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seainessabedisto

Os chefes e os índios

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Texto de Edmundo Gonçalves

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Neste país que às vezes faz de conta, desapareceu uma quantidade enorme de explosivos de um paiol, no polígono militar de Tancos. Anda agora tudo num virote, para apurar responsabilidades e caçar os autores do roubo, ou furto, que o Direito é muito torto nestas coisas de denominar… coisas. Constataram-se várias situações anómalas neste problema, grave. A saber:

Um – Não havia câmaras de vigilância;

Dois – A vedação estava deteriorada, rota, numa extensão considerável e

Três – Não se sabe bem o que desapareceu.

Bom, a mim ocorre-me tanta explicação para o ocorrido que vou enumerar apenas algumas, para não ser chato:

- O armamento nunca entrou no paiol, apesar de ter sido recepcionado formalmente.

- Vingando esta tese, haveria que criar uma manobra de diversão para justificar a falta do armamento.

- Alguém de dentro da base informou os assaltantes do que estava armazenado.

- Alguém de fora da base, informado por alguém de dentro da base, entregou a alguém uma lista detalhada do que pretendia surripiar.

- Alguém de fora da base, sabendo da existência daquele tipo de armamento, fez os contactos certos dentro da base, para que fosse facilitado o assalto.

Não sendo investigador, mas sendo um leitor compulsivo de policiais, parece-me haver aqui matéria mais suficiente para uma investigação célere. Curioso é uma fonte qualquer ter dito que os assaltantes estavam referenciados. A ser verdade, sabe-se então quem foram os larápios. Porque não se prendem então?

Não me quero meter pelo caminho dos cortes orçamentais dos últimos anos, que podem muito bem justificar este caso, mas também podem não ter nada a ver, depende dos seus contornos (se o material nem chegou a entrar, p.e., os cortes serão irrelevantes). O que eu sei é que nas forças armadas, há demasiados chefes para tão poucos índios. E tanto chefe sem nada para fazer, morre de tédio e às vezes o ócio é inimigo do bom senso…

Ah! Parece que ali ao lado, em Sta Margarida, a coisa não difere muito.

Redução do tempo de aulas

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Texto de Edmundo Gonçalves

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O Ministério da Educação decidiu aumentar o tempo de recreio dos alunos do primeiro ciclo em meia hora. Devo já dizer que, não sendo nem de perto nem de longe especialista no assunto ( a palavra matéria é mais para os políticos ), acho uma medida acertada.

Parece-me que a carga horária das crianças nas escolas as impede de serem isso mesmo, crianças. Se é verdade que as crianças devem frequentar a escola ( esse é um facto inquestionável ), elas devem ter não apenas a oportunidade, mas o direito à brincadeira. Vivemos numa sociedade demasiado competitiva, que começa cada vez mais cedo a selecção das pessoas e, salvo melhor opinião, parece-me que as crianças deviam ser poupadas e defendidas nos seus direitos. Brincar é talvez tão importante para uma criança, como aprender a ler e a escrever.

Dar às crianças o seu tempo para o usarem como as crianças o devem usar é uma medida inteligente, não tenho qualquer dúvida. No meu tempo, na classe do professor Correia, as aulas eram de manhã. A tarde era dedicada a sermos crianças, à brincadeira, aos índios e cowboys, à bicicleta e à bola. Não havia o fastidioso carrego dos TPC’s, uma coisa que eu encontrei quando os meus filhos chegaram à escola e que sempre considerei uma aberração, com a agravante de o tempo de aulas ser composto por dois períodos, manhã e tarde. Qualquer deles, bastas vezes, trouxe na caderneta o reparo de não ter feito os trabalhos de casa. Inevitavelmente um dos pais lá escrevia que o menino não teve tempo, porque estava a ser menino.

Vejam isto desta forma, não será difícil, vocês que têm um emprego: trabalham sete ou oito horas nos vossos empregos e o vosso chefe ou patrão dá-vos mais uns trabalhinhos extra para fazerem em casa. Gostavam? Pois claro que não e são adultos com outro entendimento. Imaginem as pobres crianças…

Já agora, parece que as associações de pais querem que esse tempo seja de qualidade e em segurança. Quanto à segurança, plenamente de acordo, já quanto à qualidade percebe-se que virá aí exigência de acompanhamento ou actividades extra-curriculares. Porra, meus senhores, deixem as crianças simplesmente BRIN-CAR! 

