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Se a inês sabe disto

Três mil Euros

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Texto de Edmundo Gonçalves

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Foi aprovada na AR legislação que proíbe pagamentos em dinheiro (notas, cash, pilim a sério) de valores superiores a 3 000,00€. Parece-me uma medida acertada, na tentativa de combate à fraude e em concreto à evasão fiscal, que isto de serem sempre os mesmos a pagar impostos, tem que acabar. A coisa dividida por todos, será muito mais suave e a malta não olhará para o chefe das finanças com olhar assassino, sempre que se cruzar com ele no café. Há países à séria onde isto é assim, acreditem! Onde as pessoas pagam “alegremente” os seus impostos, porque sabem que aquilo é mais ou menos equitativo, ninguém se esquiva ao pagamento e melhor, o valor da colecta é gasto de forma razoável e em prol da comunidade.

A propósito e a talhe de foice, uma pequena estória, um episódio que retrata na perfeição o que acabei de escrever: Nas minhas funções profissionais, precisei não há muito tempo da aquisição de um serviço de reparação de um forno crematório ( o assunto não á agradável, mas o exemplo é paradigmático ). O vendedor do dito forno seria o fornecedor do serviço, já que o contrato assim o determinava por o equipamento estar ainda no período de garantia. Foi aberto o procedimento corriqueiro, as coisas estavam a “andar”, veio um técnico de Inglaterra executar o serviço e após o trabalho executado a empresa enviou a factura ( como reparação de rotina só após verificação se saberá o seu custo, por razões óbvias – ninguém consegue entrar dentro de um forno crematório em funcionamento, salvo se estiver em estado de não sentir dor…). O caricato da coisa, é que quando recepcionou a factura, a divisão financeira seguindo o procedimento legal, pediu-me para contactar a empresa em Inglaterra para que nos enviasse declarações de inexistência de dívidas ao fisco e à segurança social, para que o contrato de prestação de serviços fosse celebrado e a factura pudesse ser liquidada. Ora eu, lá enviei um e-mail solicitando o que era exigido. Passaram-se duas ou três semanas e como não havia resposta, vai de “emailar” de novo.

A resposta chegou passados uns dias e era curiosa: “Caro Edmundo, não conseguimos em nenhum “office” as declarações que nos solicitou.” E mais uns considerandos que não vêm ao caso. Lá lhes respondi que sem isso não havia possibilidade de liquidação da factura e a resposta veio de forma taxativa “Edmundo, não passam essas declarações, porque aqui em Inglaterra não passa pela cabeça de nenhum empresário não ter as contas acertadas com o fisco e a segurança social!” Bom, a coisa acabou por resolver-se (de forma legal, atenção!), mas o exemplo serve para aquilo de que falei lá atrás, há países onde pagar impostos é uma coisa rotineira e encarada como uma obrigação para com a comunidade.

Voltando aos três mil Euros. Vocês acham que neste rectangulozinho à beira-mar a coisa vai ser cumprida? Será que não haverá já gente a pensar como poderá fraccionar os valores? Estaremos cá p’ra ver.

Gentil, ma non tropo

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Texto de Edmundo Gonçalves

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Um senhor de 87 anos, médico e cirurgião reputado, ex-bastonário da ordem até, proferiu numa entrevista a alarvidade de que a homossexualidade é um desvio de personalidade, ou seja, uma anomalia, uma doença portanto. Foi mais longe, ao afirmar que não promoveu pessoas que sabia serem homossexuais, deduz-se enquanto teve lugares de responsabilidade. Estando no seu direito de recusar o casamento e a adopção por homossexuais, bem como as barrigas de aluguer, questões contra as quais se manifestou frontalmente, já como académico eminente lhe fica mal defender situações que se sabe hoje nada terem a ver com nenhum mal-funcionamento do corpo ou da mente humanas. Demonstrar pena por estes homens e mulheres, porque têm uma opção sexual diferente da maioria e considerá-los doentes, está para um académico, pediatra, como para os que quiseram um dia queimar Galileu na fogueira, apenas porque a terra é redonda.

Sendo que aqueles tinham a ignorância religiosa por sua defesa, apesar de tudo. Que um qualquer tipo ignorante e com educação das barracas, trate os homossexuais como diferentes e até os abomine, eu no limite até percebo, foi a educação que infelizmente receberam. Que Gentil Martins, um homem esclarecido, uma referência no tratamento oncológico e pediátrico, um homem da ciência pense desta forma, leva-me a crer que há ainda muito caminho para que todos sejamos iguais.

