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Se a inês sabe disto

O Salvador deu um traque

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Texto de Edmundo Gonçalves

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Bocage, o enorme Elmano Sadino, como a ele próprio se referia por pseudónimo, consta ter sofrido de grave flatulência e de não ter pudor algum em libertar-se de gases, independentemente do local e das companhias. Consta que terá, certa noite de baile de gala na corte, soltado descaradamente um traque, perfeitamente audível por sobre o som dos metais e cordas da orquestra de câmara que animava os convivas.

De imediato e em consequência do geral rodar de cabeças em sua direcção, o vate, com a sagacidade e agilidade retórica que se lhe conhecia, ali mesmo, de imediato, apontou uma dama que lhe terá negado favores de alcofa e terá, despudoradamente afirmado “meus senhores, o peido que aquela senhora deu, não foi ela, fui eu!” O Salvador não se peidou, mas terá deixado sair com aquele comentário a despropósito, muito do capital de simpatia que detinha entre os portugueses. Quanto a Bocage, o “conto” não passará disso mesmo, um estória(eta).  Quanto ao Salvador, confesso que, como anósmico, pode peidar-se à vontade que não me incomoda. Acho é que terá que ter cuidado com os traques.

De olhos bem fechados

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Texto de Edmundo Gonçalves

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O tempo, esse “criminoso”, parece não lhe prestar grande atenção, mas a verdade é que uma das actrizes mais profícuas da indústria cinematográfica, por tudo, desde a sua competência e versatilidade, até ao seu narizinho arrebitado que lhe valeu um papel que representou de forma ímpar em “Casei Com Uma Feiticeira”, fez ontem, 21 de Junho, cinquenta anos.

A “malta” tem alguma tendência em apenas olhar para o seu umbigo e preocupar-se apenas com o passar dos seus anos e quando olha em seu redor com olhos de ver, conclui que os outros também são atingidos pela “desgraça”. É certo que com uns, talvez por algum pacto secreto com o demo ou com algum anjo mais condescendente, o tempo é mais permissivo, deixando-os com um aspecto que até aos próprios provavelmente enganará. Eu falo por mim, que tenho o ar de um jovem de 25 anos, não fora as dores nas “cruzes” fazerem questão de me lembrar que fiz há dias 57 (eheh).

Querem falar sobre A Intérprete, O Mistério, Mulheres Perfeitas, Dogville, Cold Mountain, From Russia With Love, Os Outros, Moulin Rouge, o icónico Eyes Wide Shut, O Pacificador, Retrato de Uma Senhora, Batman Forever,  Horizonte Longínquo, do enorme Billy Bathgate, Dias de Tempestade, Um Editor de Génios, Raínha do Deserto, Grace ou The Railway Man num total de 54 longas metragens, algumas delas magistralmente vividas?

Não sou muito de ícones. Mandela e Luther King serão talvez dois dos que terão para mim esse estatuto, os restantes serão mortais um pouco mais virtuosos ou engajados do que outros, apesar da importância que possam ter tido nas suas épocas e que poderão até ter revolucionado a evolução e a história da humanidade. Desse modo não idolatro quem quer que seja; Esta é apenas uma crónica de fait-divers sobre uma excelente actriz, Nicole Kidman e que serve também para quem possa revisitar a sua obra, o faça com olhos de ver. Parabéns então Nicole, Engana-me que eu Gosto.

 

Fogo que arde e se vê

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Texto de Edmundo Gonçalves

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Há uns anos fui à Alemanha. Na época o país de Willy Brandt e da social-democracia e já um dos mais industrializados da Europa e do Mundo. Em conversa com o meu primo, que ainda por lá está e já é alemão por opção, pelo menos no que à forma de ver o Mundo e a vida diz respeito, lembro-me de comentar sobre um enorme campo de trigo a perder de vista perto da sua casa em Hameln, “é pá, o dono disto deve ser um “ganda” latifundiário, nem se vê o fim do campo”.

O Fernando não percebeu o meu comentário e obrigou-me a repetir que aquilo devia ser dum “gajo” cheio da “bagalhoça”, com um latifúndio assim tão grande. Ele riu-se quando percebeu e respondeu com o ar mais natural do Mundo que aquilo seria provavelmente de mais de cem ou duzentos proprietários e que até as máquinas e alfaias que se viam eram propriedade da cooperativa. Confesso que a minha alma ficou parva. Na Alemanha, um país capitalista, preponderante na política europeia, os donos de pequenas parcelas de terreno entendiam-se e juntavam esforços para fazer render a terra, a puxarem todos para o mesmo lado. 

Dei por mim a pensar em voz alta que, na altura, se no centro e norte de Portugal alguém propusesse tal solução para o estrangulado (ainda hoje e cada vez mais) minifúndio rural, seria apelidado de perigoso comunista e acusado de querer roubar as terras aos seus legítimos proprietários. Vem isto a propósito do incêndio trágico de Pedrógão, que vitimou por agora 64 pessoas. Tendo durante a minha vida profissional estado ligado à prevenção de fogos florestais e ao primeiro combate a incêndios, coordenando equipes de sapadores florestais, aprendi em formação adequada que o grande inimigo da floresta é o péssimo ordenamento da mesma. As várias tentativas, umas mais outras menos meritórias, feitas por alguns governantes verdadeiramente preocupados com o assunto, tem esbarrado sempre na oposição dos pequenos proprietários, que resistem à agregação das suas pequenas parcelas de “meia-dúzia” de pinheiros ou eucaliptos, com o receio de que lhe roubem a sua propriedade.