Nota final: Na última crónica ameacei dar um traque. Descansem, foi apenas ameaça. Eu não tenho a pretensão de cantar como o Salvador.

Não, não é Photoshop. É melanina e da boa!

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Texto de Edmundo Gonçalves

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Lembram-se de aqui há atrasado ter falado da minha ascendência ali para os lados do Mar Negro, à cause dos meus olhos azuis? Claro que lembram, vocês lêem tudo o que eu escrevo (se eu der agora um peido, vocês aplaudem, aposto). Também se lembram de uma tal de melanina, correcto? Bom, mas isso agora não interessa nada, como diria a “outra”; Já lá vamos ao ponto.

Nas notícias para encher que os vários sites vão publicando encontrei uma curiosa, sobre uma jovem modelo sud-sudanesa ( do Sudão do Sul, quero eu dizer ), apodada de “A Rainha do Preto”. Bom, como à partida lá estava a naturalidade da jovem, não contei que fosse por usar roupa preta, mas confesso-lhes que fiquei surpreendido com a quantidade de melanina que a miúda produz! É que ela é mesmo preta. Preta, preta, mesmo! Não é azul escura, não é “negra”, não é castanha escura, não é chocolate, não é “terra” (já viram a minha panóplia de cores para mulheres africanas? Priceless…), é PRETA! Como aliás podem constatar pelas fotos anexas. E ainda por cima é linda a magana. E ao que consta também tem uma personalidade forte: “O preto é ousado, o preto é lindo, o preto é ouro... Não deixem os padrões americanos danificarem as vossas almas africanas”, terá dito na sequência do conselho, algo estúpido (direi provavelmente melhor – algo americano), de um motorista UBER que lhe recomendou o uso de lixívia para aclarar a pele.

Duas conclusões desta pequena notícia sem qualquer relevância, uma séria e outra nem tanto: A primeira é que o preconceito racista é ainda uma praga muito difícil de erradicar, até num país que teve um presidente negro e a segunda, é que se fosse em Portugal e apanhasse o Máximo ao volante, com uma carinha daquelas estava a pôr-se a jeito para uma violação.

Pronto, chama-se Nyakim Gatwech, vive em Minneapolis, no estado norte-americano do Minnesota e se quiserem saber mais, procurem, que foi o que eu fiz! Mas não se fiem em tudo o que se publica, que já há quem diga que é Photoshop mesmo…

Fiquem então com as fotos da preta e as saudações do branco. Algo me diz que apreciarão mais a primeira.

Às sextas com os Tachos: Cascas

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Receitas de Edmundo Gonçalves

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Umas entradas que podem ser refeição, depende da quantidade que se quiser, ou puder, consumir…

Conquilhas

Ingredientes

1kg de conquilhas frescas (se acabadinhas de apanhar, tanto melhor)

2 ou 3 dentes de alho

Meia-dúzia de pés de coentros

1 limão

Uma pitada de azeite

 

Preparação

Depois de deixar limpar as conquilhas em água do mar, de preferência, ou em água salada, durante algumas horas, colocar numa frigideira funda o azeite, os alhos esmagados com casca e os coentros; Quando a azeite estiver a ferver, juntar as conquilhas e tapar, deixando que abram em lume brando. Servir de imediato para que não percam a água.

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Ameijoas à Bulhão Pato

Ingredientes

1kg de ameijoa (preta ou macha, de preferência)

2 ou 3 dentes de alho

1dl de azeite

Meia-dúzia de pés de coentros

1dl de vinho branco

Preparação

Esmagar os alhos e juntar ao azeite numa frigideira e deixar alourar. Juntar as ameijoas e deixar abrir em lume brando, volteando regularmente o recipiente. No final acrescentar o vinho branco, deixar evaporar e de seguida juntar os coentros picados. Servir de imediato.

Nota: Para quem goste, pode adicionar um pouco de mostarda juntamente com o vinho branco. 

