não vale! ) se lembra de exigir a independência. Como reagiriam?

Faço lembrar que logo após o 25 de Abril, houve um movimento independentista nos Açores e outro, menos consistente, no Algarve. Ambos faleceram de morte natural, por falta de apoio "interno". É também conhecida a vontade de alguns galegos juntarem  a Galiza ao norte de Portugal, mas aqui não no sentido da independência, mas mais da integração desta região espanhola em Portugal.

Vem isto a propósito de mais um referendo num país da UE, ontem. Na Itália, as duas regiões mais ricas, a Lombardia e Veneto, votaram em referendo uma maior autonomia em relação a Roma. Mais de 95% dos 11 milhões que foram às urnas votaram "sim". Embora não vinculativo, o resultado da consulta foi considerado, de acordo com a constituição italiana, o que, tendo em atenção o peso destas duas regiões nas contas do país, faz antever um caminho que, atentas as pretensões da "Liga Norte", o partido dominante na Lombardia e Veneto, será de confronto directo, ainda que, segundo o partido de extrema-direita, a intenção não seja a independência. É ver a pergunta que foi feita aos lombardos e aos venezianos: "Quer que uma parte relevante dos (xis) biliões de Euros em impostos lombardos/venezianos fique na região, para ajudar quem precisa e construir (hospitais, etc.)?" O próprio presidente da câmara de Milão, do partido do governo, apoiou e indicou o voto no sim. Curiosamente o governo italiano propôs conversações para evitar o plebiscito, ao contrário do governo espanhol, que descartou esta possibilidade em relação à Catalunha.

Sim, são situações bastante diferentes, uma exige a autonomia que a Catalunha já detém, outra a independência, mas se esta autonomia for conseguida, haverá alguma dúvida de qual será a próxima pergunta num hipotético referendo?

Voltando ao caso português, os desejos de independência (FLA nos Açores e MIA no Algarve) morreram porque estavam à nascença condenados a isso, por falta daquilo que tanto a Catalunha, como a Lombardia e Veneto atiram à cara dos seus governos: Dinheiro! As três regiões, são dentro dos seus países as mais ricas e as que mais contribuem para os orçamentos dos respectivos estados, o que manifestamente não acontece(ia) com os Açores e o Algarve.

Estando consciente das implicações que um terramoto como a independência da Catalunha e mais tarde da Lombardia e Veneto eventualmente, trariam à Europa Unida ( e outros que porventura apareçam se estes conseguirem os seus intentos, como os bascos e os corsos, que são quem mais tem expressado essa intenção ), o que está aqui em causa, para além da integridade dos países como os conhecemos há mais de um século ( 1870 a Itália e a Espanha definitivamente em 1874 ) é o princípio da unidade e da solidariedade, para os defensores da integridade territorial. 

As fronteiras na Europa mantiveram-se estáveis mais de cem anos, com pequenas excepções, até à queda da União Soviética, que desencadeou o desejo nacionalista e determinou a unificação da Alemanha, por exemplo e a proliferação de pequenos estados nos Balcãs. Este desejo independentista, que se verifica também na Grã-Bretanha (a Escócia prepara-se para novo referendo pela independência e se o conseguir a Irlanda do Norte virá imediatamente atrás), revela sobretudo a falta de visão dos políticos contemporâneos, que têm governado numa perspectiva centralizadora, contraria a agregadora, em função mais dos interesses dos estados que das regiões e populações; O que tem prevalecido é o intento de formação de estados fortes (percebe-se, em regra a união faz a força) em detrimento da distribuição de riqueza pela população. Veja-se em Portugal o incumprimento sucessivo da Lei das Finanças Locais, que retem verbas essenciais para o funcionamento das autarquias, retirando-lhe autonomia essencial à prossecução do seu desígnio e frustrando os desejos das populações.

Tendo alguma simpatia para com estes movimentos, mais não seja porque reconheço aos povos a decisão soberana sobre os seus destinos, se em absurdo todos estes sentimentos independentistas vingarem, a convivência na Europa, que se rege por uma doutrina ultra-liberal e capitalista, convém ter sempre em mente, poderá ser complicada e perigosa. Não querendo ser alarmista, esta hipotética desagregação de países conduzirá a uma maior diversidade, é certo, mas pode ser o início de um período de enorme instabilidade política e social, comparável ao do final do séc. XVIII, início do XIX, em que a Europa viveu um clima de enorme instabilidade e guerras várias, com anexações de países, desagregações de impérios, quedas de monarquias, etc.

Qual o antídoto para esta eventual instabilidade? Só vejo um e que será mais ou menos uma espécie de pescadinha de rabo na boca e que é a integração na EU, que terá cada vez mais o rosto de um estado federal europeu. Ou seja, os novos países, a aparecerem, não morrerão do mal, morrerão da caramunha. Isto, claro está, se os povos europeus quiserem, mas parece que anda toda a gente a dormir.

 

Nota final: Lá em cima brinquei com a Madeira, porque parece que grande parte dos portugueses, digo parece porque não há nenhum dado científico que o prove, estaria disposto a dar a independência à Madeira, com o argumento de ser um sorvedouro de dinheiros públicos. Será, ou pelo menos foi, mas convém não esquecer o que a Madeira dá ao país, como por exemplo a extenção da ZEE por dezenas de milhares de milhas náuticas e o que isso constitui para a riqueza comum. Para além do desejo dos Madeirenses, que nunca questionaram a sua opção pela nacionalidade portuguesa.