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Se a inês sabe disto

1974

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Texto de Edmundo Gonçalves

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Eu estava em casa, na Dr. Joaquim Jacinto, só tinha aulas à tarde no Liceu Nacional de Tomar, que ficava ali junto à rotunda e aos “Estaus”, andava no “segundo” ano, creio. A televisão tinha aqueles horários esquisitos, pelo menos o “segundo canal” não funcionava durante todo o dia. A esta distância, 43 anos, acho que emitia de manhã até às 14 ou 15 horas e depois voltava ao fim da tarde. No “segundo canal” dava umas séries juvenis francesas e americanas, algumas delas com alguma piada. Nesse dia 25 de Abril, estava programada a passagem de mais um episódio de Daktari, uma série americana passada na África Oriental e cujos protagonistas eram um leão vesgo e uma macaca; Ou seria de Skippy, uma australiana que tinha um canguru e um miúdo que assobiava com uma folha de uma planta qualquer, por protagonistas? Confesso que a memória já me atraiçoa e a convicção em Daktari não é a mesma desde há dois minutos…

Bom, o que eu sei é que “acendi” a televisão para assistir à série e aquilo tinha ainda àquela hora, p’raí 11 horas, a mira técnica. Nem sequer o tão célebre “pedimos desculpa por esta interrupção, o programa segue dentro de momentos”, que lá colocavam quando havia algum directo e o assunto não agradava ao regime. Passava-se qualquer coisa, a televisão devia estar avariada, devia ser “lá deles”. Eu estava quase nos 14 anos, não ouvia muito rádio, exceptuando os relatos dos jogos do Sporting, de modo que fui esperando que a emissão se iniciasse, de volta de um Tintin, provavelmente, ou de um Falcão.

Por volta do meio dia o meu pai veio almoçar e trazia com ele um exemplar de “O Século”, onde se dava conta do que acontecia e vinha todo sorridente. Nesse dia esse já desaparecido jornal haveria de imprimir um ror de edições, quase cada uma a cada comboio que chegava.

“Veterano” da distribuição de panfletos da UEC no liceu (impressos numa vietnamita, num segredo tão bem guardado que ninguém lá em casa soube até então, apesar de todos jogarmos no mesmo “clube”), embora bastante jovem, aquilo tudo embora fosse novidade (como para todos, quase), não era assunto desconhecido, tinha acontecido o levantamento das Caldas dois meses antes, previa-se que algo estava iminente, de modo que apesar de na televisão, que finalmente chegou à hora do telejornal do almoço, dizer para a malta ficar em casa, eu comi na “broa” e ala para o liceu. Não houve aulas, como seria de esperar, mas houve logo ali ajuntamento para tomar conta “daquilo”. A coisa foi entregue aos mais velhos e até final daquele ano lectivo foi um pouco, digamos… caótica, não diferindo do que se passou um pouco por todo o país. 

E pronto, foi um dia de festa, de libertação e de ajuste de contas com o futuro, que nos foi sendo roubado ao longo de 48 anos.

Um futuro que não é bem como a gente sonhava mas enfim,  é incomparavelmente melhor do que o que tínhamos e que nos impingiam.

Com quase 14 anos, lembro-me do primeiro pensamento nesse dia, relacionado com o que se estava a passar: “Já me livrei da guerra!” É que faltavam apenas cinco anos…