Servir com pão torrado e um verde gelado. Sugere-se um Alvarinho que me enche as medidas: Deu-la-deu, Premium, da Adega Cooperativa Regional de Monção ( e Melgaço ).

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O Salvador deu um traque

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Texto de Edmundo Gonçalves

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Bocage, o enorme Elmano Sadino, como a ele próprio se referia por pseudónimo, consta ter sofrido de grave flatulência e de não ter pudor algum em libertar-se de gases, independentemente do local e das companhias. Consta que terá, certa noite de baile de gala na corte, soltado descaradamente um traque, perfeitamente audível por sobre o som dos metais e cordas da orquestra de câmara que animava os convivas.

De imediato e em consequência do geral rodar de cabeças em sua direcção, o vate, com a sagacidade e agilidade retórica que se lhe conhecia, ali mesmo, de imediato, apontou uma dama que lhe terá negado favores de alcofa e terá, despudoradamente afirmado “meus senhores, o peido que aquela senhora deu, não foi ela, fui eu!” O Salvador não se peidou, mas terá deixado sair com aquele comentário a despropósito, muito do capital de simpatia que detinha entre os portugueses. Quanto a Bocage, o “conto” não passará disso mesmo, um estória(eta).  Quanto ao Salvador, confesso que, como anósmico, pode peidar-se à vontade que não me incomoda. Acho é que terá que ter cuidado com os traques.

Santa Iria

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Texto de Edmundo Gonçalves

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A minha primeira memória da Feira de Santa Iria tem a ver com uma camioneta enorme, de madeira, que durou até eu me colocar em cima dela para tentar descer um carreiro íngreme que havia perto da casa da minha avó. Deveria ter aí uns quatro, cinco anos, antes de me mudar para a cidade, aos sete. A camioneta provavelmente não seria tão grande como eu a via, deveria ser proporcional ao meu tamanho, de modo que talvez não fosse tão grande assim.

Depois da mudança para a cidade e para a classe do professor Correia, a Feira era o acontecimento do ano, com a parafernália de divertimentos, das barracas de tiros, dos “robertos”, o teatro de marionetas, da barraca dos espelhos, do comércio de tudo e mais alguma coisa, com muita luz e com milhares de pessoas a visitá-la. O circo era o Mariano, onde ouvi e vi pela primeira vez Fernando Farinha que era uma vedeta da rádio, um fadista barreirense adoptado pelo bairro lisboeta da Bica e que mais tarde (o Mundo é um penico) vim a conhecer pessoalmente e a privar. Bom, os meus pais é que gostavam do fadista, eu ia ao Mariano mais por outras atracções. Sempre me fascinou ver os trapezistas, ainda hoje me fascina, voltas e mais voltas e piruetas e mortais;  Aos animais não achava muita piada, mas não perdia a visita às jaulas, com eles ali mesmo à mão, num misto de audácia e “cagufa”. E havia o Poço da Morte, com o Joselito na mota e o pai num carro, num rodopiar louco à volta das paredes, com o rosto tapado, sem mãos, de joelhos e o aplauso efusivo no final “Arrojo, Audácia, Sangue Frio, venha ao Poço da Morte”. Uns heróis! Vim também a encontra-los mais tarde, na Feira Popular de Lisboa, através de um amigo que lá tinha um negócio e que me apresentou ao Joselito. Acreditem que foi uma enorme emoção, não tanto pelo acto, mas pela recordação do fascínio de infância. Acreditem, o Mundo é mesmo um penico!