Ainda ontem o secretário de estado da agricultura, que está a tentar implementar medidas que me parecem válidas e com pernas para andar, tratou com pinças este assunto num programa de televisão. Não sendo catedrático da matéria, mas conhecendo a orografia da maior parte da nossa floresta, só com medidas drásticas de regularização do coberto se poderá começar a pensar em prevenção. É certo que a população proprietária dessas pequenas parcelas está empobrecida e não tem condições monetárias para proceder à necessária limpeza dos solos, mas este incêndio em particular, em fogo de copa em eucaliptos, despreza por completo o solo e progride a uma velocidade estonteante.

Correndo o risco de ser apelidado de perigoso e gatuno, eu sugeria a estas pessoas que olhassem para o exemplo alemão de que falei acima. E se elas não têm acesso a ele, que lho mostrem, em sessões lembrando as de alfabetização de 1974/75.

Para bem da floresta, mas principalmente deles próprios.

Está o baile armado

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Texto de Edmundo Gonçalves

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Está o baile armado

Ou a gerinçonça, em inglatónico

Usado por Dinis Machado na sua obra maior, O que diz Molero, para a descrição de uma zaragata de marinheiros americanos no Bairro Alto, “ o maior fogo-de-artifício de que há memória em matéria de pancadaria ”.  (…) uma coisa inglatónica”, define algo de grandioso no cinema da época, anos 40 do século XX, onde pontificavam bandidos da pior espécie e polícias de dedo algo nervoso.

Aqui o termo tem a ver com o país e o impasse a que se chegou depois das eleições que o partido conservador, no poder, provocou para consolidar uma maioria que lhe desse força para negociar uma melhor solução, na sua perspectiva, para a negociação da saída do Reino Unido da União Europeia. Como diz o povo, saiu-lhe o cão no carreiro e aquilo que se antevia para Theresa May uma jornada de glória e consagração, redundou num enorme bico-de-obra e numa bota muito difícil de descalçar.

Com a perda de doze deputados e o crescimento exponencial dos trabalhistas, não se antevê grande futuro político para a líder dos conservadores. Resta-lhe formar um governo de minoria, mas saberá que terá os trabalhistas a roer-lhe os calcanhares, ou procurar um acordo com os unionistas irlandeses do DUP, que segurarão, asseguram, a coligação enquanto Corbyn for o líder trabalhista.

Corbyn que já reclamou vitória. Desconheço o número de votos expressos, já que o sistema eleitoral em Inglaterra apenas faz eleger o mais votado de cada círculo, sendo os votos dos restantes literalmente mandados para o lixo (em Portugal o sistema proporcional permite a eleição de vários deputados por cada círculo), mas a correlação de forças prende-se por um cabelo: Com o acordo com os irlandeses, Theresa May tem apenas mais dois deputados para lhe garantir um desempate. E é aqui que entra a geringonça! Partindo do pressuposto que a raínha concederá a May licença para formar governo, terá este acordo força suficiente para se aguentar, ou pelo contrário será sol de pouca dura e obrigará à constituição de maiorias alternativas? Os trabalhistas já demonstraram vontade de assumir o governo e contam para isso com os escoceses, os verdes, os galeses e os liberais (que não estarão muito pelos ajustes) para formar uma maioria que será tão periclitante como a dos conservadores. Resta saber se a inédita solução portuguesa será viável na tão fleumática Inglaterra.

Em resumo, está aquilo a que se costuma designar como um baile armado. Esperemos que não descambe tudo numa cena “inglatónica”.

Faça-se luz

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Texto de Edmundo Gonçalves

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António Mexia, o “boss” da EDP foi constituído arguido aí num processo, por corrupção activa e passiva e participação económica em negócio. Para que conste, até prova em contrário, para mim o senhor é inocente. Já sobre um negócio da China feito com a energética aquando da abertura da comercialização a outras empresas, aquilo a que prosaicamente eles chamam de concorrência ou mercado livre, penso que há alguns que não serão tão inocentes e nesse grupo também estava António Mexia.

Sabem que em dez anos a EDP teve mil milhões de Euros (é muito zero à direita) de lucros e que desse valor, duzentos e cinquenta milhões, ou seja, “apenas” 25% foram de compensações pela perda do monopólio? Eu faço um desenho, para aqueles que ficaram um pouco toldados e ainda andam à procura da lógica na batata: A determinada altura o Estado português decidiu liberalizar o mercado de electricidade e achou por bem, esquecendo que para o bem ou para o mal estamos inseridos numa coisa que se costuma chamar de economia de mercado, achou por bem, dizia eu, compensar a empresa que iria passar a ter concorrência, precisamente aquela que não tinha que lutar por quotas de mercado, aquela que detinha 100% da clientela, pela perda de clientes. Pronto, agora é que não recuperam mesmo o juízo…

Bom, e não lhes falo daquela parte de que estamos todos a financiar a rede eólica, sendo que quem recolhe os lucros são os accionistas de EDP Renováveis, a EDP com parte de leão e outros, grandes ou pequenos accionistas. Sim, todos os meses há uma parte do valor que paga que é para financiar o plantio de aerogeradores um pouco por todo o país. Nada contra, se quem os pagar não seja quem nada recebe em troca. Estão de boca à banda, não estão? Pois eu também fiquei quando tive conhecimento dos números.

Isto quer dizer que a sua fatura e a de todos os clientes da EDP, poderia ser 25% mais barata. Imagine que paga agora 100 Euros de electricidade por mês. Pagaria 75! É dinheiro…Mas que raio, porque é que eu não tive visão e não fundei uma empresa destas, condenada a dar sempre lucro, mais não seja porque o Estado lho garante?

Só me deu para restaurantes. Parvo!