O Zé das bananas

 

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Texto de Edmundo Gonçalves

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Foi meu professor de matemática no liceu. O pai negociava em bananas, morava ali perto do parque de campismo, perto da Horta do Barão, salvo erro, mas já perceberam que a minha memória às vezes me atraiçoa…

Era um personagem. Afável, sempre bem disposto, sabia ensinar de forma simples mas eficaz e sempre com uma estória para contar e uma analogia com qualquer situação que se deparasse no momento. Mudou-se para Tomar para ensinar devido a doença do pai, se a memória me não atraiçoa. Para nós, miúdos, era com alguma surpresa que ouvíamos um “setôr” falar com um total à vontade do seu pai, da sua actividade e mais, com muito orgulho. Os olhos luziam-lhe quando dizia “eu sou filho do Zé das bananas”. E quando algum de nós o questionava, porque no nosso imaginário um professor e ainda p’ra mais de matemática, tinha que ter raízes “aristocráticas”, se o pai tinha mesmo um armazém de bananas, ele respondia invariavelmente “ atão vocês não vêm pela minha barriga que eu só como bananas desde pequeno, o meu pai tem um armazém de bananas, o que é que querem?” E para mal dos seus pecados tinha que acumular com o ensino o armazém de bananas.

Não era difícil ouvi-lo também desabafar: “Isto é que é uma porra, agora tenho que tomar conta da chafarica. Qualquer dia deixo “mazé” o ensino e dedico-me às bananas, não consigo dar conta disto tudo. Vocês na imaginam a dor de cabeça c’aquilo dá, é pááááá…” Confesso que não tenho memória se terá cumprido a “ameaça”, mas que estava verdadeiramente determinado, disso não tenho a menor dúvida. Se souberem “apitem”, que gostaria de saber…

Uma memória muito agradável de um ser humano extraordinário.

Chapeux, também para ele.

Tramados pelo futebol

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Texto de Edmundo Gonçalves

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Três secretários de Estado do actual governo pediram a demissão ao primeiro-ministro, que aceitou. Temos portanto um rombo no governo do país, causado por uma bola. Ou pelo péssimo hábito de se aceitar que a mulher de César possa ser apenas séria, que não o tenha que parecer, também. Este hábito de as organizações oferecerem agrados a particulares com quem se relacionam profissional e institucionalmente está enraizado e serve por vezes até como patrocínio a diversas iniciativas, sendo considerado por vezes mecenato até, logo constituindo um factor para redução de impostos a pagar ao Estado no final do ano. Não foi este o caso do Euro 2016, mas não viria mal ao Mundo que a GALP tenha convidado um grupo de clientes e amigos da empresa, para ir a França assistir a uns jogos de futebol. Faz parte da política de relações públicas e marketing da empresa e é até legal.

De duvidosa moralidade será o convite a membros do governo e pior, que alguns deles tenham aceitado. Mais grave ainda, terá sido a situação do ex-secretário de Estado dos assuntos fiscais, Rocha Andrade, que até estava a ser eficaz no seu papel e a fazer um excelente trabalho, ter-se esquecido que há um diferendo judicial entre a GALP, que para os que andam distraídos, refutou o pagamento do imposto solidário extraordinário durante o período de intervenção da troika colocado às maiores empresas, colocando o Estado em tribunal. Já quanto aos dois outros membros do governo, embora a sua relação com a empresa não fosse tão problemática, não poderiam nunca deixar de ser solidários; Portanto aos três competia, se quisessem ir a França ver uns jogos de bola, comprar os bilhetes e as viagens.

Esta é a faceta portuguesa do “ninguém se deixa corromper por uma viagem”, do facilitismo, do porreirismo. Claro que ninguém se deixa corromper por uma viagem e por uma entrada num jogo de futebol, mas haverá sempre alguém um dia para lembrar, quando alguma posição de favorecimento ou até dúbia, na relação desse governante para com aquela empresa, for tomada, que talvez aquela viagem, ou aquele jantar, ou aquelas férias, ou…Voltamos, sempre, à mulher de César.

Nota 1: A mulher de César que, coitada, nem tem nome.

Nota 2: Faz hoje precisamente um ano que vencemos o caneco!