E os carros de choque, tudo a andar à roda da pista, uma Indianápolis de miniatura, com as faúlhas a saltar da rede electrificada. E o carroussel, “mais uma volta, mais uma viagem, no Maravilha”, aquela bicharada toda a andar à roda sem parar, subindo e descendo, num efeito oito, fazendo um barulho só superado pelo berreiro das cornetas que passavam a música da moda e a voz fanhosa do tipo da cabine de comando “vá lá menina, compre uma senha e leva duas”. Confesso que não vou à Feira há mais de vinte anos, por nenhuma razão que não seja a de não estar em Tomar, mas recordo um episódio engraçado passado com uma rapaziada do Colégio Nun’Álvares, que num dia de soltura  por uma desavença qualquer com o tipo do carroussel, provavelmente porque se estariam a portar “bem”, não os ter deixado dar mais uma voltinha, saltaram p’ra cima daquela coisa e vai de arrancar a bicharada toda e carregar com alguns cavalos, burros, girafas e sei lá mais o quê, para o colégio. Chegaram ao mesmo tempo que a polícia. Segundo um amigo participante na “festa” e que reencontrei mais tarde profissionalmente, o “velho”, como era carinhosamente tratado o proprietário do colégio, o Dr. Raul Lopes, com o seu ar calmo perguntou à trupe “afinal o que é que se passou, porque é que trazem os bichos para o colégio?” “Doutor, o gajo não nos quis deixar andar no carrossel e a gente passou-se”. “Muito bem, os cavalos não saem daqui!”

Salva a honra dos seus alunos e do colégio e evidenciada a sua autoridade, no dia seguinte todos os implicados, numa camioneta, foram entregar os animais sobreviventes ao carroussel. Alguns coxos, outros mancos, mas a bicheza continuou a andar à roda para uma “nova corrida, nova viagem”…

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De olhos bem fechados

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Texto de Edmundo Gonçalves

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O tempo, esse “criminoso”, parece não lhe prestar grande atenção, mas a verdade é que uma das actrizes mais profícuas da indústria cinematográfica, por tudo, desde a sua competência e versatilidade, até ao seu narizinho arrebitado que lhe valeu um papel que representou de forma ímpar em “Casei Com Uma Feiticeira”, fez ontem, 21 de Junho, cinquenta anos.

A “malta” tem alguma tendência em apenas olhar para o seu umbigo e preocupar-se apenas com o passar dos seus anos e quando olha em seu redor com olhos de ver, conclui que os outros também são atingidos pela “desgraça”. É certo que com uns, talvez por algum pacto secreto com o demo ou com algum anjo mais condescendente, o tempo é mais permissivo, deixando-os com um aspecto que até aos próprios provavelmente enganará. Eu falo por mim, que tenho o ar de um jovem de 25 anos, não fora as dores nas “cruzes” fazerem questão de me lembrar que fiz há dias 57 (eheh).

Querem falar sobre A Intérprete, O Mistério, Mulheres Perfeitas, Dogville, Cold Mountain, From Russia With Love, Os Outros, Moulin Rouge, o icónico Eyes Wide Shut, O Pacificador, Retrato de Uma Senhora, Batman Forever,  Horizonte Longínquo, do enorme Billy Bathgate, Dias de Tempestade, Um Editor de Génios, Raínha do Deserto, Grace ou The Railway Man num total de 54 longas metragens, algumas delas magistralmente vividas?

Não sou muito de ícones. Mandela e Luther King serão talvez dois dos que terão para mim esse estatuto, os restantes serão mortais um pouco mais virtuosos ou engajados do que outros, apesar da importância que possam ter tido nas suas épocas e que poderão até ter revolucionado a evolução e a história da humanidade. Desse modo não idolatro quem quer que seja; Esta é apenas uma crónica de fait-divers sobre uma excelente actriz, Nicole Kidman e que serve também para quem possa revisitar a sua obra, o faça com olhos de ver. Parabéns então Nicole, Engana-me que eu Gosto.

 

Fogo que arde e se vê

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Texto de Edmundo Gonçalves

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Há uns anos fui à Alemanha. Na época o país de Willy Brandt e da social-democracia e já um dos mais industrializados da Europa e do Mundo. Em conversa com o meu primo, que ainda por lá está e já é alemão por opção, pelo menos no que à forma de ver o Mundo e a vida diz respeito, lembro-me de comentar sobre um enorme campo de trigo a perder de vista perto da sua casa em Hameln, “é pá, o dono disto deve ser um “ganda” latifundiário, nem se vê o fim do campo”.

