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Se a inês sabe disto

A estação antes do paraíso

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Texto de Edmundo Gonçalves

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Depois de ter lido o texto da Patrícia e visto as fotos do excelente local de férias na neve, fiquei todo arrepiadinho. É que eu adoro neve, mas apenas se estiverem trinta ou mais graus de temperatura. Positivos, claro! E veio-me logo à memória um local a que designo por “estação antes do paraíso”, onde a neve é substituída por areia branquinha e o frio por uma temperatura por volta dos 30º e uma água que não andará muito longe dessa temperatura.

A “estação antes do paraíso” dá pelo nome de Jericoacoara, fica no Nordeste do Brasil, Ceará, a cerca de 300km a norte de Fortaleza, no município de Jijoca, perto do Maranhão já, e é tudo aquilo que vocês possam pensar e ainda mais um bocadinho. Já perceberam que é uma praia, mas é também um pouco mais que isso, se possível.

Situado numa reserva natural, a reserva natural de Jericoacoara, tem a particularidade de ser uma povoação onde não há luz eléctrica nas ruas, as ruas não serem pavimentadas, são de piso de areia, aliás só há areia por ali e onde se podem encontrar os mais diversos animais a passear nas ruas, desde galinhas caipiras a… vacas! O alojamento preferencial é em pousadas, pequenos estabelecimentos hoteleiros, uns com mais qualidade que outros, obviamente, mas o que se quer é uma cama boa, nestas circunstâncias.

Nós ficámos na pousada Maxitália. Muito boa. Tínhamos estado no ano anterior em Fortaleza e fizemos a “volta dos palermas”, um daqueles circuitos onde vai toda a gente, um comboio de autocarros. Visitas a praias maravilhosas,  Cumbucu, Canoa Quebrada, Areia Branca, Lagoínha… Lagoas de água límpida, comida excelente e as saídas à noite em Fortaleza, onde nos sentimos bastante seguros. Não faltou uma visita ao Mucuripe, a discoteca da moda, ao Pirata, ao Arre Égua, um restaurante/bar lindo, mas ficou-nos no ouvido o nome Jericoacoara e na volta a casa começámos as buscas. E ficámos doidos para conhecer. Falámos com uma ou duas pessoas que já tinham visitado e foi tiro e queda. No ano seguinte, voo Lisboa/Fortaleza e sete horas de autocarro até Jeri. 

A viagem não é incómoda, o autocarro é muito confortável, igual aos “nossos” de turismo, faz algumas paragens e tem uma para almoço no meio de nenhures, num restaurante de beira de estrada em serviço de self. Comidinha muito boa, por acaso. E cerveja, que é o que se pode beber por ali à vontade, é bastante diurética…

A viagem (que também pode ser feita de carro e é mais rápida e de jipe pela praia e mais cara) termina no município de Jijoca, onde depois se muda para um meio de transporte mais radical, um camião 4X4 tipo Dakar, adaptado ao transporte de passageiros.

A viagem inicia-se em Jijoca e até à praia de Preá, circula por “estradas” de terra batida, com o motorista, que parece ter saído de um episódio dos Gloriosos Malucos das Máquinas Voadoras, com pé em baixo e tendo como travão apenas a buzina, para afastar toda a bicharada, incluindo humanos. A paisagem, apesar dos imensos solavancos e saltos nos bancos de plástico, é de cortar a respiração e nem a água que vai saltando das rodas e que nos vai dando alguns banhos indesejados, retira o fascínio que se sente. Para quem nunca visitou, no Nordeste chove todos os dias, normalmente pela manhã depois do nascer do sol, que se dá por volta das 4.30 horas, depois vem o sol e se porventura apanharem  uma bela molha, não há problema, a roupa rapidamente seca no corpo…

Há uma paragem para largada de passageiros na praia de Preá, uma localidade com meia dúzia de casas e algumas barracas de artesanato e de pescadores. Daí a Jeri são 20km sem estrada, pela praia. Uma viagem daquelas para recordar para o resto da vida. O motorista, ou tem pouco juízo, ou aquilo terá mesmo que ser assim, mas o pé em baixo continua e o veículo segue em linha recta, ora seguindo pela areia, ora seguindo pela água, o que nos proporciona uns belos banhos. A viagem não termina sem que, no acesso a Jeri, o camião não tenha que subir uma enorme duna até encontrar finalmente um caminho que nos levará à povoação. Este foi um trabalho complicado, já que só à sexta tentativa e depois de recuar bastante dentro de água, o condutor conseguiu impulso suficiente para vencer a duna.

A chegada a Jeri é uma festa, com os empregados das pousadas procurando pelos seus clientes e o encontro e reencontro de amigos. Sim, há uma “fauna” que vive quase sempre ali, gente de todo o Mundo que ali foi uma vez e acabou por ficar. E depois levamos com Jericoacoara pelas trombas e ficamos de boca aberta e extasiados. A luz, o cheiro, a ambiência são duma envolvência que nos faz imediatamente sentir em paz. E depois, anda tudo muito devagar… Estão a ver as piadas sobre os alentejanos? Contem ainda mais devagarinho e conseguirão perceber. Imaginem um restaurante onde a ementa é “Carne” e “Peixe” e nada mais. Sentámo-nos e fomos atendidos pelo dono a quem perguntámos o que era a carne e o peixe, “vou vê”, respondeu e depois de voltar lembrámo-nos de perguntar por galinha caipira. “vê si tem” e foi ver. Havia: “Tem”. E estava deliciosa. Aliás os restaurantes servem comida excelente e bastante em conta e em quantidades “industriais” que mesmo que se diga que ser quer menos, a resposta é inevitavelmente “faix parrrtxi, sê pagou, tem qui vi”.

Bom, a prosa vai longa. Termino dizendo que aquilo é mesmo o paraíso que se apregoa, as fotos ajudam a perceber um pouco o que tento passar-vos, mas nada como googlarem e tentarem saber mais sobre o local. Olhem, nós estivemos mesmo mesmo a comprar um terreno que lá estava em venda, mas há cá tanta coisa que nos prende…

Apenas um aviso às mulheres se não perceberam ainda, os saltos podem ficar em casa.

Vão, se puderem.

 

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Patrícia Teixeira

Edmundo Gonçalves

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