Os chefes e os índios

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Texto de Edmundo Gonçalves

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Neste país que às vezes faz de conta, desapareceu uma quantidade enorme de explosivos de um paiol, no polígono militar de Tancos. Anda agora tudo num virote, para apurar responsabilidades e caçar os autores do roubo, ou furto, que o Direito é muito torto nestas coisas de denominar… coisas. Constataram-se várias situações anómalas neste problema, grave. A saber:

Um – Não havia câmaras de vigilância;

Dois – A vedação estava deteriorada, rota, numa extensão considerável e

Três – Não se sabe bem o que desapareceu.

Bom, a mim ocorre-me tanta explicação para o ocorrido que vou enumerar apenas algumas, para não ser chato:

- O armamento nunca entrou no paiol, apesar de ter sido recepcionado formalmente.

- Vingando esta tese, haveria que criar uma manobra de diversão para justificar a falta do armamento.

- Alguém de dentro da base informou os assaltantes do que estava armazenado.

- Alguém de fora da base, informado por alguém de dentro da base, entregou a alguém uma lista detalhada do que pretendia surripiar.

- Alguém de fora da base, sabendo da existência daquele tipo de armamento, fez os contactos certos dentro da base, para que fosse facilitado o assalto.

Não sendo investigador, mas sendo um leitor compulsivo de policiais, parece-me haver aqui matéria mais suficiente para uma investigação célere. Curioso é uma fonte qualquer ter dito que os assaltantes estavam referenciados. A ser verdade, sabe-se então quem foram os larápios. Porque não se prendem então?

Não me quero meter pelo caminho dos cortes orçamentais dos últimos anos, que podem muito bem justificar este caso, mas também podem não ter nada a ver, depende dos seus contornos (se o material nem chegou a entrar, p.e., os cortes serão irrelevantes). O que eu sei é que nas forças armadas, há demasiados chefes para tão poucos índios. E tanto chefe sem nada para fazer, morre de tédio e às vezes o ócio é inimigo do bom senso…

Ah! Parece que ali ao lado, em Sta Margarida, a coisa não difere muito.

Redução do tempo de aulas

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Texto de Edmundo Gonçalves

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O Ministério da Educação decidiu aumentar o tempo de recreio dos alunos do primeiro ciclo em meia hora. Devo já dizer que, não sendo nem de perto nem de longe especialista no assunto ( a palavra matéria é mais para os políticos ), acho uma medida acertada.

Parece-me que a carga horária das crianças nas escolas as impede de serem isso mesmo, crianças. Se é verdade que as crianças devem frequentar a escola ( esse é um facto inquestionável ), elas devem ter não apenas a oportunidade, mas o direito à brincadeira. Vivemos numa sociedade demasiado competitiva, que começa cada vez mais cedo a selecção das pessoas e, salvo melhor opinião, parece-me que as crianças deviam ser poupadas e defendidas nos seus direitos. Brincar é talvez tão importante para uma criança, como aprender a ler e a escrever.

Dar às crianças o seu tempo para o usarem como as crianças o devem usar é uma medida inteligente, não tenho qualquer dúvida. No meu tempo, na classe do professor Correia, as aulas eram de manhã. A tarde era dedicada a sermos crianças, à brincadeira, aos índios e cowboys, à bicicleta e à bola. Não havia o fastidioso carrego dos TPC’s, uma coisa que eu encontrei quando os meus filhos chegaram à escola e que sempre considerei uma aberração, com a agravante de o tempo de aulas ser composto por dois períodos, manhã e tarde. Qualquer deles, bastas vezes, trouxe na caderneta o reparo de não ter feito os trabalhos de casa. Inevitavelmente um dos pais lá escrevia que o menino não teve tempo, porque estava a ser menino.

Vejam isto desta forma, não será difícil, vocês que têm um emprego: trabalham sete ou oito horas nos vossos empregos e o vosso chefe ou patrão dá-vos mais uns trabalhinhos extra para fazerem em casa. Gostavam? Pois claro que não e são adultos com outro entendimento. Imaginem as pobres crianças…

Já agora, parece que as associações de pais querem que esse tempo seja de qualidade e em segurança. Quanto à segurança, plenamente de acordo, já quanto à qualidade percebe-se que virá aí exigência de acompanhamento ou actividades extra-curriculares. Porra, meus senhores, deixem as crianças simplesmente BRIN-CAR! 

Nota final: Na última crónica ameacei dar um traque. Descansem, foi apenas ameaça. Eu não tenho a pretensão de cantar como o Salvador.

Não, não é Photoshop. É melanina e da boa!