O Fernando não percebeu o meu comentário e obrigou-me a repetir que aquilo devia ser dum “gajo” cheio da “bagalhoça”, com um latifúndio assim tão grande. Ele riu-se quando percebeu e respondeu com o ar mais natural do Mundo que aquilo seria provavelmente de mais de cem ou duzentos proprietários e que até as máquinas e alfaias que se viam eram propriedade da cooperativa. Confesso que a minha alma ficou parva. Na Alemanha, um país capitalista, preponderante na política europeia, os donos de pequenas parcelas de terreno entendiam-se e juntavam esforços para fazer render a terra, a puxarem todos para o mesmo lado. 

Dei por mim a pensar em voz alta que, na altura, se no centro e norte de Portugal alguém propusesse tal solução para o estrangulado (ainda hoje e cada vez mais) minifúndio rural, seria apelidado de perigoso comunista e acusado de querer roubar as terras aos seus legítimos proprietários. Vem isto a propósito do incêndio trágico de Pedrógão, que vitimou por agora 64 pessoas. Tendo durante a minha vida profissional estado ligado à prevenção de fogos florestais e ao primeiro combate a incêndios, coordenando equipes de sapadores florestais, aprendi em formação adequada que o grande inimigo da floresta é o péssimo ordenamento da mesma. As várias tentativas, umas mais outras menos meritórias, feitas por alguns governantes verdadeiramente preocupados com o assunto, tem esbarrado sempre na oposição dos pequenos proprietários, que resistem à agregação das suas pequenas parcelas de “meia-dúzia” de pinheiros ou eucaliptos, com o receio de que lhe roubem a sua propriedade.

Ainda ontem o secretário de estado da agricultura, que está a tentar implementar medidas que me parecem válidas e com pernas para andar, tratou com pinças este assunto num programa de televisão. Não sendo catedrático da matéria, mas conhecendo a orografia da maior parte da nossa floresta, só com medidas drásticas de regularização do coberto se poderá começar a pensar em prevenção. É certo que a população proprietária dessas pequenas parcelas está empobrecida e não tem condições monetárias para proceder à necessária limpeza dos solos, mas este incêndio em particular, em fogo de copa em eucaliptos, despreza por completo o solo e progride a uma velocidade estonteante.

Correndo o risco de ser apelidado de perigoso e gatuno, eu sugeria a estas pessoas que olhassem para o exemplo alemão de que falei acima. E se elas não têm acesso a ele, que lho mostrem, em sessões lembrando as de alfabetização de 1974/75.

Para bem da floresta, mas principalmente deles próprios.

O Kalim Kalam

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Texto de Edmundo Gonçalves

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Kalim Kalam, ou Calim Calam, ou Calim Calã, porque provavelmente é esta a primeira vez que esta alcunha é escrita, não há uma grafia que a identifique. A mim agrada-me a primeira, ficaremos pela primeira. Retomando, Kalim Kalam era um tipo enorme de que tenho uma memória muito difusa. Era um brutamontes, grande em força, mas também em manha. Trabalhava e vivia nas obras, basicamente era aquilo a que se costumava designar por um pobre diabo. Era um trabalhador indiferenciado, especializado em absolutamente nada, fazia todas as tarefas básicas a ver com o ofício. Fazia a massa, descarregava e fornecia aos pedreiros os tijolos, limpava e guardava a obra durante a noite, impedindo os roubos de materiais e ferramentas. Um indivíduo do seu tamanho, ainda que sem acção, intimidava se alguém o visse na noite escura.

E fazia a comida para o pessoal. A comida, como tudo naquela altura, era escassa e aqueles trabalhadores precisavam de ser alimentados. Hoje há maquinetas para tudo e uma casa faz-se quase sozinha, mas nem sempre foi assim. De modo que na hora do tacho, os esganados apareciam e o Kalim ficava, as mais das vezes, a ver navios. Ficava com os restos da sopa, que era pouco mais que água com gordura e umas folhas de couve.