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Texto de Edmundo Gonçalves

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Lembram-se de aqui há atrasado ter falado da minha ascendência ali para os lados do Mar Negro, à cause dos meus olhos azuis? Claro que lembram, vocês lêem tudo o que eu escrevo (se eu der agora um peido, vocês aplaudem, aposto). Também se lembram de uma tal de melanina, correcto? Bom, mas isso agora não interessa nada, como diria a “outra”; Já lá vamos ao ponto.

Nas notícias para encher que os vários sites vão publicando encontrei uma curiosa, sobre uma jovem modelo sud-sudanesa ( do Sudão do Sul, quero eu dizer ), apodada de “A Rainha do Preto”. Bom, como à partida lá estava a naturalidade da jovem, não contei que fosse por usar roupa preta, mas confesso-lhes que fiquei surpreendido com a quantidade de melanina que a miúda produz! É que ela é mesmo preta. Preta, preta, mesmo! Não é azul escura, não é “negra”, não é castanha escura, não é chocolate, não é “terra” (já viram a minha panóplia de cores para mulheres africanas? Priceless…), é PRETA! Como aliás podem constatar pelas fotos anexas. E ainda por cima é linda a magana. E ao que consta também tem uma personalidade forte: “O preto é ousado, o preto é lindo, o preto é ouro... Não deixem os padrões americanos danificarem as vossas almas africanas”, terá dito na sequência do conselho, algo estúpido (direi provavelmente melhor – algo americano), de um motorista UBER que lhe recomendou o uso de lixívia para aclarar a pele.

Duas conclusões desta pequena notícia sem qualquer relevância, uma séria e outra nem tanto: A primeira é que o preconceito racista é ainda uma praga muito difícil de erradicar, até num país que teve um presidente negro e a segunda, é que se fosse em Portugal e apanhasse o Máximo ao volante, com uma carinha daquelas estava a pôr-se a jeito para uma violação.

Pronto, chama-se Nyakim Gatwech, vive em Minneapolis, no estado norte-americano do Minnesota e se quiserem saber mais, procurem, que foi o que eu fiz! Mas não se fiem em tudo o que se publica, que já há quem diga que é Photoshop mesmo…

Fiquem então com as fotos da preta e as saudações do branco. Algo me diz que apreciarão mais a primeira.

Às sextas com os Tachos: Cascas

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Receitas de Edmundo Gonçalves

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Umas entradas que podem ser refeição, depende da quantidade que se quiser, ou puder, consumir…

Conquilhas

Ingredientes

1kg de conquilhas frescas (se acabadinhas de apanhar, tanto melhor)

2 ou 3 dentes de alho

Meia-dúzia de pés de coentros

1 limão

Uma pitada de azeite

 

Preparação

Depois de deixar limpar as conquilhas em água do mar, de preferência, ou em água salada, durante algumas horas, colocar numa frigideira funda o azeite, os alhos esmagados com casca e os coentros; Quando a azeite estiver a ferver, juntar as conquilhas e tapar, deixando que abram em lume brando. Servir de imediato para que não percam a água.

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Ameijoas à Bulhão Pato

Ingredientes

1kg de ameijoa (preta ou macha, de preferência)

2 ou 3 dentes de alho

1dl de azeite

Meia-dúzia de pés de coentros

1dl de vinho branco

Preparação

Esmagar os alhos e juntar ao azeite numa frigideira e deixar alourar. Juntar as ameijoas e deixar abrir em lume brando, volteando regularmente o recipiente. No final acrescentar o vinho branco, deixar evaporar e de seguida juntar os coentros picados. Servir de imediato.

Nota: Para quem goste, pode adicionar um pouco de mostarda juntamente com o vinho branco. 

Servir com pão torrado e um verde gelado. Sugere-se um Alvarinho que me enche as medidas: Deu-la-deu, Premium, da Adega Cooperativa Regional de Monção ( e Melgaço ).

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O Salvador deu um traque

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Texto de Edmundo Gonçalves

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Bocage, o enorme Elmano Sadino, como a ele próprio se referia por pseudónimo, consta ter sofrido de grave flatulência e de não ter pudor algum em libertar-se de gases, independentemente do local e das companhias. Consta que terá, certa noite de baile de gala na corte, soltado descaradamente um traque, perfeitamente audível por sobre o som dos metais e cordas da orquestra de câmara que animava os convivas.

De imediato e em consequência do geral rodar de cabeças em sua direcção, o vate, com a sagacidade e agilidade retórica que se lhe conhecia, ali mesmo, de imediato, apontou uma dama que lhe terá negado favores de alcofa e terá, despudoradamente afirmado “meus senhores, o peido que aquela senhora deu, não foi ela, fui eu!” O Salvador não se peidou, mas terá deixado sair com aquele comentário a despropósito, muito do capital de simpatia que detinha entre os portugueses. Quanto a Bocage, o “conto” não passará disso mesmo, um estória(eta).  Quanto ao Salvador, confesso que, como anósmico, pode peidar-se à vontade que não me incomoda. Acho é que terá que ter cuidado com os traques.

Santa Iria

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Texto de Edmundo Gonçalves

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A minha primeira memória da Feira de Santa Iria tem a ver com uma camioneta enorme, de madeira, que durou até eu me colocar em cima dela para tentar descer um carreiro íngreme que havia perto da casa da minha avó. Deveria ter aí uns quatro, cinco anos, antes de me mudar para a cidade, aos sete. A camioneta provavelmente não seria tão grande como eu a via, deveria ser proporcional ao meu tamanho, de modo que talvez não fosse tão grande assim.

Depois da mudança para a cidade e para a classe do professor Correia, a Feira era o acontecimento do ano, com a parafernália de divertimentos, das barracas de tiros, dos “robertos”, o teatro de marionetas, da barraca dos espelhos, do comércio de tudo e mais alguma coisa, com muita luz e com milhares de pessoas a visitá-la. O circo era o Mariano, onde ouvi e vi pela primeira vez Fernando Farinha que era uma vedeta da rádio, um fadista barreirense adoptado pelo bairro lisboeta da Bica e que mais tarde (o Mundo é um penico) vim a conhecer pessoalmente e a privar. Bom, os meus pais é que gostavam do fadista, eu ia ao Mariano mais por outras atracções. Sempre me fascinou ver os trapezistas, ainda hoje me fascina, voltas e mais voltas e piruetas e mortais;  Aos animais não achava muita piada, mas não perdia a visita às jaulas, com eles ali mesmo à mão, num misto de audácia e “cagufa”. E havia o Poço da Morte, com o Joselito na mota e o pai num carro, num rodopiar louco à volta das paredes, com o rosto tapado, sem mãos, de joelhos e o aplauso efusivo no final “Arrojo, Audácia, Sangue Frio, venha ao Poço da Morte”. Uns heróis! Vim também a encontra-los mais tarde, na Feira Popular de Lisboa, através de um amigo que lá tinha um negócio e que me apresentou ao Joselito. Acreditem que foi uma enorme emoção, não tanto pelo acto, mas pela recordação do fascínio de infância. Acreditem, o Mundo é mesmo um penico!

E os carros de choque, tudo a andar à roda da pista, uma Indianápolis de miniatura, com as faúlhas a saltar da rede electrificada. E o carroussel, “mais uma volta, mais uma viagem, no Maravilha”, aquela bicharada toda a andar à roda sem parar, subindo e descendo, num efeito oito, fazendo um barulho só superado pelo berreiro das cornetas que passavam a música da moda e a voz fanhosa do tipo da cabine de comando “vá lá menina, compre uma senha e leva duas”. Confesso que não vou à Feira há mais de vinte anos, por nenhuma razão que não seja a de não estar em Tomar, mas recordo um episódio engraçado passado com uma rapaziada do Colégio Nun’Álvares, que num dia de soltura  por uma desavença qualquer com o tipo do carroussel, provavelmente porque se estariam a portar “bem”, não os ter deixado dar mais uma voltinha, saltaram p’ra cima daquela coisa e vai de arrancar a bicharada toda e carregar com alguns cavalos, burros, girafas e sei lá mais o quê, para o colégio. Chegaram ao mesmo tempo que a polícia. Segundo um amigo participante na “festa” e que reencontrei mais tarde profissionalmente, o “velho”, como era carinhosamente tratado o proprietário do colégio, o Dr. Raul Lopes, com o seu ar calmo perguntou à trupe “afinal o que é que se passou, porque é que trazem os bichos para o colégio?” “Doutor, o gajo não nos quis deixar andar no carrossel e a gente passou-se”. “Muito bem, os cavalos não saem daqui!”

Salva a honra dos seus alunos e do colégio e evidenciada a sua autoridade, no dia seguinte todos os implicados, numa camioneta, foram entregar os animais sobreviventes ao carroussel. Alguns coxos, outros mancos, mas a bicheza continuou a andar à roda para uma “nova corrida, nova viagem”…

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Patrícia Teixeira

Edmundo Gonçalves

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