Até que Kalim abriu os olhos um dia! Antes de bater no “gongo” para chamar a rapaziada para a manga, batia-se com um ou dois “discos” de sopa e tratava dos enchidos. A malta reclamava em coro, mas o patrão garantia que tinha mandado comprar tudo. E Kalim esperava pela sua vez, ordeiramente, como sempre. Durante algum tempo ninguém se lembrou que a marosca poderia vir de onde menos se esperava, até que a um dos colegas, vendo que Kalim se resignava sem as costumeiras reclamações, lhe passou isso pela cabeça. Meu dito, meu feito, no dia seguinte perto da hora em que Kalim começava a preparar a sopa de carne, o nosso amigo colocou-se de atalaia. Kalim Kalan fez a fogueira com tábuas velhas de andaime, meteu-lhe a trempe de ferro por cima e em cima dela a panela também de ferro e encheu-a de água, esperando que levantasse fervura. O outro desesperava, escondido. A coisa foi avançando e Kalim, entre um balde de massa e uns tijolos que levava escadas acima, às costas, ia vigiando o panelão. Até que, quando calculou que a coisa já estivesse quase no ponto, se dedicou à sopa em exclusivo, tratando de lá colocar todos os ingredientes. Passado pouco tempo, lá de cima do seu posto de vigia, o outro foi vendo Kalim tirar a tampa, pegar na colher de pau e começar a mexer a sopa. Chegou-se mais perto quando se apercebeu que Kalim falava para a panela, ficando junto a uma pilha de tijolos que Kalim para ali tinha levado e foi ouvindo “passa a senhora couve” e rodava a colher, “passa a senhora massa” e continuava “passa a senhora morcela… passa o senhor chipe” e rodava, rodava, procurando todos os ingredientes, “passa a senhora farinheira… passa o senhor nabo… passa a senhora batata”, cada vez com mais atenção “passa a senhora cenoura”, com ar de enfado. Até que por fim exclama, com um ar triunfante: “Passa o senhor chouriço! Alto lá senhor chouriço, está preso à ordem de Kalim Kalam!”

Esse foi o dia em que Kalim Kalam foi parar ao hospital da Misericórdia com a cabeça aberta por um tijolo. Sem almoçar…

Que viva la madre de diós

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Texto de Edmundo Gonçalves

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 Quem me acompanha, saberá que não professo qualquer religião. Sem tecer quaisquer considerandos, respeito todos e cada crente, bem como todos os credos. E como espírito aberto, lá fui, com a troupe do costume e mais umas novidades agradáveis, à romaria em honra da virgem de El Rocío.

Já vos tinha dito no ano passado, numa crónica semelhante, que aquilo é um misto de Fátima com a Feira da Golegã. Há o factor religião, que é importante e está sempre presente, mas também há a festa, os cavalos, as charretes, as sevilhanas e os fatos riquíssimos que elas e eles, mais elas como é usual, envergam.

Dezenas de milhares de pessoas de toda a Espanha, especialmente da Extremadura, deslocam-se para uma festa. A diferença entre esta romaria e Fátima é mesmo esta! A Fátima, principalmente os católicos, deslocam-se com um sentimento completamente diferente dos que acodem ao chamamento da virgen del Rocío, o chamamento religioso está lá todo, mas há um lado, chamemos-lhe profano, que está lá e é preponderante. É vulgar assistir a pares ou a  grupos de homens e mulheres, trajados a preceito, dançando sevilhanas, ao som da música tradicional andaluza. Se há por ali promessas em pagamento, elas serão liquidadas com copas e música, que não se vê ninguém humilhando-se a desfilar ajoelhado.

É notório o sentimento de felicidade estampado no rosto de todos, e por ali haverá também gente que sofre, certamente; Viram-se dentro da pequena igreja, com um altar espectacular em talha dourada, crianças e jovens deficientes profundos acompanhados dos pais certamente e outros familiares, no entanto o sentimento dentro do espaço era de alegria contagiante, com um coro que cantava… flamenco.

Para quem não crê e vê aquela romaria de fora, é contudo impossível não sentir-se contagiado. Ali há uma religiosidade que não é castigadora, que não é triste, que não é fatalista e é fácil entrar no espírito. Ali a religião, não esquecendo que estão ali pessoas profundamente católicas, faz parte de um todo e sem toda a restante envolvência, provavelmente não existiria romaria. Para aqueles romeiros a ida a El Rocío é uma festa. E quem de nós não está disponível para uma festa?. A profusão de sentimentos é tão grande, que tenho a certeza que com a ajuda de algumas fotos, das centenas que fizemos, compreenderão melhor o que estou a tentar passar-lhes. Desfrutem.

 

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